MONDO MODA entrevista Juliano Silveira sobre a cena alternativa em Campinas dos anos 90

Jornalista e influencer, Juliano Silveira é apaixonado por moda e pela cultura da noite. Como um personagem atuante, ele vivenciou os principais acontecimentos do universo LGBT da década de 90, quando surgiu o termo “cena” para se referir a um local com vida, regras e códigos próprios.
Editor do ‘Na Língua do Ju’, ele conversou com o MONDO MODA.

Quando começou seu interesse pela noite?

Começou nos anos 80’s com as matinês da Estratosfera e Apô. Não era noite especificamente, mas era balada em si. Nesta época eu também organizava “bailinhos” de garagem. Já era “promoter”! Rssss….Cuidava dos convites, do som, comida e bebida, organizava tudo e claro, a “dança da vassoura”. Isso, para um pré-adolescente dos anos 80 era tudo de bom que existia. A noite em si, foi no início dos anos 90, quando comecei a sair de verdade e o underground passou a ser palavra de ordem em jornais e revistas. Lia muito a coluna “Noite Ilustrada” da Erica Palomino, publicada na Folha de São Paulo. A coluna era referência para quem quisesse informação sobre noite e moda alternativa. Na época não existia a Internet e era complicado ter acesso a este tipo de informação. Ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo e que a partir dali seria criada uma cena noturna que viraria história com o surgimento de muitos fundamentos que vemos até a hoje.

Fale sobre o Maracujá, Central Bar e The Club.

Com certeza os três locais que você citou marcaram demais tanto a mim quanto a muitos campineiros, principalmente o Maracujá. Na época, não sabia ao certo se era GLS – nem existia esta sigla ainda – ou qual a proposta em si. Foi o primeiro espaço gay que eu pisei na vida. Mas como não era nada declarado, não considero o primeiro de verdade. Sabia-se que era algo diferente dos demais locais e quem o frequentava, era gay ou descolado demais. Mas era muito carão (ou um pré-carão, já que não existia este termo na época), tudo muito discreto. Era coisa de sentar-se à mesa e pedir bebida, ficar jogando papo fora. Não rolava “pegação”, mas quem frequentava, já entrava num clima de querer uma jogação, que passou a existir com a abertura do Fama, posteriormente The Club, primeiramente bar e depois boate.
O Maracujá foi um momento importante, talvez o primeiro bar GLS a entrar no Mainstream do que era moderno no início dos anos 90. Marcou-me mais talvez pelo primeiro espaço que frequentei com meu primeiro namorado, isso em 1994…

The Club Piscina @ YouTube

A The Club foi um marco histórico para a cidade. Quem viveu essa fase, sabe do que estou dizendo. Era coisa de obrigação, coisa de vício. Não tinha um final de semana que eu ficava sem ir até lá. Eu, você e o João Carlos! O marketing girava em torno de a maior boate GLS da América Latina. E na época, era mesmo. Tinha gente de todos os lugares, desde a região de Campinas, muita gente da capital, de outros estados e até país! Era uma verdadeira Torre de Babel, se for para colocar assim. E era um fundamento forte de pista, já que tudo o que rolava de som em São Paulo, também chegava por lá. Era um tempo em que havia muito fundamento, nem tanto a preocupação de manter o povo na pista. E o povo também era muito aberto a tudo. Lembro-me de vários momentos, vários namoros que começaram ali ou terminaram ali também. Foi um espaço em que eu pude viver plenamente a minha sexualidade quanto à questão de ser livre e estar bem com o que eu era e sou. Foram sete anos de loucura, de festas, de shows maravilhosos – que no final cansaram bastante – de gogo-boys maravilhosos e de muita pegação no dark-room. Mas como tudo isso virou uma fórmula, acabou por cansar.

Kurlan Rogo, Jorge Marcelo Oliveira e Juliano Silveira no aniversário do Central Bar em 2002 @ Acervo Jorge Marcelo Oliveira

Entra aí o Central Bar, do Lúcio Praxedes e Luciano Lima, um espaço maravilhoso e creio que até hoje um dos mais importantes da minha vida. No Central, o fundamento de moderno, underground e atual se misturou com arte, música, gays, lésbicas e simpatizantes, num clima harmônico. Tinha muita gente bonita, cara boa, todo mundo se conhecia, tinha muito carão, mas muito mesmo e um clima diferente do que era a The Club no sentido de ser de fato moderno para a época. Vivia lá, de quarta a domingo, me sentia em casa. Fiquei marcado pelas festas temáticas, as comemorações do meu aniversário – do seu também – e foi lá que comecei a tocar como DJ, ou “sound stylist”, como o Luciano costumava chamar. Lá eu recebi o meu primeiro cachê. E me lembro de uma noite em que eu e você passamos pela porta de vidro e derrubamos uma mesa. O bar parou e continuamos no catwalk, como se nada tivesse acontecido. Foi um momento forte! Rssss…

Falando nisto, qual foi o melhor momento da noite em Campinas?

Creio que tudo que coloquei acima foram de fato os momentos que marcaram Campinas, isso entre 1993 a 2003. Nesse período, a cidade ganhou foco, principalmente em São Paulo. Acontecia uma verdadeira migração para cá. Esqueci-me da Double Face, que foi a primeira boate gay que eu pisei na minha vida, com toda aquela questão pesada e fundamento que existia: travestis versus michês. E por incrível que pareça muitos clubbers apareciam por lá. Poderia considerar a “Double Face” nessa época em Campinas como “A Lôca” de São Paulo. Tinha também o “La Lupa”, que foi um marco na história da cena GLS da cidade. Todo mundo que importava ou não aparecia por lá. Referente a alguma pessoa, na verdade todo mundo marcou esta fase. O povo tinha muita personalidade e se divertia de uma forma diferente da que é vista hoje. Sair à noite não era uma coisa habitual ou banal, era algo de fundamento. Todo mundo se produzia, se montava, se preparava para definitivamente arrasar. Lembra-se de quantas vezes rodamos o Iguatemi Campinas atrás de um look novo para uma determinada festa? Então… Mas a figura das drags, creio que marcou bastante. Era uma novidade, não era habitual de se ver por aqui uma Márcia Pantera ou Paulete Pink. Tinha que ir pra São Paulo. Aí, parecia que a gente tinha visto a Madonna.

Ultralounge Campinas @ Agito Campinas

O que mudou desde então?

Bom, tudo virou uma fórmula e automaticamente as pessoas começaram a sacar isso. Não dá para se ter a mesma noite, todos os finais de semana e sem uma inovação.
O momento crucial disso tudo foi em 2003, quando a Ultralounge veio para Campinas. A The Club já estava decadente e cansada com os mesmos shows de sempre. A ideia do chill-in ou do aquecer a noite antes de se jogar já não estava mais nos planos e nos bolsos do povo. O Central Bar ficou às moscas e cansado também pelos desgastes e falta de inovações dos proprietários. A ideia de um club, no caso a Ultralounge – vindo de São Paulo – trouxe todo um fundamento de diversão que negava todos os signos da noite GLS: gogo-boy, drag-queen, dark-room e por aí vai. A noite passou a ser tipo asséptico, mas o que era proposto pela Ultralounge foi super aceito pelo público porque crescia nos olhos e nos egos, como a decoração, o espaço, o VIP e por aí vai. Isso que em São Paulo, a franquia Ultralounge já estava em plena decadência, mas renasceu em Campinas.
A cena durou até o fechamento da Ultralounge, isso em 2005. Parou aí. O que se abriu depois foi uma série de tentativas de se parecer com a Ultralounge, com o Central e com a The Club, mas sem o devido fundamento que estes espaços tinham. Era pura tentativa, mas quem não viveu essa fase e estava na administração dos novos espaços não tinha a real noção do que representaram aqueles momentos passados. Apenas fez de conta. O público que frequentava, sacou tudo isso e desapareceu ou passou a frequentar por falta de opção.

Porque os locais alternativos (incluindo a cena gay/lésbica) de Campinas ficaram tão ruins?

Justamente pelo que eu disse: tudo passou a ser ou querer parecer com o que dava certo. Virou uma fórmula. A ideia do que era um fundamento lounge, VIP ou moderno agregou-se a forma de diversão batida. Parou no tempo. Na cena lésbica, somente o Open Bar sobreviveu com seu fundamento de som ao vivo e cardápio farto. Isso é identidade. Os outros locais que abriram e fecharam, todos foram atrás da mesma fórmula de diversão, até a decoração era parecida. E o interesse no público GLS, claro, questão de mercado. Aí você vê abrir milhares de espaços ao mesmo tempo e a duração de um curto período de existência. De 2005 para cá, quantos locais já abriram e já fecharam?

Juliano Silveira, Isabeli Fontana e Bruna Said Miguel na Tufi Duek do Iguatemi @ MONDO MODA

Qual a lógica dos locais que distribuem excessivos flyers com desconto (ou entrada gratuita), obrigando as pessoas a passar horas numa longa fila?

É pura estratégia de marketing: lugar que tem fila deve ser bom. Isso é usado por muitas casas. Algumas de fato, até que tem uma fila verdadeira, porque o povo se acostumou a chegar sempre na mesma hora. Chamo isso de rush-clubber. Custa chegar mais cedo ou depois da uma da manhã? Se você vê uma fila, com certeza irá parar e querer entrar no local. Mas na maioria das vezes, todo mundo que está lá dentro são aqueles que estavam na sua frente da fila e o espaço em si está vazio. Foi-se o tempo em que fila também era sinônimo de diversão, de ferveção, de conhecer pessoas. A noite já acontecia ali, na fila. Existe também o erro de informação no flyer. Geralmente é colocado um horário para abertura da casa, mas nunca as portas estão abertas no horário especificado. Isso é propaganda enganosa e puro desrespeito. Se a casa anuncia abertura às 23 horas, quero chegar e entrar às 23 horas, a casa já deve estar aberta e não aguardar formar uma fila gigante como chamariz de público. Não sou objeto de museu. O povo tem que reclamar deste tipo de atitude, voltar pra casa ou outro local. Boicote mesmo. Agora, como atualmente o flyer também é garantia de não se pagar entrada, quem quiser que aguente. Se eu não tenho dinheiro, fico na minha casa, já passei da fase de tomar água na torneira…

Por que até os piores locais de São Paulo são melhores dos de Campinas?

Sabe o que eu concluí? Que hoje existe uma geração afoita pela noite, mas sem se tocar de fundamentos, de história, ou até mesmo do que se esperar de determinado lugar que frequenta. Se estiver cheio, está tudo bem. Essa geração tem acesso à informação, se preocupa com roupas de marca de luxo, em ser VIP, em estar num camarote, com quantos vai ficar na noite, se vai virar transa ou não e se vai ficar bem na foto. A proposta como o som que a casa oferece, o show da drag que ninguém tem mais respeito, o drink que não está gelado, o segurança mal educado, o proprietário blasé, a lotação excessiva, o banheiro sujo, tudo isso e muitas outras questões ficam em terceiro plano. È uma geração que está acostumada a um mau atendimento, a uma noite ruim e não saca isso. Como empresário, vou pensar no meu lucro e nas leis que tenho que seguir para que o meu espaço funcione. Se ninguém reclama, está tudo bem assim e pronto. Creio que a culpa seja do público, que se acostumou à rotatividade e ao abre e fecha de portas e a todo o fundamento atual da noite, ou seja, nenhum. São poucos os lugares que eu frequento hoje em dia, justamente para não me chatear.

Mudando de assunto, como surgiu o blog “Na Língua do Ju“?

Bom, comecei a escrever sobre a cena noturna campineira em 2004, no site Espaço GLS a convite do Eduardo Gregori, editor do site. Durante dois anos, a coluna Cena apresentou um parâmetro sobre a noite, que modéstia à parte, era muito bacana com análises, comportamento, histórias e coberturas de baladas. Depois de dois anos com a coluna, isso em 2006, como estava cansado de falar a respeito de noite e na época estava tudo muito sem novidade, porém, o assunto e a escrita chamando a atenção de muita gente, por sugestão, do editor do site passei a escrever um blog, só que além da noite, passei a falar sobre outros assuntos como música, cultura, comportamento, moda e afins, sempre com o parâmetro da questão GLS e sem perder de vista a questão “noite”. No final, o blog está no ar há três anos, um público super carinhoso que me acompanha e um orgulho imenso pelo trabalho que faço enquanto jornalista e personagem dos acontecimentos que narro nas minhas postagens.
Quanto às novidades, tem muita media como o podcast, cada vez mais com pedidos dos leitores e para o ano que vem, estou com um projeto de aumentar a participação de leitores ou até mesmo colunistas, uma participação mais colaborativa e democrática no blog e também acompanhar mais os eventos em Campinas. Quem se interessar, já entre em contato, ok? Rssss… Estou também com a ideia de um fanzine, coisa bem de garagem, mas cheio de ferveção…Tem muita novidade para o ano que vem…!

Momento “Mãe Joceli”: qual é o futuro da noite em Campinas?

Mãe Jô me disse: estamos no final da década e com certeza mudanças estão por vir! Rssss… Lí em sites especializados sobre o som das pistas, teremos uma pegada House por aí. O que se confirmou em uma matéria especial que fiz para o meu blog, onde os DJs mais conceituados da cidade também apostam neste estilo para o próximo verão. O que se ouve hoje não dá mais, e quem toca em uma cabine tem que voltar a pensar em fundamento e conceito, no que já se ouviu no passado e inserir dentro disso o seu estilo. Em São Paulo você já vê muito disso. Todo mundo faz download de remix da Lady Gaga pela Internet, ficou algo sacal, entende? Apesar de que ainda ouviremos muita Lady Gaga… A cena vai mudar aos poucos. Creio que estamos em um momento em que há muitos espaços na cidade que serão mensurados pelo tempo, caso o estilo não agrade ou não apresente nada de novo. Porém, o momento é de abertura de club. As casas irão se segmentar aos poucos, o que será bom para o público. Não estou detonando ninguém, mas a impressão que se tem é que está tudo com a mesma cara. Projetos pequenos e noites especiais começam a aparecer. Ainda não é o ideal, já que a divulgação está bem tímida. Não adianta trazer DJ de São Paulo e ninguém saber quem é, tem muito profissional bom e de conceito por aqui. É incrível como um proprietário ou um promoter de uma casa não enxergue isso. Mas voltando, noites específicas, projetos pequenos, festas temáticas. Estão na moda as open-air, “uma coisa meio rave de ser” que acata o público GLS no momento, as tais pool-party ou até mesmo as label-party, festas em locais alternativos como as que acontecem no Campinas Hall. A qualidade destes eventos tende a aumentar.
As drags continuam lindas, mas com um repertório mais voltado a performance do que pro bate-cabelo. A vontade de um bar vai retornar aos poucos e será um das apostas, quem sabe já no ano que vem. Se um empresário esperto ler isto, saberá do que estou dizendo. Campinas está carente de um bar GLS e que seja bacana, claro!

(Entrevista originalmente publicada em 11 de dezembro de 2009)

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