Folha de S. Paulo entrevista Lea T

A coluna Última Moda do caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo dessa sexta-feira, 12 de novembro, publicou uma entrevista com a modelo brasileira Lea T.
Amiga do diretor criativo da Givenchy, Riccardo Tischi, Lea viu sua vida virar de cabeça para baixo neste ano, quando estrelou campanhas e participou de editoriais para algumas das mais badaladas publicações mundiais.
Até aí, digamos que Lea seria mais uma seguidora da carreira de Gisele, Raquel, Isabelli, Carol, Alessandra e Adriana… Se não fosse por uma diferença: Lea é transexual.
O conteúdo da entrevista é polêmico! Merece ser lido com atenção!
(Crédito: Vivian Whitman e Pedro Diniz)
Por que você acha que Tisci te chamou para ser um dos rostos da Givenchy?
Lea T. – Pela nossa amizade. Conheci o Riccardo há uns dez anos, ele era recém-formado e estava batalhando pra entrar no mercado. Sempre nos ajudamos. E quando ele me chamou para fazer trabalhos para a Givenchy, primeiro como assistente dele e depois como modelo, eu estava passando por uma fase muito difícil, de depressão…
O que estava acontecendo?
Assumir a realidade de ser transexual é muito complicado. Sabe, comecei a pensar no futuro e não via nenhuma perspectiva, nada que pudesse ultrapassar o preconceito que eu sentia e sinto em relação a mim. E aí veio o Riccardo, que é capaz de entender a complexidade de um conflito humano. Ele me deu uma voz para que eu pudesse enviar uma mensagem.
E que mensagem é essa?
Que transexual não é sinônimo de promiscuidade, como muitos pensam. Que podemos ter amigos, batalhar por uma carreira, por nossa vida, que não precisamos baixar a cabeça, com vergonha de nós mesmos.
Quando você fez uma foto nua para a “Vogue” francesa, qual foi seu objetivo?
Mostrar o que eu sou hoje, meu corpo, minha verdade. Infelizmente, tudo foi deturpado, muita gente repercutiu aquilo como se fosse pornografia. Fiquei arrasada.
A indústria da moda posa de tolerante quando o assunto é gênero e sexualidade. Essa imagem é verdadeira?
Não. É claro que existem pessoas esclarecidas, mas tenho de me cuidar para não ser explorada, ridicularizada. Numa sessão de fotos, queriam que eu vestisse uma camiseta com um pênis desenhado. Desse choque barato, raso e burro não participo. Fora aqueles que me pedem pra ficar pelada entre uma foto e outra na frente de uma equipe gigante. Sobra hipocrisia e falta respeito.
Você faz um tratamento preparatório para a operação de mudança de sexo. Como isso afeta seu corpo?
Tomo muitos hormônios, que mexem com tudo, das formas do corpo ao humor. Fico cansada, com sono, triste, ansiosa. Além disso, para ser modelo, tenho de me encaixar no padrão das meninas, mas, mesmo com os hormônios, minha estrutura óssea é masculina.
E como o fato de você ser famosa tem afetado sua família, especialmente seu pai, que é um atleta conhecido?
Ai, é um sofrimento só. Escreveram em sites e jornais, no Brasil, que meu pai me odiava, que tinha nojo de mim. Isso é mentira. Eu amo o meu pai, e ele me ama. Não é fácil pra ele entender as escolhas que fiz para a minha vida, mas são dificuldades que enfrentamos com amor.
Toparia desfilar na São Paulo Fashion Week?
Quando publicaram absurdos sobre mim no Brasil, eu chorei, fiquei com raiva, falei que nunca mais pisaria aí. Mas repensei essa questão e acho que não tenho de ter medo. Se aceitei ser modelo para passar uma mensagem, não posso me acovardar.
Você faz análise?
Sim. Preciso muito da análise porque sou discriminada o tempo inteiro. Sou apedrejada diariamente: aguento olhares tortos e ofensas da hora que saio de casa até o momento que entro de volta. Se não fosse a análise, viveria trancada e deprimida.
O que é ser feminina?
Desde pequena meu pai dizia, “esse menino é muito feminino”. É engraçado, porque eu não era do tipo que brinca de boneca e quer botar as roupas da mãe. Era uma coisa minha, de jeito mesmo. Acho que a feminilidade é assim, algo natural, que se mostra no cotidiano. Se eu saio de casa de moletom, sem make, pra andar com o cachorro, ninguém percebe que nasci homem.