A estória da Sacoleira do Cambuí

Leio na coluna social de grande jornal de Campinas: “Fulana de tal, dona de loja tal no Cambuí costuma viajar três vezes por ano para ‘fora’ para buscar as ‘tendências’…” Tradução: ela vai aos outlets de Nova York para ‘comprar’ as tais ‘tendências’, por um preço insignificante, voltar com a mala ‘cheia’, costurar sua etiqueta e colocar nas araras da ‘lojinha’ com um preço fora do comum! Ou seja, ela é a Sacoleira do Cambuí.
Cinco questões sobre o assunto:
Primeiro: a palavra ‘tendência’ perdeu seu sentido – até no mercado de varejo. Originalmente, esta palavra significava ‘aquilo que entrará na moda’, ou seja, uma ideia para o futuro. Na primeira década dos anos 2000, a ‘tendência’ foi perdendo seu fôlego, diante das diferentes ideais dos criadores de moda. Ela foi perdendo o caráter ‘ditatorial’. Sabe aquela ideia de um Ditador determinar uma proposta e o resto dos mortais aceitar, sem questionamentos? Pois bem, o mundo mudou. Hoje, quando se fala em moda, pensa-se em Estilo Individual. Tanto é assim, que numa temporada de moda, diferentes coleções mostram dez possibilidades que se comunicam com mulheres de estilos próprios.
Segundo: o Brasil tem uma indústria de moda, como nomes fortíssimos, como Reinaldo Lourenço, Gloria Coelho, Alexandre Herchcovitch, Ronaldo Fraga, Lino Villaventura, Fause Haten, Martha Medeiros, Eduardo Pombal, Patrícia Bonaldi, entre outros, que produzem coleções criativas, conceituais ou comerciais. Assim como temos marcas significativas, como Animale, Le Lis Blanc, Maria Bonita, Osklen, Tufi Duek, Adriana Degreas ou Lenny. São tão talentosos, quanto muitos estilistas internacionais. Cansei de ver coisas nas passarelas nacionais ‘surgirem’ meses depois nas internacionais. Respeitáveis publicações de moda no Brasil adoram apontar estas ‘convergências’ de ideais. Muito difícil apontar ‘quem copia quem’.
Quarto: pensar em moda nacional, sem aquele ranço caipira, interiorano e ultrapassado é o caminho para qualquer lojista inteligente. Valorizar os produtos feitos no Brasil é combater de uma vez a invasão da indústria chinesa, indiana, tailandesa.
Quinto: uma mulher realmente elegante usa marca – ou grife – verdadeira e não falsificação. Não existe meio caminho. Qualquer pessoa com olho treinado bate o olho numa falsificação e percebe na hora o truque.
Finalizando: acho mais honesto assumir que a ‘fulana de tal, dona de loja tal no Cambuí’, viaja três vezes para fora do país, pois ela é SACOLEIRA. Se a palavra for muito forte, sugiro MUAMBEIRA. Afinal de contas, a história da Daslu começou, digamos, mais ou menos, assim!
(Artigo: Jorge Marcelo Oliveira)