Entrevista com Eduardo Gregori

Nascido em Belo Horizonte, o jornalista Eduardo Gregori mora em Campinas, onde se divide em múltiplas funções.
Integra o Núcleo de Suplementos que engloba a revista Metrópole e os cadernos de Turismo e Criança da Rede Anhanguera de Comunicação, edita o site Espaço GLS e seu blog Eduardo Gregori, além de cantar – uma grande paixão.
No meio da correria, ele conversou com MONDO MODA sobre música, jornalismo, público gay, moda, androginia e muito mais.
Você é um profissional dinâmico, atuando na área de jornalismo e música. Como você faz para concilia-las?
Desde criança eu escrevo e canto. Cresci ouvindo rádio e comprando discos de bandas inglesas como Culture Club, Duran Duran e Depeche Mode. Assim aprendi a escrever e a falar inglês bem cedo, aos 10 anos, mais ou menos. Junto eu escrevia no meu diário tudo que observava e via na televisão. Então, foi uma escolha natural para mim quando me tornei adulto. Concilio super bem minhas duas profissões
Qual delas dá mais trabalho? E por quê?
Como cantor o principal é mostrar que você tem uma voz bonita, que canta afinado. Claro, tem que correr atrás de repertório e principalmente de lugares para se apresentar. Eu cantei por 16 anos em algumas bandas. Este ano resolvi a me dedicar apenas a minha carreira de DJ porque ganhar dinheiro com música em Campinas é muito difícil. Nesta cidade só quem canta é quem tem QI… Quem indica, ou então tem de se sujeitar a cachês ridículos. Uma vez me pagaram 30 reais no final de noite em um bar super tradicional da cidade. Depois de uma noite inteira cantando, decidi que aquele lugar era maravilhoso, mas não iria cantar mais ali. Foi o que fiz. Hoje canto apenas em casamentos e cerimônias. Pagam mais,  tudo com contrato. A cerimônia atrasa muito, posso ir embora e recebo meu cachê normalmente. Tenho 3 agentes que buscam casamentos para eu cantar, então não me preocupo com nada. Já cheguei a um nível profissional que me dou ao luxo de não embarcar mais em furadas. Já passei muito por isso.
O jornalismo está na minha alma desde criança, então não vejo muita dificuldade. Estou trabalhando neste ramos desde 95 então tenho muitas fontes, o que facilita meu trabalho. O que eu acho chato e difícil é entrevistar gente que se acha muito estrela. Já entrevistei pessoas como Ricky Martin, que foi super simpático. Mas também entrevistei tanto zé ninguém que foi muito pedante só porque tem dinheiro. Esse tipo de pessoa sem dúvida torna minha profissão mais difícil.
Como jornalista, você também é editor do site Espaço GLS, que está no ar desde 1999. Como ele nasceu e como você o definiria? 
Ele nasceu de uma vontade de mostrar para a comunidade GLS de Campinas que existia um site que tratava desta questão na cidade. Eu fui um dos primeiros, antes mesmo quando editei o jornal Basfond e o Babado. Depois veio muita gente que tentou fazer milhões de coisas, mas para fazer um site e manter mensalmente uma visitação de 2 milhões de acessos, é preciso muita seriedade e profissionalismo. Acho que meu site é uma bandeira na internet que lembra que Campinas existe para o público GLS
Neste período de existência do site, quais mudanças você destacaria como as mais representativas na realidade deste público em Campinas?
Acho que o site foi celeiro para muita gente colocar pra fora e escrever o que queria. Tivemos muitos colunistas, inclusive você, que puderam se expressar. Hoje, com a facilidade da internet, cada um foi para o seu canto e foi escrever em seus blogs. Eu acho que a função dele foi estimular as pessoas a escrever. A principal mudança que eu sinto é que hoje ele deixou de ser informal, coisa de amigos  para se profissionalizar
No mundo corporativo, existe uma ‘simpatia’ por parte de alguns empresários pelo ‘pink money’. O que você acha sobre isto?
Eu acho que homossexuais só são respeitados quando abrem suas carteiras. Não há preconceito se você pode gastar. Claro que existem empresários sérios e que realmente são simpatizantes, assim como há outros que são hipócritas e só querem saber da cor do seu dinheiro. Eu observo muito e quando vejo este tipo de atitude, pulo fora. Mas eu não acredito muito em pink money. Tem muito gay que é rico, mas também tem quem seja da classe média e pobre.
Ainda falando no mundo corporativo, o que mudou sobre a questão do preconceito? Você acredita que um executivo assumidamente gay chegará à presidência de uma grande empresa?
Acho que o preconceito está mais latente do que nunca. Aqui em Campinas tivemos vários casos de agressão e até assassinato de gays e travestis. Acho que vivemos um momento de retrocesso. É um paradoxo porque podemos nos casar e ao mesmo tempo, assistimos pessoas sendo mortas pelo fato de não serem heterossexuais. Acho que sociedade como um todo anda muito competitiva. Há muita luta por poder, por menor que seja. Então acho que, se um gay quiser chegar a presidência de uma empresa ele terá de lutar muito não só para provar que é tão bom quanto um heterossexual, mas também terá de “limpar” os preconceituosos do seu caminho. Porém, como no Brasil tudo é meio velado, acho difícil.
Você acredita que o dinheiro diferencia a questão do preconceito? Por quê?
Vivemos numa sociedade capitalista, onde o que vale é o dinheiro. Então eu acho que o dinheiro sempre vai falar mais alto e vai passar por cima de muita coisa. Não que o preconceito seja menor, na verdade ele é omitido em função do dinheiro. Acho a mesma coisa por exemplo com os negros. Um negro cheio de dinheiro nunca será barrado em um bom restaurante ou em um hotel de luxo. O Brasil é um País muito hipócrita neste sentido
No mundo da moda, a androgenia de modelos como Lea T e Andrej Pejic chama atenção. O que você pensa sobre isto?
Eu acho que a moda precisa sempre de algo para chamar a atenção. Se Lea T fosse mulher, até poderia ser famosa porque ela é bonita e parece ser bem profissional. Porém, o fato dela ser transexual e ainda filha de um ídolo do futebol brasileiro, chama mais atenção do que seu trabalho como modelo. As pessoas não estão vendo o que ela está vendendo (vestindo), mas comentando sobre o que e quem ela é. O que eu acho uma pena. Ela deveria ser vista de uma maneira tão normal como qualquer outra modelo fazendo seu trabalho em cima de uma passarela.
Por que um site sobre Diversidade Sexual em Campinas em 2011?
Porque ainda existem pessoas que tem medo de homossexuais. Veja bem, postei outro dia no meu blog uma sugestão de pauta da Amore Totale aqui de Campinas. Ilustrei a sugestão com a foto de um rapaz que aparentava ser gay. Foi uma forma divertida de lidar com a pauta. Esta semana recebi um telefonema da assessoria de imprensa da loja pedindo pra eu trocar a imagem. Decidi excluir o post. Isso mostra que as pessoas, principalmente os homens, têm medo de serem confundidos com gays. O que é ridículo. Para mim, homem bem resolvido e inteligente não se importa com isso. Além disso, ainda temos que lutar contra esta onda de violência que tem atingido a comunidade gay ultimamente. O site vai existir enquanto eu acreditar que é preciso e eu tiver garra para faze-lo.

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