Quem se interessa por blogs de moda?

Na semana passada, numa página de um grupo de moda no Facebook, leio o seguinte: ‘indico meu blog, que é super focado em moda e tudo que a envolve’.
Curioso para entender o que isto significava, entrei. Afinal, se uma pessoa se classifica como ‘realmente focada em moda’, seu blog precisa ser algo, no mínimo, inusitado. Qual não foi minha surpresa ao encontrar uma informação absolutamente banal sobre uma proposta de moda que até fast-fashion colocou nas vitrines há uns três meses? Ah, é isto que é um blog ‘super focado’ em moda?
Ah, vamos com calma na arrogância, né?
O que é moda?
Na hora, me lembrei de uma das primeiras perguntas que faço quando dou uma palestra ou workshop: ‘para você, o que é moda?’. A grande maioria responde: ‘ah, são as tendências… ’, ‘tudo o que a gente usa’, ‘são os lançamentos de roupas’, entre outros. Ou seja, para a maioria, moda é roupa.
Numa definição simplificada: ‘moda é um sistema que acompanha o vestuário e o tempo. Ele integra uma simples escolha das roupas do dia-a-dia a contextos maiores: políticos, sociais e históricos’. Ou seja, a roupa é um dos instrumentos da moda – que está ligada ao comportamento, arquitetura, cultura, arte, filosofia, antropologia, sociologia, entre outros. Entender as evoluções do homem na história é fundamental para compreender o vasto campo de atuação da palavra ‘moda’.
Desfiles, lançamentos de coleção, tendências (palavra que perdeu seu sentido nos anos 2000 diante da profusão de propostas de cada estilista), fofocas sobre grifes ou marcas, varejo ou quaisquer outros itens que caracterizam apenas a ‘roupa’, são sub mecanismos de algo muito mais complexo. Como é que uma pessoa quer escrever sobre ‘moda’, se ela não tem esta noção de sua amplitude?
Como entender moda se nunca foi a uma mostra de arquitetura e decoração? Ou pisou num museu? Ou viu uma peça teatral relevante? Ou participou de uma exposição de arte, como a Bienal? Ou assistiu aos filmes que mudaram o conceito da moda no século XX? Ou fez uma maratona com minisséries que retratam períodos históricos brasileiros? Ou ouviu com atenção um álbum de uma banda de pop/rock/punk que influenciou uma geração a mudar seu comportamento? Ou leu Umberto Eco? Platão? Sócrates?
Não basta ler 10 livros da história da moda – apesar de que, se conseguir ler um livro já é de grande ajuda, pois achar que no ‘google’ tem tudo, é muita ignorância! Isto é pouco, muito pouco.
The Sartorialist
Moda virou um dos grandes assuntos dos últimos anos. Nas novelas, vira e mexe, tem um personagem ligado ao universo da moda – se bem retratado, sem exageros ou afetações, isto é outra conversa. Existe um absurdo número de escolas de moda – se presta ou não, também é outra conversa.
Na internet, então, basta a pessoa se achar ‘descolada’, ‘antenada’ ou qualquer outro ‘nada’, que ela se autodenomina ‘fashionista. Bagagem cultural para embasar seu conhecimento? Bobagem! Basta ter um curso técnico, trabalhar em boate ou ter uma loja bacaninha, que a pessoa acredita que ‘entende’ moda, a ponto de abri um blog.
Afinal de contas, mostrar o ‘look do dia’, como ficou o batom ‘x’ ou que efeito teve o esmalte ‘y’, já basta, né? Porcamente escreve, pois a linguagem do ‘msn’ ou dos ‘torpedos’, cheia de abreviações e incorreções lingüísticas servem como parâmetro para suas ‘leitoras’, ‘amigas’ ou ‘clientes’. A língua portuguesa ser estuprada a cada linha virou rotina!
A maioria destas pessoas copia o blog ‘The Sartorialist’ do fotógrafo Scott Shuman, que foi um dos primeiros que publicou fotos de pessoas ‘comuns’ clicadas nas ruas de grande metrópole. O sucesso de seu blog (assim como o da Tavi Gevinson, a garota de 11 anos que ficou ‘amiga’ de Anna Wintour…) foi uma aviso para a indústria que a ‘moda’ estava acontecendo fora das redações das grandes publicações ou distante do que os birôs de estilo estavam pregando! Seu blog é ótimo, não tem o que discutir. O problema é que ele foi criado em 2005 e deixou de ser novidade faz muito tempo.
Assim… Quem disse que para ter um blog é necessário ter uma ideia inédita ou que se destaque da multidão? Na realidade, qualquer imbecil pode ter um blog! Ser original, ousado, ter conteúdo, ser relevante, informativo e interessante… Para quê, né?
Num recente artigo sobre a questão dos blogs na cobertura dos desfiles da Semana de Moda de Nova York, uma das primeiras estrelas da blogosfera, Bryanboy, avisa: ‘Será que precisamos mesmo de outra garota tirando fotos de si mesma nas ruas e postando em seus blogs todos os dias? Para um novo blogueiro conseguir algum impacto hoje, ele precisa oferecer algo realmente novo’.
Entendeu, né?

4 comentários

  1. Perfeita matéria … hj tem um enxame de blogs de vestuário mas de moda mesmo são poucos !!
    Adorei !!
    Abraços à todos !!

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  2. Oi Jorge e pessoal, a algum tempo, o pessoal da revista Ciência & Cultura (revista científica da SBPC) me pediu que explicasse aos cientistas o que era moda, eu havia acabado de fazer o documento que incluíra a moda no Ministério da Cultura. É um texto curto, mas acho que pode ser legal para quem quer se embasar para falar sobre moda, fica a dica e o link: http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252009000100020&script=sci_arttext
    Patricia Sant’Anna

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