As primeiras modelos negras na história da moda e publicidade

Coluna assinada pelo editor Jorge Marcelo Oliveira

Jorge Marcelo Oliveira @ Selfie
Jorge Marcelo Oliveira @ Selfie

Num universo dominado por brancas, as modelos negras lutaram (e continuam a lutar) para conseguir espaço na indústria da moda. MONDO MODA faz um balanço sobre as modelos negras na história da moda – tanto internacional, quanto nacional.

A texana Dorothea Towles Church é considerada a primeira modelo negra das passarelas de Paris. Sétima filha de uma família de agricultores americanos, ela se formou em Biologia antes de se mudar para Los Angeles. Lá, fez mestrado em Educação na Universidade do Sul da Califórnia.

Queria ser atriz, mas foi desencorajada pela falta de papeis para atores negros na década de 40. Então, se matriculou numa escola de modelos (primeira afro do curso) e começou a modelar em eventos para negros na Costa Oeste.
Dorothea Towles Church @ Divulgação
Dorothea Towles Church @ Divulgação

Em 1949, enquanto acompanhava a turnê do coral que sua mãe se apresentava em Paris, Dorothea começou a trabalhar como modelo. Chamou a atenção de Christian Dior, que a convidou para substituir uma das modelos contratadas, que saiu de férias.

Dorothea Towles Church em Paris @ Reprodução
Dorothea Towles Church em Paris @ Reprodução

Durante cinco anos, ela foi tratada como estrela nas passarelas francesas, se tornando umas das principais modelos da década de 1950. Em abril de 1953 posou para a revista negra JET. Anos depois, a pedido de Dior, pintou seu cabelo de loiro e foi capa da revista Sepia.

Apesar do sucesso, passou por situações desagradáveis. Quando foi convidada para fotografar para a revista Ebony – sucesso da época – o estilista Pierre Balmain não permitiu que ela usasse uma de suas criações, alegando que as clientes brancas ficariam ofendidas. Aí… Com o pretexto que usaria a mesma roupa numa festa, Dorothea pegou o vestido e foi para o estúdio fotografar. Quanto as clientes… A grife francesa continua na ativa até hoje!
Quando trabalhava no ateliê da estilista Elsa Schiaparelli, frequentemente ouvia alguém a descrever como “Taitiana”, ou seja, como ‘exótica’ e não negra! Apesar disto, ela persistiu.
Dorothea Towles Church em Berkeley, California @ Reprodução
Dorothea Towles Church em Berkeley, California @ Reprodução

Neste período, começou a desenhar seus próprios vestidos, a partir de tecidos que ganhava dos estilistas que trabalhava. Quando voltou para os EUA, em 1955, produziu desfiles para cursos frequentados para negros. Estes eventos funcionaram para angariar fundos para a criação da primeira irmandade de mulheres negras em universidades americanas: Alpha Kappa Alpha.

Mais tarde, Dorothea assinou contrato com uma agência de Nova York, onde modelou até conhecer o advogado Thomas Church. Ela abandonou a carreira e se casaram em 1963. Tiveram um filho e permaneceram casados até a morte do marido em 2000.
Dorothea morreu seis depois, aos 83 anos, em Nova York, por problemas cardíacos e nos rins.
PRIMEIRA DONA DE UMA AGÊNCIA DE MODELOS NEGROS

Mistura de africana, cherokee, francesa e alemã, a americana Ophelia DeVore é a primeira modelo negra que fundou uma agência afro-americana. Nascida em Edgefield, Carolina do Norte, em agosto de 1922, era dos dez filhos do casal John Walter DeVore e Mary Emma Strother.

Ophelia Devore @ Reprodução
Ophelia Devore @ Reprodução

Começou a modelar aos 16 anos. Alguns anos depois, frequentou a Vogue School of Modeling, em Nova York. Em 1945 foi capa da revista Ebony, que garantiu sua ida para Noruega e depois para Paris, onde trabalhou com alguns estilistas. De volta aos EUA, em 1946, ao lado de alguns colegas, fundou a The Grace Del Marco Agency, a primeira agência americana a trabalhar exclusivamente com negros. Dois anos depois, Ophelia implantou um curso de Elegância.

Ophelia Devore @ Reprodução
Ophelia Devore @ Reprodução

Entre os primeiros nomes que lançou estavam a modelo Helen Williams e os atores Diahann Carrol, Cicely Tyson e Richard Rountree. A agência conseguiu clientes poderosos, como a Budweiser, Bulova e Johnson & Johnson.

Ophelia Devore @ Reprodução
Ophelia Devore @ Reprodução
Também foi responsável por ajudar Diahann a decolar na carreira como atriz – em 1962, ganhou um Tony Ward pela atuação no musical ‘No Strings’, seguido do convite para protagonizar “Julia”, série da NBC sobre uma enfermeira jovem e viúva (marido morreu na Guerra do Vietnã). Com três temporadas, a série é considerada a primeira estrelada por uma atriz negra num papel não estereotipado, rendendo um Globo de Ouro de Melhor Atriz em 1969.
Sua agência promovia desfiles em igrejas, campos universitários e salões de festas nos hotéis Diplomat e Waldorf-Astoria.
Aos 91 anos, Ophelia morreu em fevereiro de 2014, em Manhattan. Um ano antes, declarou ao site The Grio: “Eu quis mudar a forma como os negros eram vistos nos Estados Unidos. Eu quis que a América soubesse que a beleza não é apenas branca”.
PRIMEIRA MODELO NEGRA NA PUBLICIDADE

Helen Williams Jackson foi a primeira modelo negra americana a estrelar campanhas publicitárias. Nascida na Nova Jersey, desde cedo, ela adorava moda. Fez aulas de dança, artes e interpretação. Aos 17 anos, conseguiu emprego como Stylist num estúdio fotográfico em Nova York. Entre os clientes estavam os cantores/atores Lena Horne e Sammy Davis, Jr, quando incentivaram a garota a mudar de lado e se tornar modelo.

Helen Willaims @ Reprodução
Helen Willaims @ Reprodução

Sua carreira, porém, se reduzia a participações nas revistas Ebony e Jet – publicações direcionadas ao público negro na época. A América do final dos 50 e começo dos 60 ignorava os negros. Ela contou: “Eu era muito escura para ser aceita”. Percebendo que sua carreira não ia para frente, ele se jogou para Paris em 1960, onde trabalhou com os estilistas Christian Dior e Jean Dessès. Naquela época, ganhava U$ 7 mil por trabalhos de meio período e três pedidos de casamento, incluindo de um francês. Não aceitou nenhuma. Estava disposta a voltar para os Estados Unidos, que aconteceu um ano depois.

Helen Willaims @ Reprodução
Helen Willaims @ Reprodução

Porém, as coisas continuavam as mesmas. Passava até duas horas nas recepções das agências para ouvir uma sucessão de negativas. Cansada, ela resolveu denunciar o racismo para a imprensa. Dois influentes jornalistas brancos, Dorothy Kilgallen e Earl Wilson, compraram a briga e escreveram matérias denunciando o racismo no mercado da moda e publicidade na América. Resultado: Helen quebrou a hegemonia branca e estrelou campanhas para a Budweiser, Kodak, Sears, Bacardi, Bulova, Cigarros Kent, Montclair, entre outros. Ela também estrelou editoriais para o The New York Times e revistas Life e Redbook. Em 1961, ela cobrava U$ 100 por hora de trabalho. Helen foi uma das primeiras clientes da agência de modelos Grace De Marco de Ophelia DeVore.

Helen Williams Tan Magazine - Fevereiro 1960 @ Reprodução
Helen Williams Tan Magazine – Fevereiro 1960 @ Reprodução

Em 1970, ela se aposentou como modelo, mas continuou sua carreira como Stylist. Se casou com Norm Jackson em 1977, que conheceu na época que modelava. Em 2004, ela recebeu o Traiblazer Award da Organização Fashion & Arts xChange, numa cerimonia que aconteceu no New York Fashion Institute of Technology. É creditada como uma das principais modelos a quebrar a barreira racial na indústria da moda.

O ANO LUNA

Donyale Luna foi a primeira modelo negra na capa de uma grande publicação americana. Era a edição de janeiro de 1965 da Harper’s Bazaar.

Donyale Luna Harper's Bazaar 1965 @ Reprodução
Donyale Luna Harper’s Bazaar 1965 @ Reprodução

Em março de 1066, ela se tornaria a primeira modelo negra na capa da Vogue – no caso, a verão britânica. De acordo com o jornal The New York Times, Donyale tinha um contrato de exclusividade com o fotógrafo Richard Avedon.

Donyale Luna Vogue UK 1966 @ Reprodução
Donyale Luna Vogue UK 1966 @ Reprodução

Num artigo publicado pela revista Time em 01 de abril de 1966 com o título “The Luna Year”, a publicação confirmava o sucesso de modelo. No seguinte, a fabricante de manequins de loja, Adel Rootstein, criou um modelo inspirado na imagem de Donyale.

Donyale Luna Queen Magazine Março 1968 @ Reprodução
Donyale Luna Queen Magazine Março 1968 @ Reprodução
Paralela a carreira de modelo, Donayle se tornou atriz, participando de alguns filmes de Andy Warhool, Federico Fellini, Otto Preminger e em 1972 protagonizou “Salome”, dirigido pelo italiano Carmelo Bene. Contudo, sua carreira terminou sete anos depois quando, aos 34 anos, morreu de overdose.
PRIMEIRA TOP
Depois de se graduar em psicologia pela New York University, a também americana Naomi Sims bateu na porta de várias agências de modelo. Só recebeu negativas, com a justificativa que “sua pele era muito escura”. A coisa mudou quando o fotógrafo Gosta Peterson a colocou na capa do Fashion of the Times, suplemento de moda do jornal The New York Times, de 1967.
Naomi Sims - Fashions of the Times - The New York Times Magazine - Agosto 1967 @ Gosta Peterson
Naomi Sims – Fashions of the Times – The New York Times Magazine – Agosto 1967 @ Gosta Peterson
Apesar disto, sua carreira não decolava. Até que, conheceu Wilhelmina Cooper, uma ex-modelo que acabara de abrir uma agência. Copper mandou cópias da capa da Fashion of the Times para diversas agências de publicidade. Resultado: Naomi estrelou a campanha nacional da empresa de telefonia AT&T (usando roupas do estilista Bill Blass). Um ano depois, seu cachê era de U$ 1.000 por semana.
Naomi Sims - Ladies' Home Journal - Novembro 1968l @ Reprodução
Naomi Sims – Ladies’ Home Journal – Novembro 1968l @ Reprodução
Em Novembro de 1968, apareceu na capa da revista Ladies’ Home Journal e ainda ganhou artigo no The New York Times afirmando que ela era o melhor retrato do movimento “Black is Beautiful”. No ano seguinte, foi a capa de outubro da Life – a mais famosa publicação da época – , com o título: ‘Black Models Talk Center Stage’.
Naomi Sims - LIFE Magazine - Outubro 1969 @ Reprodução
Naomi Sims – LIFE Magazine – Outubro 1969 @ Reprodução
Naomi se tornou a primeira modelo negra a estrelar campanha para a gigante da marca de cosméticos Revlon, em 1970. Em 1972, Hollywood a convidou para estrelar “Cleopatra Jones”. Ela se empolgou. Contudo, depois de ler o roteiro, recusou, afirmando que o filme era racista. Em 1976, ela lançou uma linha de perucas para as mulheres negras, a Naomi Sims Collection. O sucesso resultou na abertura de uma bem-sucedida empresa.
Além das perucas, criou produtos para pele, cabelos e maquiagem para negras, que são vendidos com sucesso até hoje. Naomi morreu de câncer no seio em agosto em 2010. Ela estava com 61 anos.

PRIMEIRA NEGRA NUMA PUBLICAÇÃO TEEN

Katiti Kironde Glamour College - Agosto 1968 @ Reprodução
Katiti Kironde II Glamour College – Agosto 1968 @ Reprodução
Katiti Kironde II era uma estudante de Harvard com interesse em moda. Ela sabia que era bonita, mas compreendia que sua beleza era ‘diferente’ – não o tipo que era celebrado pela indústria da moda. Era era negra num mundo muito branco. Então, ela se inscreveu no concurso da Glamour Magazine: ‘A mais bem vestida garota da faculdade’. Ganhou e sua foto ganhou a capa da revista. Entrou para a história. A edição de agosto de 1968 da revista Glamour foi a primeira publicação de moda americana voltada a adolescentes a colocar uma mulher negra em sua capa. Resultado: a edição vendeu milhões de cópias.
Depois da revista, Katiti trabalhou para grandes companhias como TJ Maxx e Laura Ashley, lançou uma linha de camisas brancas e, mais tarde, voltou a Harvard para lecionar ‘Intro of Fashion’, o primeiro curso do gênero numa universidade.

PRIMEIRA NEGRA NA VOGUE AMÉRICA

Beverly Johnson - Vogue America - Agosto 1974 @ Reprodução
Beverly Johnson – Vogue América – Agosto 1974 @ Reprodução
Quebrando um tabu de 82 anos de existência, a Vogue América fez história quando colocou Beverly Johnson na capa da edição de agosto de 1974. Um ano depois, Beverly também seria a primeira negra na capa Elle América. Nos próximos anos, Beverly foi capa de quase 500 outras revista no mundo todo. Desde, então, os estilistas americanos começaram a colocar negras em seu casting.
Nos anos 80, Beverly participou de diversas séries da TV, como “Law & Order” e “Lois & Clark: The New Adventures of Superman”. Recentemente, ela esteve por duas temporadas no reality series “She’s Got The Look”, no qual 36 mulheres acima dos 35 anos competiam pelo título de Supermodel “acima dos 35”.
Como sua colega, Naomi, Beverly também lançou uma bem-sucedida linha de perucas, chamada Beverly Johnson Hair Collection.
Beverly Johnson 2010 @ Reprodução
Beverly Johnson 2010 @ Reprodução

Na vida pessoal, Beverly namorou o ator Chris Noth, o mítico Mr. Big, de “Sex And The City”. Em 2006, ao lado de Tina Turner, Coretta Scott King e Rosa Parks, Beverly foi uma das premiadas no Oprah Winfrey’s Legends Ball – evento que celebrava as mulheres negras que se destacaram no campo do entretenimento, direitos civis e artes. O jornal The New York Times a nomeou como uma das mais influentes pessoas da moda no século XX.

OUTRAS NEGRAS NA CAPA DA VOGUE
Depois de Beverly, outros nomes que vieram na sequência nas capas da Vogue América foram: Peggy Dillard-Tonne (Agosto 1977 e Agosto 1978), Sheila Johnson (Março 1980), Shari Belafonte Harper (com cinco capas: Dezembro 1982, Fevereiro 1984, Janeiro e Maio 1985 e Junho 1986), Louise Vyent (Fevereiro 1987), Kara Young (Abril 1988 e Outubro 1989), Karen Alexander (Janeiro 1989) e Kiara Kabukuri (Julho 1997). Seguidas por diversas capas com Naomi Campbell, Liya Bebede, Jourdan Dunn, Joan Smalls e Malaika Firth.
ROCK’N’ROLL E PRIMEIRA NOS COSMÉTICOS PARA NEGROS
Filha de embaixador e de uma médica ginecologista, a somaliana Iman assinou seu primeiro contato como modelo para a Vogue, em 1976. Em seguida, apareceu em diversas publicações mundiais, estrelou campanhas para Gianni Versace, Calvin Klein, Donna Karan e Yves Saint Laurent, que a elegeu como sua favorita.
Iman em 1979 e em 2014 @ Getty
Iman em 1979 e em 2014 @ Getty
Nos 14 anos como modelo, Iman trabalhou com os principais fotógrafos de moda, como Helmut Newton, Richard Avedon, Irving Penn e Annie Leibovitz. Casou-se com David Bowie em 1992 e lentamente começou a se afastar das passarelas. Fez participações especiais em séries de TV, como ‘Miami Vice’ e em filmes como ‘Sem Saída’, ao lado de Kevin Costner e “Entre Dois Amores”, ao lado de Meryl Streep e Robert Redford).

Em 1994, ela lançou uma linha de maquiagem, produtos de pele e perfumes voltadas ao consumidor negro, a Iman Cosmetics. Dez anos depois, a empresa foi incorporada a Proctor And Gamble e Iman se manteve como diretora executiva.

Iman S Moda Dez 2013 (5)
Iman S Moda Dez 2013
Iman é embaixadora oficial do projeto “Mantenha uma Criança Viva”, que distribui medicamentos para crianças portadoras do HIV/AIDS na África e Índia. Em junho de 2010, recebeu o prêmio Fashion Icon do Conselho de Estilistas Americanos (CFDA), dado a ‘pessoas que criaram um estilo que influencia o mundo da moda’.
PRIMEIRA MODELO A ASSINAR CONTRATO EXCLUSIVO COM A REVLON 

O nome de Veronica Webb é mais associado ao fato de ser a primeira modelo negra a assinar um contrato exclusivo com a poderosa marca de maquiagem, Revlon, em 1992.

Veronica Webb Revlon @ Reprodução
Veronica Webb Revlon @ Reprodução

Nas passarelas, desfilou para Chanel, Azzedine Alaia, Isaac Mizrahi, Todd Oldham e Victoria’s Secret. Foi capa da Vogue, Essence e Elle e por cinco anos, foi colunista da revista Paper. Também escreveu para as revistas e jornais Details, Esquire, The London Sunday Times e The New York Times Syndicate.
Como atriz, participou dos dois mais importantes filmes do cineasta Spike Lee “Malcom X” e “Febre na Selva”. Na TV, ela apresentou programas na MTV, VH1, E! Entertainment, Fashion TV e Fox Entertainment, além de correspondente para a HBO News, “Good Morning America” e da BBC.

SUPERMODEL OF THE WORLD

A inglesa Naomi Campbell é case de sucesso. Filha de uma dançarina da Jamaica, Naomi nasceu em Londres e nunca conheceu o pai, que abandonou a mãe quando ela estava no quarto mês de gravidez. Na infância, graças ao trabalha da mãe, morou em Roma. De volta a Londres, estudou ballet na conceituada Italia Conti Academy of Theatre Arts. Aos sete anos, apareceu no videoclipe ‘Is This Love’, de Bob Marley. Aos 12, no videoclipe ‘I’ll Tumble 4 Ya’, do Culture Club. Em 1986, quando olhava vitrines em Covert Garden foi descoberta por Beth Boldt, que logo a colocou na capa da ELLE britânica. Ela tinha 16 anos.

Naomi Campbell V Magazine Tina Turner (2)
Naomi Campbell V Magazine Tina Turner @ Divulgação
Nos próximos anos, desfilou para Gianni Versace, Azzedine Alaïa e Issac Mizrahi, posou para as lentes de Peter Lindbergh, Herb Ritts e Bruce Weber. No final da década de 80, Naomi, Christy Turlington e Linda Evangelista formaram o ‘Trinity’- trio de modelos mais famosas da sua geração. Em dezembro de 1987, ela foi a segunda modelo negra na capa da Vogue Britânica, desde Donyale Luna quebrou um conceito em 1966. Em agosto de 1988, ela foi a primeira modelo na capa da Vogue Paris. Isto só aconteceu porque seu amigo e mentor, o estilista Yves St. Laurent, ameaçou cancelar a publicidade de sua grife caso eles continuassem a recusar modelos negras nas capas nas revistas. No ano seguinte, ela estava na capa da Edição de Setembro da Vogue América, quebrando um novo conceito – pois é o mês mais concorrido pelo mercado publicitário da moda nos EUA.

Em janeiro de 1990, ao lado de Christy, Linda, Cindy Crawford e Tatjana Patitz, Naomi estrelou a icônica capa da Vogue Britânica em fotos de Peter Lindbergh. O mesmo grupo estrelaria o videoclipe ‘Freedom! 90’, de George Michael, que se tornou uma febre mundial. Depois, com o acréscimo da alemã Claudia Schiffer, elas ganharam o título de ‘Supermodels’ pela indústria da moda. Foi um momento que elas se tornaram mais importantes que as estrelas de Hollywood, que só tinha um nome: Julia Roberts.

Naomi Campbell Interview @ Divulgação
Naomi Campbell Interview @ Divulgação
Nos próximos anos, ela voltaria na capa da Vogue diversas vezes, estaria no livro ‘Sex’ de Madonna, estrelou videoclipe de Michael Jackson e em papéis menores no cinema e televisão.

Em 1998, a revista Time declarou o fim da era das Supermodels. Na época, Naomi anunciou que estava aposentadoria das passarelas, mas não das campanhas publicitárias. Em 1990, ela assinou um milionário contrato com a Wella, que rendeu o lançamento de sete fragrâncias.

Naomi Campbell Fragrância Mystery @ Mert & Marcus
Naomi Campbell Fragrância Mystery @ Mert & Marcus

Em novembro do mesmo ano, posou ao lado de outras tops models para ‘Modern Muses’, edição Millennium da Vogue América, clicada por Annie Leibovitz. No mês seguinte, apareceu com um biquíni branco e casaco de peles na Playboy.

Com 30 anos de carreira, Naomi reina como uma celebridade da moda. Faz campanha, fecha desfiles, aparece em séries de TV, tapete vermelho de Cannes, videoclipes e continua em diversas capas de revista. Até o momento, nenhuma modelo negra a superou.
A PRIMEIRA TOP MODEL COM TRAÇOS AFRICANOS 

Fugindo da estética vigente das mulheres negras com traços suave da indústria da moda, Alek Wek surgiu para quebrar padrões. Com uma beleza negra nascida na África, rosto redondo, bocão e careca, ela foi descoberta por um agente quando passeava com uma amiga num mercado de Londres.

Alek Wek @ Divulgação
Alek Wek @ Divulgação

Depois de uma vida desgraçada em Wau, sul do Sudão (recomendo o livro ‘Alek Wek – A refugiada africana que virou top model internacional), região marcada pela guerra e uma infância e adolescência respirando pobreza e subnutrição, sua vida mudou quando se tornou uma refugiada na Inglaterra. Lá, estudou, foi babá dos filhos da irmã, faxineira na BBC e assistente de cabelo num salão frequentado por mulheres árabes, que a chochando por causa de sua aparência.

Alek Wek - Campanha United Colors of Benetton @ Divulgação
Alek Wek – Campanha United Colors of Benetton @ Divulgação

Com uma baixa autoestima causada pelos problemas de pele (psoríase, que deixavam até suas mãos em carne viva, curada somente aos 16 anos quando chegou na Europa), Alek demorou para acontecer. Agenciada na Ford, fez uma sucessão de trabalhos gratuitos ou com cachês pequenos, sempre no conceito ‘Ela foi descoberta no meio do mato africano’, que a magoava demais. Também fez figuração no clipe ‘Golden Eye’, de Tina Turner e começou a fazer alguns trabalhos em Nova York, como a campanha da Lavazza, em fotos de Albert Watson, em 1997.

Alek Wek - Campanha Lavazza @ Albert Watson
Alek Wek – Campanha Lavazza @ Albert Watson

Neste ano, ela conhece o fotógrafo Gilles Bensinom, diretor de criação da Elle norte-americana. Era o melhor momento da publicação quando se colocava na vanguarda da moda, desafiando os padrões estéticos da época. Criou-se uma parceria, com diversos trabalhos na revista, mas toda capa era com uma modelo branca.
Um dia, a agente de Alek ligou para a o fotógrafo exigindo uma capa. Com forte oposição do pessoal de marketing, eram apresentadas pesquisas afirmando que as pessoas não comprariam revistas com mulheres na capa que não fossem brancas ou tivessem traços americanos ‘tradicionais’. Depois de muita insistência, Gilles conseguiu.

Alek Wek Elle Abril 1998
Alek Wek Elle Abril 1998

Resultado, a edição vendeu absurdamente e praticamente todos os jornais e revistas dos Estados Unidos falavam sobre a capa, que desafiava quase um século de domínio de um tipo tradicional de beleza. Foi a primeira Africana na capa de uma grande publicação de moda internacional.
A vida de Alek mudou. De uma hora para outra, ela se tornou uma celebridade internacional. A revista recebeu elogios de pessoas do mundo inteiro. Quase todos diziam ter achado a foto da capa libertadora.
Sua carreira, enfim, finalmente decolou.

Outros nomes de sucesso

Tyra Banks, Liya Kebebe, Chanel Iman, Joan Smalls (eleita a no. 1 do site da Models), Jourdan Dunn, Malaika Firth e Sessilee Lopez foram nomes que surgiram nas décadas de 90 e 2000. Nos Estados Unidos, Tyra se tornou tão famosa quanto Naomi, principalmente por integrar o casting da Victoria’s Secret e se tornar apresentadora do reality show ‘American Next’s Top Models’, que chegou a 21a. temporada (Abril/2015).
Brasil
Emanuela de Paula Vogue Brasil Janeiro 2011Emanuela de Paula se tornou a primeira modelo negra a sair na capa da Vogue Brasil, em janeiro de 2011. Foi a quebra de um paradigma em 35 anos de Vogue no país.
Atualmente, ao lado de Emanuela, se destacam Gracie Carvalho, Laís Ribeiro, Samira Carvalho, Rojane Fradique, Carmelita Mendes e Ana Bela. Porém, antes delas, dois nomes se destacaram neste cenário nacional: Luana de Noialles e Veluma.
Luana
Na década de 70 e 80, o nome da baiana Luana de Noialles se destacou no cenário nacional e internacional.
Nascida Raimunda Nonata do Sacramento, Luana foi descoberta aos 16 anos e trabalhou para a indústria têxtil Rhodia, desfilando para a Fenit. Mais tarde, na década de 70, por incentivo do estilista Paco Rabanne, embarcou para Itália e França, no qual trabalhou na agência de Catherine Harley. A partir daí, desfilou para para Yves Saint Laurent e Christian Dior.luana_de-noailles
Em 29 de outubro de 1977, Luana se casou com o conde francês Gilles de Noailles, tornando-se a Condessa de Noailles. Com o casamento, abandonou as passarelas.
Em 1982, sua história chamou a atenção de Joãosinho Trinta, ao escalar os nomes dos homenageados para o enredo “A grande constelação das estrelas negras”, que rendeu o título para a Beija-Flor em 1983.
Atualmente, Luana vive em Paris.

Veluma

Na virada dos anos 80 para os 90, ao lado de Luiza Brunet, Monique Evans, Vicki Schineider e Lívia Mund, Veluma foi uma das mais badaladas modelos brasileiras, que faziam tanto aqui, quanto no mercado internacional.

Veluma @ Divulgação
Veluma @ Divulgação
Nascida em 13 de julho de 1953 no interior de São Paulo, Vera Lúcia Maria começou a desfilar aos 17 anos. Virou atriz e participou da montagem teatral de ‘O homem e o cavalo’, de Oswald de Andrade (1991). No cinema atuou em ‘Testamento do Senhor Nepomuceno’, ao lado de Nelson Xavier e na televisão, atuou em novelas da Rede Globo como a primeira versão de ‘Ti-ti-ti’, em 1985. Depois apareceu em ‘Gente Fina (1990)’ e ‘Caras e Bocas (2009)’. Recentemente, ela criou um curso de modelos.
(Artigo de Jorge Marcelo Oliveira, escrito originalmente em 04/01/2011 e atualizado em 27/12/2016)

10 comentários

  1. Karine,
    Um dos lemas do MONDO MODA é questionar padrões pré-estabelecidos! Todos!
    E, particularmente, falar de minorias, é um ponto muito importante!
    Obrigado pela mensagem.
    Abs

  2. É MUITO IMPORTANTE RESSALTAR A REAL BELEZA DA MULHER NEGRA SEJA AMERICA OU BRASILEIRA É UM PRESTIGIO,SOU NEGRA E VEJO QUE A BELEZA DA NEGRA SEMPRE ESTA BEM ESCONDIDA EM FUNÇÃO DE MUITO PRE-CONCEITO E PRECONCEITO.MAIS TENHA PARA DIZER QUE NO BRASIL O PRECONCEITO É BEM MAIOR SENDO ELA BONITA LINDA NÓS NÃO TEMOS VEZ AQUI NO BRASIL QUE PENA .EU PARTICULARMENTE GOSTEI MUITO DESTA REPORTAGEM MUITO BOM MESMO RESALTAR ESSA BLEZA QUE ESTA SEMPRE POR TRÁZ DAS CÂMERAS .

  3. Ola Jorge, na Feijuka do Banco de Olhos nos encontrei…e como vc recomendou, estou aqui acompanhando tudo. Parabéns pela materia sobre as Divas Negras, adorei!!! Grande Beijo! Pâmela Abreu

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