Alguns motivos que levam uma loja de roupa falir em menos de um ano em Campinas

Uma tarde num shopping, visito uma loja bacana, gerenciado por uma querida profissional – sabe gente educada, que assim que você entra já pergunta: ‘Você quer uma água ou um cafezinho?’. Pois é. Numa cidade tão estranha como esta, tenho sorte de conhecer algumas pessoas assim!
No meio do bate papo rápido, ela pergunta: ‘Soube que ‘tal’ loja já fechou. Mas como, se ela acabou de abrir! Você saberia me dizer o motivo?’.
Rapidamente, de uma forma completamente subjetiva, formulei alguns itens explicando alguns motivos que levam uma loja de roupa falir em menos de um ano em Campinas.
Entenda: não sou autoridade de nada. Sou um jornalista, editor de estilo e produtor de figurinos. Trabalho com isto desde 1993. Neste período, acompanhei uma grande quantidade de lojas que abriram e fecharam tão rápido, que até assusta.
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Assim, vamos lá:
  1. Escolha de ponto errado. Como a proposta é uma loja ‘intimista’ (na realidade, não tem luvas para entrar num shopping badalado), escolhe o ‘Cambuí’. Afinal, o marketing vende o conceito que ‘é o bairro mais badalado e charmoso de Campinas’. Só se esquecem de algumas questões, como excesso de loja igual, falta de vagas, estacionamentos carros, segurança meia boca…
  2. Falta de planejamento. Ter um comércio é um investimento caro. É preciso planejamento feito com muito cuidado. Erros comuns: 
  • Hobby para esposa desocupada, mas apaixonada por moda (?). O marido acredita que poderá dar certo, pois ‘uma vez que ela gasta horrores com roupa e isto deve valer alguma coisa, certo?’ 
  • Hobby para mulher antipática. Ela acredita que seu grupo de 10 amigas que ‘tomam sol na Hípica’ garantirá que sua ‘Multimarca’ sem nenhuma marca de expressão será a próxima ‘Daslu’. Promove mega coquetel de inauguração, com a melhor empresa de relações públicas da cidade, contrata fotógrafos e… Semanas depois, descobre que o investimento não deu certo, quando os únicos seres que frequentam sua loja são as moscas!
  • Hobby para ‘amante’, que o ‘namorado’, quer dar uma ‘ajuda’. Em sociedade, seu nome vem acompanhado como ‘teúda e manteúda’ do ‘coronel’ – o que afasta qualquer cliente bacana, que não quer associar sua imagem com tal pessoa. Tudo piora quando o ‘namoro’ termina! 
  • ‘Novo começo’ de gente aposentada ou quer ‘mudar de ramo’ – Sem experiência em varejo e muito menos com roupa, se deslumbra, antes de perceber que caiu numa enrascada, pois nem sabe a diferença entre ‘marca’ e ‘grife’. Recentemente, uma destas novas ‘empresárias’ virou para mim e perguntou: Você poderia me explicar o que é um produtor de moda? Então… As quatro lojas que esta pessoa abriu em 2012 fecharam! 
  • Ex-dona de padaria, que acredita que as peças do Bom Retiro, Brás ou ‘made in Taiwan’ têm a ‘cara’ de Campinas. Na loja, obriga as vendedoras a ‘trocar’ a etiqueta original e tem a absoluta certeza que esta ‘esperteza’ será seu passaporte para se tornar ‘socialite’!
    3. Idealização sobre Campinas.
  • Franqueada de outra cidade, que acredita que a cliente de Campinas é igual sua terra natal, ‘Moçolândia do Sul’. Erra no coquetel de abertura. Não contrata uma empresa de relações públicas (tem uma amiga que é super antenada e conhece um ‘monte de gente do meio’… ). Não contrata assessoria de imprensa ou, quando contrata, faz ‘permuta’ (pois a assessoria é seguida por 10 blogueiras de moda sem expressão… ). Aposta no buffet da cidade de origem, que serve salgadinho frito, queijo e presunto no palito e espetados no abacaxi, guaraná Dolly em copo plástico, Chandon quente e bombom de chocolate Cacau Show. E ainda finaliza a festa, entregando perfume vencido como ‘mimo’.
  • A colega da franqueada acima é outra que não sabe que a Campinas é mezzo metrópole, mezzo interior. Sim, é uma cidade de tecnologia de ponta, praça bancária em quinto lugar no ranking no nacional, universidades respeitadíssimas, etc… Mas é interior! O coração de Campinas pulsa ‘família, honra e tradição’. Em nome destes ideais, com raras exceções, a família se comporta como personagem rico das novelas do Gilberto Braga. Dão valor ao sobrenome, frequentam as festas do clube mais antigo da cidade, onde encontram seus ‘iguais’ (filhos, sobrinhos ou netos dos colonos de café), não cumprimentam ninguém (esperam que eles sejam cumprimentados), desconfiam de qualquer pessoa que seja um pouco mais ‘escurinha’…  E acreditam que Campinas termina após as rodovias Anhanguera ou Bandeirantes!  
  • Outra colega da franqueada também não sabe que campineira é uma figura sui generis. Sim, é uma mulher moderna e viajada, mas toma sol na Hípica, bate cartão nas lojas do Iguatemi ou Galleria, usando a mesma roupa de ginástica; é fiel a determinadas lojas; viaja constantemente para a Europa, mas ama os Outlets americanos – pois acha o máximo pagar U$ 15 numa jaqueta Donna Karan de cinco coleções passadas; compra óculos de grife com maxi logo na haste – para mostrar prazamigas, e, quando sobra alguns dólares, compra a bolsa Louis Vuitton com monograma, pois acham ‘chic’ mostrar logos para os ‘jacus’ (acredite: tem campineira que usa esta gíria do começo dos anos 70!)! Ah… E no último dia de viagem em Miami, lota a mala com hidratantes de U$ 10 da Victoria’s Secrets para presentar os parentes de Campinas!
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4.    Equipe mal treinada. Não é nada fácil ter bons funcionários, mas alguns erros são primários.
  • O dinheiro mudou de mão. A socialite badalada e que bate cartão nas colunas sociais tem um sobrenome famoso, mas pode não ter onde cair dura. Não perde uma inauguração, pois, terá boca livre. Por outro lado, existe aquela desconhecida, com mega emprego e maxi salário, mas, não é da ‘turma. Entre estas duas, certamente, o vendedor dará atenção a primeira, pois, o vendedor não atenderá pessoa que ‘não tem cara de quem dinheiro’.
  • Falta de compromisso. Entenda: no cenário atual, difícil uma loja que esteja com seu quadro completo. O comércio deixou de ser atrativo como profissão e, sim, como ‘bico’. Sabe aquela estudante universitária que tem as tardes e noites livres? Então, raramente, ela se tornará uma vendedora de sucesso, pois encara que está na loja até terminar sua graduação!
(Artigo: Jorge Marcelo Oliveira)