Arquitetura e história de edificações do centro de Campinas

Campinas Skyline @ Foto MTB Engenharia
Campinas Skyline @ Foto MTB Engenharia
Diante da vida moderna agitada dos dias atuais, correria, trânsito, poluição visual, inevitavelmente não estamos atentos em detalhes permanentes, que de uma forma ou de outra, fazem parte de nosso cotidiano. Edifícios em frente aos quais pelas nossas necessidades, acabamos passando em algum momento de nossas vidas. Construções com interessantes características que, hoje, abrigam cartórios, comércios, hotéis e carregam consigo uma bagagem histórica de suma importância desde o processo de verticalização de Campinas que  iniciou-se por volta de 1.930 com base nos modelos europeus e norte-americanos de urbanização.
Tais edificações são engolidas por nossa abstração diária e em certos momentos, passamos por elas, entramos e não as percebemos devido a  nossa correria, falta de tempo ou mesmo de interesse em aprofundar nossos conhecimentos. Consequentemente, acabamos por não observar os bastidores daquelas edificações, suas histórias e o porquê delas estarem ali.
Muitos de nós, Campineiros, valorizamos e conhecemos edifícios em outras cidades, outros países e não nos atentamos para o que temos de valor nos aspectos  construtivo e histórico em nossa cidade.
Em uma breve análise pelo centro de Campinas, como Arquiteta, tenho um interesse e uma percepção diferente de outras pessoas. Seria utópico pensar que todos têm o mesmo interesse em observar construções e saber de sua história, porém é possível tentar despertar certa curiosidade sobre alguns prédios que marcaram nossa cidade em seu desenvolvimento ao longo dos anos.
Com o despontar da indústria, a necessidade de habitações e comércios verticais foi crescendo, pouco a pouco e se consolidando a partir da área central, até por questões ligadas à legislação municipal e ao parcelamento do solo, que limitava o uso de edifícios verticais nesta região.
Campinas contava com o “Plano de Melhoramentos Urbanos”, realizado pelo Urbanista Prestes Maia. Partindo deste plano, foram surgindo os primeiros edifícios. A metropolização estava relacionada a este processo; já existia uma relação entre o capital imobiliário, financeiro, fundiário e produtivo que no meio deste processo de verticalização gerava uma estratégia de interesse mútuo. Então, a necessidade de modernização girava em torno destes interesses e da demanda pelos considerados “grandes empreendimentos”.
A publicidade era ferramenta fundamental à modernidade, era a sedução e convencimento das massas para a venda, além de produtos, de ideias e conceitos, foi muito aplicada na modernização urbana de Campinas. A propaganda de “arranha-céus” com este conceito moderno era feita através de persuasão pública, a fim de conquistar a adesão da sociedade na verticalização e realização do projeto urbanístico. Havia um discurso persuasivo, de forte convencimento para legitimação deste grande projeto modernizador.
O objeto principal desta estratégia de persuasão, era além da verticalização, o estilo de linguagem estética arquitetônica adotado para os primeiros prédios: o Art Dèco.
O plano de Urbanismo e a ideia da construção de “arranha-céus” eram a expressão da modernidade de uma cidade industrializada, na qual Campinas havia se transformado. Era a proposta de uma cidade verticalizada que marcava esta nova estrutura econômica.
Nos anos de 1929 a 1936 entre projetos, documentações para aprovação da obra e construção propriamente dita, nasce o primeiro “arranha-céu” de Campinas: o Prédio Sant´Anna com apenas 7 andares, projetado por Gouvêia & Cunha em sociedade com o engenheiro Lix da Cunha, e construído por Lix da Cunha. O Sant´Anna abriu portas para seu conceito ser usado em outros edifícios construídos, posteriormente e  localizados no centro de Campinas.
Tal edifício em uma estratégia de marketing. Foi caracterizado como cartão postal da cidade na época, através de propagandas comerciais e institucionais, onde a prestigiada Loja de Chapéus Cury (a maior e mais renomada indústria de chapéus da cidade) aparecia em destaque por ocupar todo andar térreo do edifício. Era objeto constante de destaque na mídia, especialmente no Jornal Correio Popular que, frequentemente, era veículo de divulgação para a loja e para o prédio.
Edifício Sant´Anna – 1936 @ Foto Patrícia Forte
Edifício Sant´Anna – 1936 @ Foto Patrícia Forte
O Prédio Sant´Anna abriga o Opala Barão Hotel nos andares superiores e o 3°Cartório no Térreo. Com estrutura tímida com seus singelos sete andares – comparado a outros “arranha-céus” da época, seu valor estava no registro histórico do rompimento da morfologia urbana pré-industrial de Campinas e sua necessidade de modernização em relação aos denominados grandes centros.
O que me atraiu particularmente neste edifício, além de ser o ponto de partida para outros edifícios serem construídos, foi sua estrutura em concreto armado construída com materiais de excelente qualidade que sobrevivem até hoje, intactos. No estilo Art Déco, aplicado sem adornos decorativos em sua fachada, possui uma linguagem interessante, um jogo de volumetria entre as sacadas geometrizadas e semi-embutidas dando movimento à edificação  e as janelas tipo “Copacabana” (esquadria de correr e basculantes). Seu eixo de simetria prevê a  valorização da esquina, de forma arredondada, essa estrutura simétrica na organização de sua forma marca o  estilo adotado também em outros prédios comerciais da mesma época exemplificados a seguir.
Edifício da antiga Caixa Econômica Estadual - 1938 @ Foto Patrícia Forte
Edifício da antiga Caixa Econômica Estadual – 1938 @ Foto Patrícia Forte
Edifício da antiga Caixa Econômica Estadual, a primeira agência da Caixa instalou-se neste edifício construído em 1938.
Segue o mesmo padrão de eixo de simetria e forma, o que difere é o estilo das janelas e as molduras em concreto.
Edifício do Correio Popular - 1941 @ Foto Patrícia Forte
Edifício do Correio Popular – 1941 @ Foto Patrícia Forte
Edifício do Correio Popular (atual RAC), segue esta mesma vertente do estilo adotado pelo engenheiro Lix da Cunha que o projetou e o construiu em 1941. Foi o sétimo edifício de Campinas e o primeiro da Rua Conceição. Sacadas arredondadas e recuadas na esquina, recuos laterais impedem a insolação excessiva e dão movimento à fachada deste edifício.
Nesta concepção de edifícios verticais, Campinas passava por um novo momento enquanto urbanização, eram construídos os primeiros edifícios de habitação coletiva na cidade. No início da verticalização habitacional, os edifícios com este fim eram, em números, inferiores aos edifícios comerciais.
Seguindo a demanda de modernização acelerada e comercialização de apartamentos residenciais, na década de 1950 esse número de habitações verticais era maior e o número de edifícios comerciais perdia vantagem.
Edifício Itatiaia - 1952 @ Foto Patricia Forte
Edifício Itatiaia – 1952 @ Foto Patricia Forte
23 de novembro de 1952. Domingo. Foi lançada a venda (matéria publicada no Jornal Correio Popular) das unidades habitacionais do Edifício Itatiaia, como o primeiro projeto de Oscar Niemeyer para uma cidade do interior paulista. No domingo seguinte, o jornal divulgava o nome dos primeiros 20 compradores, representados pela elite Campineira da época. Era a inauguração do primeiro edifício, exclusivamente residencial, lançado na cidade, seguindo os princípios da arquitetura moderna.
Edifício Itatiaia - 1952 @ Foto Patricia Forte
Edifício Itatiaia – 1952 @ Foto Patricia Forte
Sua estrutura era sobre pilotis em V, conceito desenvolvido pelo arquiteto modernista francês Le Corbusier que publicou e definiu “Os Cinco Pontos da Arquitetura Moderna”, no ano de  1926:
1. os pilotis – que elevam a massa acima do solo;
2. planta livre, obtida mediante a separação entre as colunas estruturais e as paredes que subdividiam o espaço;
3. a fachada livre, o corolário da planta livre no plano vertical;
4. a janela longa corrediça horizontal ou “fenêtre em longueur” e ;
5. o jardim de cobertura que supostamente recriava o terreno, coberto pela construção do edifício.
O Itatiaia era o único edifício que seguia estes cinco pontos e entrou para a história da arquitetura moderna brasileira.
A estrutura desenvolvida por Niemeyer para os 15 andares é única em Campinas e exibe alguns traços do Edifício Copan (São Paulo) em sua fachada posterior (traseira) que possui uma leve curva. Em ambas fachadas, os brises,  em toda a extensão do edifício não permitem a entrada de luz solar ou chuva nos apartamentos, mesmo com as janelas abertas. As paredes no interior do prédio são duplas, para que haja isolamento acústico.
Edifício Itatiaia - 1952 @ Foto Patricia Forte
Edifício Itatiaia – 1952 @ Foto Patricia Forte
O Edifício Itatiaia se localiza na Avenida Irmã Serafina, uma das vias mais movimentadas do Centro de Campinas, faz parte do Corredor Central – eixo de trânsito que circunda o miolo de passagem de veículos na cidade. Por este e outros motivos que muitos campineiros o desconhecem, ou pior, que Campinas possui um edifício projetado por Oscar Niemeyer. Alguns já ouviram falar seu nome por ser familiar e passarem, diariamente, pela Avenida Anchieta que abriga a fachada anterior deste edifício de 15 andares. Na época de sua construção, seguia o conceito de liberdade, desprovido de muros e grades, tendo seu pavimento térreo como passeio e interligação de pedestres das ruas Irmã Serafina e avenida Anchieta.
Foi fechado na década de 1980 pelo crescimento da violência na cidade e  tombado pelo Condepacc, transformando-se em patrimônio histórico em 2011.
(Artigo colaborativo e fotos dos prédios da Arquiteta e Urbanista Patricia Forte | Foto Skyline: MTB Engenharia)