Sammya Araújo comenta o clássico ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’

#Selfie Sammya Araujo e Machado de Assis
#Selfie Sammya Araujo e Machado de Assis

Até pensei em escolher Dom Casmurro e o dilema da fidelidade de Capitu dos “olhos de ressaca”. É uma história que sem dúvida prende o leitor pela respiração e tem que ser lida umas dez vezes pra que se tome partido de Bentinho ou da “dissimulada” sobre a qual pairam as suspeitas de adultério. E talvez nem assim. Joga aí no Google que vão surgir umas trocentas teses acadêmicas sobre o caso. Vale conferir se você chegou a essa fase da vida sem um professor que lhe tenha feito o favor de incluir na lista de obras obrigatórias.

Mas, em minha modesta opinião de fã, a essência de Machado de Assis está mesmo em Memórias Póstumas de Brás Cubas. É puro sarcasmo e um pessimismo largado que chega a ser hilário, a perfeita tradução da alma Machadiana. Foi um divisor de eras na prosa do autor e marco na história da Literatura brasileira. É apontado por críticos como o precussor do realismo.
Pois, vejam, o livro é escrito pelo morto do título. Não é um autor defunto, mas um defunto autor. Um morto que escreve sua biografia. Já não tendo nada de que se privar ou que esperar, bate um papo com o leitor (outra característica deliciosa de Machado), soltando o verbo contra a família, os amigos, os amores, e, nessas entrelinhas, tecendo uma crítica à elite carioca do século 19, mas que é atemporal. Aliás, isso até merece um parênteses.
Memórias Póstumas de Brás Cubas
Mulato pobre, neto de escravos, que nasceu em 1839 no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, e cresceu numa época de ebulição política, foi daqueles homens pra quem nem fama nem sucesso vieram rápido ou fácil. Acusado por alguns de indiferença diante dos dramas que afligiam o Brasil e o mundo de então, Machado tinha um jeito peculiar de se manifestar a respeito, sem discursos inflamados nem emotivos.
Por mais de 40 anos, sua ferramenta foi a crônica social. Tida como um gênero literário meio descartável por geralmente estar conectada ao factual, a crônica, em Machado, é aula de história e reflexão. Cheia de ironia, lógico, daquele tipo que faz a gente levantar um cantinho da boca só de imaginar o alvo da patada tendo um frenesi, ou, melhor ainda, ficando com uma desconfortável dúvida sobre o diabo do significado daquilo.
Foi assim que ele registrou a escravidão e a abolição, por exemplo. Dias depois da Lei Áurea, publicou uma dizendo ter alforriado um molecote seu escravo já prevendo o que viria, e ter oferecido um jantar comemorativo ao ato. A “bondade branca” vinda de um mulato que “enricou” depois de velho.
Machado de Assis - Caricatura do Rafa @ Divulgação
Machado de Assis – Caricatura do Rafa @ Divulgação
Mas voltando ao sujeito que jazia no caixão e é o objeto desse texto. Brás Cubas já começa o seu diário do além dedicando-o “ao verme que primeiro roeu as carnes do meu cadáver”. O prólogo é outro trecho impagável. “Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, diz ele sobre a obra. E conclui: “se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus”.
Depois segue o relato começando pelo fim  propriamente dito: sua morte e seu enterro. A narrativa não é linear, viaja nas digressões de Brás Cubas – que nada de extraordinário realizou em vida. Não conseguiu criar o emplasto que se propunha milagroso, não casou, não teve filhos, foi um burocrata e um político medíocre. Parece um tédio esse livro? Pois não é!
E esqueça aquela “autora” que anda fazendo fama às custas da polêmica de chamar os leitores brasileiros de ‘limitados’ e a linguagem de Machado, complicada. Tal pessoa pretende reescrever seus livros, substituindo as palavras “difíceis” por outras mais banais. Pois se o problema de compreender esse autor de afiadíssima inteligência fosse de semântica, era só o caso de um dicionário. Ao contrário de Brás, que não transmitiu a ninguém o legado de sua miséria, Machado tem uma legião de filhos, leitores educados no seu mundo único. E eu acho que a “autora” que se julga capaz de mutilar isso não entendeu nada, a inocente.
(Sammya Araújo é jornalista, viciada em ler desde os  anos, viajante do tempo e espaço em páginas de livros e acha que a pretensão de simplificar Machado de Assis é uma estupidez.)