O Cheiro da Arte – Exposição ‘The Scent of Art’

Coluna assinada pela correspondente internacional Ana Paula Barros – direto da Suiça
Nose Silhouette by John Baldessari (2010) @ Ana Paula Barros
Nose Silhouette by John Baldessari (2010) @ Ana Paula Barros

Um dos sentidos que mais está ligado às emoções humanas e que é capaz de despertar memórias e sensações é olfato.

A exposição experimental “Belle Haleine – The Scent of Art” no Museum Tinguely Basel (Suiça) traz o trabalho de diversos artistas que exploram esse sentido seja por imagens, palavras e até mesmo produzindo essências que desafiam o visitante como por exemplo a artista canadense Clara Ursitti e seu perfume “Eua Claire” produzidos a partir de suas próprias secreções genitais dissolvidas em álcool e óleo de côco: provocativo e chocante.
Desde o século XVI gravuras retratam esse sentido seja por uma delicada rosa próxima à face e ao nariz ou por cenas grotescas como um homem vomitando em uma taberna. Não precisa do odor em si, a nossa memória olfativa é automaticamente ativada e na sequência, nossa reação de repugnância. Esse é um gigantesco arquivo que mantemos em nosso cérebro, associando a situações positivas ou negativas.
A exposição é um mergulho profundo na exploração desse tema e vou destacar 3 obras que foram marcantes por mexerem profundamente com meus sentidos:
1)      SISSEL TOLAAS – “The FEAR of Smell – the Smell of FEAR” (2006-2015) – Uma sala toda branca com o suor frio de 11 homens que sofrem de fobias críticas. A artista norueguesa, expert em essências, desenvolveu um trabalho junto ao MIT, um aparato para recolher o suor durante os ataques de pânico. Com essa informação, ela recriou sinteticamente os cheiros e aplicou nas paredes dessa sala fechada. Os visitantes então esfregam a parede para o odor surgir. De acordo com Sissel, seu trabalho é sobre tolerância: “Nothing stinks – only thinking makes it so!”
NOTA: Não consegui ficar mais que 30s na sala. Como a exposição estava cheia, o ar da sala estava impregnado. Começou a me dar uma taquicardia, quase um ataque de pânico. Sei que sou sensível a odores e talvez esse “cheiro do medo” tenha me afetado.
2)      CARSTEN HÖLLER & FRANÇOIS ROCHE – “Hypothése de grue” (2013) – Uma instalação que traz um experimento interessante mas ao mesmo tempo achei aterrorizante: uma neblina de vapor sem odor algum fica sendo expelida nessa sala. Aos poucos uma animação, uma empolgação começa a tomar conta de você: o vapor contém substâncias estimulantes. A provocação está nesse ponto: “o que estamos respirando e como isso pode nos afetar?”
3)      ERNESTO NETO – “Mentre niente accade” (2008) – Uma sala com uma instalação monumental que estimula todos os sentidos, bolsas de Lycra são dispostas no chão e algumas são suspensas, a transparência do material, revela o conteúdo. Preenchidas com areia, pimenta-do-reino, açafrão, gengibre e cravo, o cheiro é muito forte, mas ele começa a se misturar e se dissolver depois de um tempo na sala e o visual é bem apelativo pelas cores dos temperos e pelas formas orgânicas que se desenham. Boas memórias me ocorreram nesse espaço, fiquei nostálgica. Valeu a experiência 🙂

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