MONDA MODA comenta o sensível ‘A Garota Dinamarquesa’

Alicia Vikander and Eddie Redmayne em A Garota Dinamarquesa @ Allstar-Universal Pictures
Alicia Vikander and Eddie Redmayne em A Garota Dinamarquesa @ Allstar-Universal Pictures

A Garota Dinamarquesa conta a estória do casal Einar (Eddie Redmayne) e Gerda Wegener (Alicia Vikander), na Copenhague dos anos 20 e 30. Ele é um pintor reconhecido, enquanto ela faz ilustrações, enquanto tenta encontrar seu estilo nas artes plásticas. Numa tarde, com a ausência de uma modelo, Gerda pede para Einar ajudar a terminar uma tela. Ele coloca meias de seda e sapatos femininos. Para completar, um vestido de saia plissada. O contato com aquela peça desperta algo em Einar. Algo que irá mudar sua vida.

Com a nova musa, Gerda começa a fazer sucesso, enquanto Eisner vai reconhecendo um universo que sempre esteve guardado no seu íntimo: a necessidade de ser mulher. Nasce Lili Elbe, que será a primeira pessoa a passar pela Cirurgia de Redesignação Sexual da história.
Vida Real
Gerda and Einar Wegener in front of Gerda's painting Sur la route d'Anacapri at an exhibition in 1924 @ The Royal Library, Denmark
Gerda e Einar Wegener em frente a uma das obras dela em 1924 @ The Royal Library, Denmark

A longa trajetória de Lili Elbe e Gerda Wegener foi resumida para caber num filme hollywoodiano baseado no romance ‘The Danish Girl’, de David Ebershoff, escrito em 2000, que se tornou um Best Seller traduzido em doze línguas.  No filme, o amor entre o casal é enfatizado, mas ressaltando que se tornam seres assexuados. Na vida real, o negócio era bem diferente. Assim que o casal se ‘acertou’ com o novo momento de Lili, eles se mudaram para a Paris, onde viveram como duas mulheres, enquanto Gerda se divertia com diversas amantes femininas. Por outro lado, Lili passou anos sem qualquer modelo a seguir enquanto ser humano. O termo ‘transexualismus’ tinha acabado de ser criado pelo médico e sexólogo Magnus Hirschfeld (pioneiro na defesa dos direitos dos homossexuais), contudo, a sucessão de médicos que conheceu a trataram como histérica ou pervetida.

Ulla Poulsen no ballet Chopiniana by Gerda Wegener in 1927 @ Domínio Público
Ulla Poulsen no ballet Chopiniana by Gerda Wegener in 1927 @ Domínio Público

Em 1925, Gerda conheceu o sucesso na Feira Mundial de Paris, transformando-se num dos nomes mais importantes do movimento Art Deco, ganhando duas medalhas de ouro e uma de bronze por suas obras. Além disto, suas ilustrações estavam na La Ve Parisisenne, Vogue, Le Rire e La Baïonnette. Também começou a produzir um belo acervo de arte erótica.

Gerda Wegener's A Summer Day, 1927
Lili é uma das musas da obra ‘A Summer Day’, de Gerda Wegener, 1927 @ Domínio Público

No final da década, Lili fez sua primeira cirurgia (foram cinco no total) de mudança de sexo no Magnus Hirschfeld’s Institute for Sexual Science, em Berlin. Em seguida, ela conseguiu a mudança legal de sua documentação, que acabou anulando seu casamento, pois na Dinamarca não era possível a união entre duas pessoas do mesmo sexo (isto só mudaria em 1989). Mesmo não ‘casadas’, Gerda continuou apoiando Lili – menos na última, que foi feita sem conhecimento.

Transexuais na mídia
Mas, vamos lá: em ‘A Garota Dinamarquesa’, você não verá nada do que citei no último parágrafo. O roteiro preferiu ‘florear’ a estória original para transformar a vida do casal em algo mais palatável ao gosto ‘médio’. Ok, isto não tem problema. A estória é sensível e forte, graças, principalmente a questão da transexualidade e pelas atuações de Eddie e Alicia. Na fase da pré-produção do filme, porém, houve um burburinho sobre o porquê de não se chamar uma atriz trans para interpretar o papel de Lili. Político, o ator deu sua versão: “Muitas mulheres trans tomam hormônios, mas naquela época esses hormônios ainda não existiam, logo, não seria tão fidedigno. Mas eu tenho certeza que, não fosse por isso, uma atriz trans interpretaria o papel de Lili brilhantemente”.
Gerda Wegner - Ilustração - 1925@ Fototeca Storica Nazionale - Getty Images
Gerda Wegner – Ilustração – 1925@ Fototeca Storica Nazionale

De fato, a discussão sobre transexualidade é um dos assuntos preferidos da mídia americana, principalmente pelo sucesso da atriz Laverne Cox da série ‘Orange Is The New Black’ (capa da Time em maio de 2014), de polêmica envolvendo o nome de Caitlyn Jenner e da série ‘Transparent’, que trata da vida de um transexual de meia-idade. Agora, colocar uma atriz transexual num papel de destaque numa grande produção de Hollywood, lançada em plena temporada de Oscar, ainda vai demorar. Entenda: Hollywood é uma indústria. De sucessos e de prêmios. Pensa-se cinema pela ótica do lucro. Por mais que, eventualmente, surja algum filme que saia do óbvio, ainda vai demorar alguns anos para um filme com temática assim ganhar o principal prêmio americano. Que, sim, é o objetivo de filmes lançados nesta época do ano! Uma coisa é um ator ou atriz ganhar um Oscar pelo papel de gay, lésbica ou travesti. O mesmo pode acontecer com seu roteiro, agora, para o prêmio principal… Lembre-se de ‘O Segredo de Brokeback Montain’, em 2006, perdendo para ‘Crash’…

Figurinos de 'A Garota Dinamarquesa' @ Focus Features
Figurinos de ‘A Garota Dinamarquesa’ @ Focus Features

Produção sensível

Enfim… Voltando ao ‘A Garota Dinamarquesa’, ele tem méritos. É uma obra sensível que traz a tona um assunto relativamente desconhecido pelo grande público, que, provavelmente não vai entender muito do que se trata. Tem um excelente trabalho de figurinos de Paco Delgado e também é bem interpretado pela dupla de atores.
Eddie faz uma composição discreta e delicada, enquanto a atriz sueca Alicia Vikander chega dominando a cena. Ela prova que, a Suécia tem algo tão interessante quanto Ingrid Bergman, atriz que dominou Hollywood nos anos 40. Porém, apesar de sua ótima atuação, Alicia está ganhando prêmios da crítica pelo filme de ficção ‘Ex-Machina’. De qualquer forma, ela tem dupla indicação ao Globo de Ouro 2015 (atriz principal e coadjuvante), que acontecerá no domingo, 10 de janeiro. Caso seu nome seja anunciado, independente de qual filme for, será merecido!
(Artigo assinado por Jorge Marcelo Oliveira)