Jean Dubuffet – Metamorfose da Paisagem

Coluna assinada pela correspondente internacional Ana Paula Barros – direito de Basel, Suíça

Ana Paula Barros @ Selfie
Ana Paula Barros @ Selfie

Jean Dubuffet é considerado um dos principais artistas europeus da segunda metade do século XX, tendo influenciado artistas contemporâneos como Jean-Michel Basquiat, Keith Haring e David Hockney e também o street-art.
Ele procurou caminhar longe de normas e convenções acadêmica e artísticas pré-estabelecidas, buscando uma nova linguagem. Inspirou-se em artistas às margens da cena cultural e, às vezes, da sociedade, como por exemplo, os estudos e pesquisas que conduziu sobre os trabalhos desenvolvidos pelos pacientes de clínicas psiquiátricas na Suíça no pós-guerra (1945).
À essa arte expressiva, pura e inicial, sem influência de estilos, Dubuffet designou o termo, em francês, Art Brut (Arte Bruta).
A exposição “Jean Dubuffet – Metamorphosen der Landschaft” traz uma retrospectiva em mais de 100 obras, apresentando as diferentes fases do trabalho do artista, baseados na ideia de paisagem que, em sua visão, podem ser transformadas em corpos, faces e objetos. Nessa temática, o artista explorou diferentes técnicas e materiais como areia, papier maché, asas de borboleta, esponjas do mar e resíduos, criando diferentes e curiosas texturas, em tons mais sóbrios e terrosos, uma linguagem única e original.
Isso mudou no início de 1961 quando Dubuffet se deparou com as novas paisagens urbanas, em especial, Paris. O dinamismo, as novas noções de velocidade e tempo, as luzes, os novos prédios, o caos. Esses elementos inspiram a série “Paris Circus” em cores vibrantes.
A essa série segue o ciclo mais produtivo da vida do artista (1962 – 1974) com a criação de uma paisagem diferente, imaginada por ele, a série L’Hourloupe, composta por pinturas, esculturas, instalações arquitetônicas e teatrais, originadas partir de rabiscos que Dubuffet desenhava com caneta esferográfica, distraidamente, ao falar ao telefone. Esses rascunhos lembram peças de quebra-cabeças, apenas contornos e formas orgânicas, todas se encaixando.
Exposição Jean Dubuffet na Suiça @ Ana Paula Barros (12)A obra-prima dessa série é, sem dúvida a peça “Coucou Bazar”, um encontro entre pintura, escultura, teatro, dança e música, no qual figuras “animadas” por performers que interagem entre si e com os elementos do cenário no palco, em diferentes combinações, metamorfoseando constantemente a paisagem. Esse espetáculo foi apresentado apenas três vezes, em Nova Iorque e Paris (1973) e Turin (1978). Durante a exibição, em horários determinados, dois personagens interagiam com o público, resgatando uma parte desse espetáculo que, por razões de conservação, não pode ser completamente exibido novamente. Tendo o palco montado como pano de fundo, dá para se ter uma ideia do quão incrível deve ter sido. (NOTA: No YouTube é possível achar alguns vídeos).
Na fase final de sua vida, Dubuffet faz uma retrospectiva de sua obra, criando assemblages que sintetizam seu pensamento e técnicas passados, como um “teatro da memória”, memórias de paisagens que desaparecem em sua mente.
Jean Dubuffet nasceu em 1901 em Le Havre, Normandia e faleceu em Paris em 1985. Até 08 de Maio pode ser visitada a exposição na Fondation Beyeler em Riehen, Suiça.