“Por que você não… Banha os cabelos do seu filho em resto de champanhe para se tornarem mais dourados como eles fazem na França?” por Diana Vreeland

Diana Vreeland (pronunciava-se Diana, e não ‘Daiana) nasceu em Paris durante a Belle Époque, mudou-se para Nova York às vésperas da Primeira Guerra Mundial ainda menina, depois da Grande Depressão foi para Londres e, por fim retornou a Nova York no início da Segunda Guerra Mundial para tornar-se uma referência no mercado da moda americana.

Diana Vreeland 1936 @ Reprodução

“Você tem que ter estilo. Ele te ajuda a descer a escada. Ele te ajuda a levantar de manhã. É um modo de vida. Sem ele, você não é nada”, afirmou, na biografia “D.V.”, editada por George Plimpton em 1984. Ela criou a figura da editora de moda. Para ser mais exato, Diana criou várias coisas, inclusive a si mesma.
Nascida, Diana Dalziel, filha do corretor inglês Frederick Dalziel e da socialite americana Emily Hoffman, que, desde cedo, sabotava sua autoestima: “É muito triste você ter uma irmã tão bonita e você ser tão feia”. No caso, sua irmã mais nova, Alexandra. “Pais, você sabe“, diz Diana em sua biografia, “podem ser terríveis”.

Diana, aos 13 anos, ao lado do pai e da irmã, Alexandra @ Courtesy of Mrs. Hugh Astor

Em Nova York, ficou três meses numa escola, pois não sabia falar inglês e também não queria. Foi para uma escola russa, onde se encantou pelas aulas de dança, que se tornou uma paixão. Principalmente quando dançava nos clubes do Harlem, nos animados anos 20.

Diana Vreeland e Thomas Reed Vreeland @ Arquivo Diana Vreeland

No documentário “Diana Vreeland: the eye has to travel”, lançado em 2011 e dirigido por Lisa Imordino Vreeland , ela conta que sua autoestima só se fortaleceu com o casamento com o banqueiro bonitão Reed Vreeland, em junho de 1924. Ele a fez sentir-se bonita, ao contrário do que sempre ouvia da mãe. Foi amor à primeira vista.
Com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, o casal se mudou para Londres. Com a proximidade de Paris, tornou-se amiga de Coco Chanel, que a vestia em seu ateliê, obrigando-a fazer três provas de roupa em buscar do caimento perfeito. Em seguida, Diana abriu uma loja de lingerie em Londres. Entre suas clientes, a americana divorciada duas vezes Wallis Simpson, que causava barulho graças ao namoro com o Rei Edward VIII, que, abdicou do trono em nome da paixão em 1936.

Diana ao lado do marido e dos filhos @ Arquivo Diana Vreeland

O início da Segunda Guerra Mundial levou o casal, agora, com dois filhos (Thomas e Frederick), a se mudar para Brewster, Estados Unidos. Ela não era uma mãe ‘convencional’. Costumava dizer aos garotos para serem ‘os melhores’ ou ‘os piores’ da classe. Nunca os ficavam no meio do caminho. Ela detestava os lugares comuns.
EDITORA DE MODA
Em 1936, a editora-chefe da Harper’s Bazaar, Carmel Snow, encantou-se com aquela nariguda, vestida de Chanel e dançando nos salões do Hotel St. Regis em Nova York. Imediatamente lhe ofereceu uma coluna chamada “Why don’t you…” (Por que você não…), no qual Diana dava malucos conselhos de estilo de vida.

“Por que você… Não pinta um mapa-mundi nas paredes do quarto de seus filhos para que eles não cresçam tendo uma visão muito provinciana de mundo?”.

Diana Vreeland Coluna Why Don’t You…

“Por que você não… Banha os cabelos do seu filho em resto de champanhe para se tornarem mais dourados como eles fazem na França?”

Diana se tornou editora de moda da revista, deixando a coluna de frivolidades para trás. Até então, as revistas eram voltadas a dar conselhos conjugais, receitas de comidas e outras idiotices para ricas mimadas. Com Diana, a moda saiu do lugar comum. Em 1947, foi a primeira a fotografar uma modelo de biquíni, causando perplexidade na equipe, que nunca tinha deixado tanta pele a mostra. Diante disso, ela disse: “Com uma atitude dessas, vocês mantêm a civilização atrasada uns mil anos.” Mais tarde, descobriu o blue jeans.

Lauren Bacall Harper’s Bazaar Março 1943 @ Reprodução

Ela descobriu Lauren Bacall, Anjelica Houston, Twiggy, Edie Sedgwick, Penelope Tree e Veruschka, garantiu sucesso aos fotógrafos Richard Avedon, Irving Penn, David Bailey, Patrick Litchfield e Cecil Beaton. E abriu as portas da revista para celebridades, como Beatles, Elizabeth Taylor, Barbra Streisand, Sophia Loren, Maria Callas e Mick Jagger.
No final da década de 50, Carmel Snow saiu de cena. Diana acreditava que assumiria seu cargo de editora-chefe, mas isto não aconteceu. Puta da vida, declarou: “Depois de 28 anos, em 1959, os Hearst (donos da revista) me deram um aumento – mil dólares. Você imagina? Você daria à sua cozinheira isso depois de 28 anos trabalhando para você?”. Era hora de partir para outro desafio.

Barbra Streisand Vogue Dezembro 1966 @ Richard Avedon

Ele surgiu em 1962, quando aceitou o convite de Sam Newhouse, que acabara de comprar a Condé Nest, para ser editora-chefe da “Vogue”. Novamente, ela enfrentaria outro desafio, no caso, de se superar. Gastava os tubos para mandar suas equipes aos lugares mais exóticos para produzir incríveis ensaios, que encantaram um público ávido por novidades. Entre as ousadias, cinco semanas para produzir um editorial no Japão com a modelo Veruschka.
Com seu ego leonino elevado a máxima potência, tornou-se uma figura temida, arrogante, que humilhava, intimidava e gritava com assistentes, fotógrafos, modelos e estilistas sem distinção. Se você achou que Miranda Pristley, feita com maestria por Meryl Streep, em ‘O Diabo Veste Prada’ foi inspirada em Anna Wintour, você se enganou!

Andy Warhol, Diana e Steve Rubell no Studio 54 @ Getty

Quando o marido morreu, em 1966, foi ao velório de branco. Se já não era uma mãe presente, depois disto, tornou-se ainda mais distante. Mergulhou integralmente na imagem que construiu, passou a frequentar festas e tornou-se amiga dos jovens atores de Hollywood, como Jack Nicholson, Warren Beatty, Cher, Julie Christie, Anjelica Husto. Tornou-se consultora (e amiga) de Jackie Kennedy, frequentava o Factory de Andy Warhol e dançava no Studio 54. Tornou-se uma celebridade tão famosa quanto aquelas que apareciam nas páginas da Vogue.
Porém, nem tudo eram flores. Os altos custos de seus editoriais aliado ao cada vez mais crescente desagrado dos anunciantes diante da obsessão pelas tendências levaram a sua demissão da revista em 1971.
ARTE

Diana Vreeland Metropolitan Museum of Art Nova York @ Getty

Beirando aos 70 anos, seu mundo literalmente caiu. Ela se recusava a acreditar que teria que assumir uma vida ‘ordinária’, o que era impensável.
Aí, numa das mais surpreendentes guinadas da estória da moda, ela é convidada para ser consultora especial do Instituto de Moda do Metropolitan Museum of Art, de Nova York. Além de organizar exposições, ela inventou os bailes (origem do MET GALA) com a participação de todo mundo que importava na época, transformando-os, anualmente, no evento de moda mais importante do cenário da moda americana. E, principal de tudo: angariou milhões de dólares para o Instituto.
Nem tudo era perfeito. Críticos a acusavam de excesso de ‘liberdade criativa’ com alguns temas, sem se preocupar com a fidelidade dos fatos. Uma peruca de Maria Antonieta ganhava um metro de altura a mais do que seria o original. Tudo para garantir efeitos dramáticos e causar emoções nos visitantes. Foi a primeira a organizar a exposição sobre a obra de um estilista vivo, no caso, Yves Saint Laurent.

Diana Vreeland – Apartamento Nova York @ Arquivo Diana Vreeland

Até 1984, ela organizou 14 exposições. Nesse mesmo ano, escreveu uma autobiografia chamada DV. Dois anos depois, Diana sofreu um ataque cardíaco e morreu no Lenox Hill Hospital, em Manhattan. Ela tinha 86 anos.
Plus: O documentário ‘Diana Vreeland’ está no catálogo do Netflix. Apesar da falta de crédito de cada um dos entrevistados e a falta de uma melhor edição, vale a pena ser conhecido.

Jorge Marcelo Oliveira @ Selfie

Artigo assinado por Jorge Marcelo Oliveira