Monobloco, uma cadeira para o mundo

Foi inaugurada no Vitra Schaudepot, em 16 de março, a exposição “Monobloc: A chair for the world”. Acreditem ou não, a cadeira de plástico branco, que hoje é sinônimo de mobiliário barato, improvisado e temporário, já teve seus dias de glória.

Na ocasião da inauguração, foi realizada uma palestra com Jens Thiel, economista de formação e, atualmente, diretor em uma empresa alemã de inovação e “aceleradora de produtos” (consultoria para o desenvolvimento e lançamento de novas ideias, como por exemplo, a Fluxbag).

Na palestra “Monobloc: Short Anatomy of a Universal Chair”, Thiel apresentou parte de sua monografia a respeito da onipresente cadeira de plástico (sim, ele idolatra essa peça controversa e é considerado um especialista no assunto). O nome “monobloco” foi designado em referência ao modo de fabricação da cadeira composto por um único passo: moldagem por injeção.

Sua origem, segundo a pesquisa apresentada, foi na cidade de Nurieux (França) em uma pequena empresa chamada Stamp, sob o comando do engenheiro Henry Massonnet, também reconhecido pelo banco Tam Tam (1968). Foi uma época de descobertas das novas possibilidades trazidas pelo plástico, explorando novas formas e cores, a leveza, resistência às intempéries e o baixo custo de produção. O banco tornou-se, à época, um objeto cultuado após uma foto da residência de Brigitte Bardot na revista “Paris Match”, na qual a atriz aparece sentada em um deles. Foram vendidas mais de 12 milhões de peças, vários modelos inspirados no desenho básico foram criados. Até hoje, permanece no catálogo da empresa, em novas cores e materiais.

Foto @ Site Zendart Design

A primeira monobloco da Stamp, a Fauteuil 300, com design de Massonnet, foi lançada em 1972, durante a crise petrolífera, fator que não impediu a contínua pesquisa de desenvolvimento de mobiliário em plástico e a eficiência do processo. As vantagens resultantes: baixo custo de produção e sua fabricação em apenas 2 minutos. Assim, tornou-se uma peça largamente produzida e acessível. Restaurantes, bares, hotéis, centros de convenções, na praia e nas residências, em todo o mundo, para todos os públicos e para os mais diferentes usos, sem dúvidas, uma peça universal, hoje vista também como símbolo (negativo) da produção e do consumismo em massa.

Foto @ Ana Paula Barros (2017)

A partir daí a Stamp passou a desenvolver diversas linhas, buscando, de alguma forma, agregar design ao mobiliário de plástico. Massonnet convidou Pierre Paulin para desenvolver alguns projetos. Pela amizade, ele aceitou. Mas pediu para não vincular sua assinatura no mobiliário. Sua carreira estava consolidada e ele não gostaria de comprometer isso. Dessa parceria, destaca-se a linha “Boston”, uma homenagem a Mondrian.

Foto @ Centre Pompidou

A cadeira branca ficou saturada. Com o passar do tempo, novos fabricantes passaram a desenvolvê-la. O processo é simples e, visando maiores lucros, o material sofreu transformações, a qualidade não era uma constante. Por isso tornou-se sinônimo de peça barata e descartável. Caiu em desgosto. Até hoje ainda é comercializada e, reparem, não importa onde você esteja, sempre tem uma cadeira branca por perto.

A palestra de Thiel seguiu demonstrando a importância da monobloco para a indústria do design e as peças que foram desenvolvidas utilizando o plástico, os novos materiais que surgiram e também as novas técnicas de produção.

Para finalizar, apresentou uma série de fotografias da monobloco, registradas por ele e retiradas de pesquisas na Internet, mostrando como as pessoas se apropriam da peça (usando como guarda-chuva ou em brigas entre torcedores de futebol), como as pessoas a reutilizam (em gambiarras, substituindo um banco de carro quebrado), como peças de design inspiradas pela monobloco (cadeira “Café” dos Irmãos Campana) e como crítica em obras de arte (“Let’s Eat Outdoors Today” de Damien Hirst, uma escultura controversa e para estômagos fortes), para citar alguns exemplos.

A exposição, que pode ser conferida até 9 de julho, é composta por 20 peças emblemáticas, fotografias e textos, trazendo informações técnicas e os diferentes contextos nos quais a cadeira está presente, curiosamente, considerada valiosa em alguns países na África. Dentre as cadeiras icônicas e destaques, estão a Panton Chair de Verner Panton, a cadeira Selene de Vico Magistretti, a própria Fauteuil 300 (a primeira cadeira branca) de Henry Massonnet e uma peça criada especialmente para a exposição pelo designer italiano Martino Gamper, denominada “Monothrone”.

Curiosidade: Em 2005, a utilização das cadeiras brancas, em vias públicas (em cafés e restaurantes), foi proibida na Basiléia. O motivo? Elas são muito feias e poluíam visualmente a cidade por sua falta de estética. Porém, em fevereiro desse ano, a proibição foi revertida, apesar das críticas, especialmente de partidos que têm a proteção do meio ambiente como pauta. E isso rendeu assunto por aqui!