Sem mocinhos ou vilões, minissérie ‘A Very English Scandal’ surpreende

Jeremy Thorpe foi um político britânico que teve sua vida e sua carreira modificada pelo envolvimento com um jovem escocês chamado Norman Josiffé ‘Scott’, com quem teve um caso no início dos anos 60. Em 1979, Jeremy foi acusado de tentar matá-lo para mantê-lo calado e se tornou o primeiro político do país a ser julgado em um caso dessa natureza.
Quando o caso dos dois vem à tona, Thorpe, então líder do Partido Liberal, estava disposto a fazer de tudo para esconder a situação – a homossexualidade deixou de ser um crime no Reino Unido e 1967, porém, porém, salvo um amigo, ele jamais assumiu sua orientação sexual.
Com direção de Stephen Frears (‘Ligações Perigosas’, ‘A Rainha’ e ‘Victoria e Abdul), A Very English Scandal é uma minissérie (agora chamada de Série Limitada) em três episódios lançada pela BBC, com Hugh Grant (Jeremy Thorpe) e Ben Whishaw (Norman Scott). O roteiro é de Russell T. Davies, a partir do livro publicado por John Preston em 2016.

História real

Num passeio à casa de campo de um amigo, o político Jeremy Thorpe conhece o jovem cavalariço Norman Josiffe, por quem se apaixona, porém, nada acontece. Um ano depois, o rapaz vai procura-lo em Londres. Revela que remédios para ‘um problema psicológico’, que está sem dinheiro e não tem onde morar. É levado para a casa da mãe de Jeremy.
Na primeira noite, Jeremy entra no quarto do rapaz com um pote de vaselina na mão… Iniciam um romance. Em seguida, Jeremy aluga um quarto de um hotel fuleiro, onde iniciam um relacionamento ‘secreto’.
O ócio (o garoto não tem o que fazer), o tédio (o político não deixou de paquerar outros rapazes) e tempo esfriam o relacionamento. Em seguida, Norman vai à polícia para denunciar o ex amante por supostamente ser ‘prisioneiro’ e o culpa pela homossexualidade. O caso, porém, é arquivado.
Um tempo depois, morando em Dublin, na Irlanda, Norman envia uma carta a mãe de Jeremy contando sobre o relacionamento. Nesse momento, o político pede ajuda a um amigo para ‘dar uma dura’ no rapaz. O rapaz, porém, não é tão parvo como eles imaginavam. Quer um cartão de seguro desemprego. Caso ele não aceite, o rapaz irá tornar público 25 cartas de amor.
Jeremy consegue essas cartas e o caso parece encerrado. Porém, por alguns lances do destino, eles voltam a se encontrar. Desesperado, Jeremy resolve mandar tira-lo de sua vida de uma vez.
Em 1975, em uma tentativa de assassinar o cavalariço, o ex-piloto de avião Andrew Newton acabou errando o tiro, que atingiu o Dog Alemão de Scott, Rinka. A partir disso, Norman começa a gritar aos quatro cantos que foi uma tentativa de assassinato.
O caso vai para o tribunal, se tornando um grande escândalo. O resultado, porém, é surpreendente. Apesar da projeção que o caso ganhou na corte e na imprensa britânicas, ele é considerado um dos mais mal explicados da história do Reino Unido.

Comentários

a very english scandal (2018) @ bbc

Stephen Frears está em casa, dirigindo a trama com Fairplay, transitando entre a farsa e a ironia para contar a estória de dois jogadores. A trilha sonora e o roteiro também ajudam na excelente construção dramática.
Frears é especialista no jogo de cena. Aquele tipo de estória sem mocinhos e vilões, pois ambos se confundem. Seus personagens agem de acordo com códigos muito particulares de ética. Vide seus melhores momentos em ‘Ligações Perigosas’, ‘Os Imorais’ e ‘Herói Por Acidente’. Mesmo quando não existem mocinhos ou vilões, como em ‘A Rainha’ e ‘Florence: Quem é Essa Mulher’, seus personagens sempre têm algo a mais a oferecer.
Mesmo que surja uma simpatia maior pelo rapaz – principalmente no conceito de Davi contra Golias – e por quase ser vítima de um assassinato, ele não é exatamente um mocinho. Ou seja, o roteiro não tem maniqueísmo. Torcer pelo gay assumido e odiar o gay enrustido pode ser uma faca de dois gumes.
Hugh Grant surpreende num papel que, de uma certa forma, lembra seu personagem Clive Dunhan, do clássico gay ‘Maurice’, de 1987. Porém, o tempo melhorou suas qualidades como ator. Bom momento cabe também ao inglês Ben Whishaw, que constrói com muito talento um personagem ambíguo, no qual, não se sabe exatamente quais são suas intenções.
A Very English Scandal’ concorre a três Globo de Ouro 2019: Série Limitada, Ator em Série Limitada (Grant) e Ator Coadjuvante (Whishaw). A cerimonia acontecerá domingo, 06 de janeiro, em Los Angeles.

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