O ‘Vale Tudo’ do novo milênio

A segunda reprise de Vale Tudo no Canal Viva terminará no sábado, 09 de fevereiro. Com ótimos índices de audiência para o horário 0h30, a novela concorre com ‘Roque Santeiro’ como a Melhor Novela da história da TV brasileira.
Escrita entre 1988 e 1989, a trama continua atual e oportuna com seus questionamentos sobre honestidade, corrupção e oportunismo, com a clássica pergunta: ‘Vale a Pena ser honesto no Brasil’?
Hoje, a pergunta poderia ser: ’31 anos depois de Vale Tudo, quem levantaria a mão afirmando ser 100% honesto no Brasil?’
• Falsificar carteira de escola para pagar meia no cinema/teatro/show;
• Transitar pelo acostamento nas estradas;
• Não devolver troco errado;
• Furar fila de entrada para espetáculos;
• Parar o carro em vaga para idoso ou deficiente;
• Encostar e dar farol alto para carros que seguindo no correto limite da velocidade;
• Botar fitinha do Senhor do Bonfim sobre a placa da moto;
• Abrir embalagem de biscoito ou bala antes de passar no caixa;
• Cobrar mais caro por um produto de ‘acordo com a cara do cliente’;
• Formar fila dupla para pegar os filhos na escola…
Qual é o seu delito preferido? Ou são vários?

Regina Duarte e Gloria Pires em Vale Tudo (1988) @ Reprodução

Esses exemplos estão tão arraigados no dia-a-dia do brasileiro que tem muita gente que acredita que é ‘pequeno’, ‘inofensivo’, ‘algo menor’…
Nem vou entrar no mérito daqueles que ficam ‘Virados na Jiraya’ quando comentam sobre os casos de corrupção nos governo federal, estadual e municipal, mas já tentaram subornar policial rodoviário, pagaram um ‘caixinha’ para conseguir vaga na disputada escola para o filho, desviaram caixa dois para não pagar imposto…
Pois é, meus caros, ‘Vale Tudo’ foi uma novela que mostrou que o Brasil é um país de pessoas com ética altamente questionável.
Seja na pele da vilã, Odete Roitman, que vertia prepotência e arrogância, que munida com a ideia de ‘quero o melhor para meus filhos’ usou e abusou da falta de escrúpulos para tais fins.
Ou da arrivista Maria de Fátima, que no desejo de ‘quero arrumar marido rico’, pisou e sambou na cara do movimento feminista com um pensamento machista e antiquado de enriquecimento feminino sem muito esforço.
E o que dizer do cínico e corrupto Marco Aurélio, que era especializado em ‘desviar uma verba’ da empresa que trabalhava e que termina a novela dando uma banana aos trouxas que ficaram no Brasil, enquanto fugiu no avião particular ao lado da esposa assassina. Foi o final mais realístico de uma obra de ficção feita no Brasil.
Ainda sobre corrupção, o que mudou no Brasil desde então?

Gloria Pires e Cassio Gabus Mendes em Vale Tudo (1988) @ Reprodução

Crônica de Uma Época

Atuações memoráveis das atrizes Gloria Pires, Beatriz Segall (único papel de destaque em TV da carreira da atriz), Renata Sorrah, Natália Timberg, Cássia Kiss e Lilia Cabral. Reginaldo Faria também garantiu seu melhor momento, dando um show de cinismo e amoralidade.
Quanto ao casal de protagonista… Antônio Fagundes fez o que pode para um papel mediano – ele teria excelentes chances anos depois. Mas pior mesmo foi Regina Duarte. Ela optou pelo overacting. Exagerada do começo ao fim, ela garantiu uma chatice absurda a uma personagem que poderia ser ótima na defesa da ética e honestidade. Nesse campo, num papel menor, Lídia Brondi, no auge da fofice, mostrava-se mais natural na defesa do mesmo ideal. Curiosidade: na época, Glorinha e Lídia competiam pelos mesmos papéis. Outra semelhança era a renovar no estilo de atuação mais naturalista que ambas imprimiam em cada personagem, mostrando-se modernas e antenadas com o que viria a seguir.
Mas o grande mérito de ‘Vale Tudo’ é o excelente texto de Gilberto Braga, com auxilio de Aguinaldo Silva e Leonor Basseres.
Com trânsito pela sociedade carioca, Gilberto Braga era uma espécie de cronista social dos colunáveis. Seus personagens frequentavam festas de Ricardo Amaral, eram amigos de Danuza Leão, eram citados na coluna do Ibrahim Sued, etc. Sem esquecer as cidades preferidas de Odete Roitman e de Maria de Fátima Acioly quando se referiam aos locais que frequentavam na Europa.
Na época, não existia revista de celebridade. No máximo, a Vogue, que cumpria o papel de espaço para cobertura social, mantendo-se fiel ao seu início no final do século XIX. A publicação ainda mantém as páginas de cobertura social, que foram copiadas por todas as publicações posteriores.
Não havia emergente. Essa palavra ganhou força na ascensão ao poder de Fernando Collor em 1990 – responsável também pela explosão da música sertaneja. Quem saia em coluna social era rico.
Celebridade, no máximo aparecia na Revista Manchete. Porém, dividiam espaço com matérias ‘nobres’’. A Revista Caras surgiria quatro anos depois.
Ou seja, em 1988, existia um fascínio saber como era a vida dos ricos. Sabendo disso, Gilberto Braga se especializou nesse tipo de personagem, criando grandes personagens. Nenhum autor soube fazer isso tão bem.
Na época, todo mundo assistia novelas. Era comum ouvir as justificativas dos ricos: que viam alguma coisa quando passavam pelo quartinho da empregada. Mentira. Rico assistia novela, sim!
Em dezembro de 1989 o Governo introduziu oficialmente a TV a cabo no País. Com mais de 100 canais como opção, público mudou. As novelas foram se adequando ao que sobrou de público na TV aberta.
Perdeu-se a sofisticação. Ricos cederam espaço para uma nova classe média que surgia, no qual o conceito de Mostrar era mais importante do que Ser ou Ter. Favelas começaram a se tornar cenários de tramas, mostrando novas realidades, incluindo a violência urbana.
Com a mudança do público, as novelas foram se transformando.

Moralidade questionável

Gilberto Braga sentiu isso quando fez ‘Babilônia’, em 2015. Com um texto rico, atual e sofisticado sobre a vida de três mulheres de diferentes origens, a novela foi um retumbante fracasso.
Prometendo um grande personagem, Glória Pires surgia como a rica, sofisticada e livre Beatriz. Dona do seu corpo e do seu desejo, fazia sexo com quem bem quisesse. Fernanda Montenegro surgia casada com Natália Timberg e, logo no primeiro capítulo, o casal deu um lindo beijo na boca que foi demais para a classe média de plantão.

Resultado: a novela foi bombardeada a ponto do autor ser obrigado a mudar a estória. Pior foi o que houve com a personagem de Glória, que perdeu sua essência, transformando-se numa vilã sem graça. Se não fosse o calibre das duas atrizes veteranas, corria-se o risco das personagens sumirem na trama, tamanha a modificação que passaram. Nunca mais foi visto qualquer afeto entre ambas. Com a mudança, elas poderiam ser confundidas com duas ‘amigas’ que dividiam o mesmo teto.
Gilberto foi muito criticado na época, inclusive por esse jornalista aqui. Porém, reconheço que as críticas foram injustas.
Ele acreditava que o público da TV aberta do Brasil de 2015 aceitaria assuntos mais adultos. Porém, errou de foco: o público que ele pensou foi aquele que deixou de ver novela para assistir maratonas das séries como ‘Sex And The City’, que durante seis temporadas (1998-2014), mostrou um ABC de assuntos da sexualidade feminina com uma liberdade que jamais veremos ir ao ar às 21h na maior emissora de TV aberta do Brasil.
Por aqui é assim: brasileiro é antiético e desonesto, mas é limpinho (urgh)!

(Artigo escrito por Jorge Marcelo Oliveira)

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