50 anos do Dia Internacional do Orgulho LGTBQ+

Na noite de 28 de junho de 1969, uma rotineira batida policial num bar na Christopher Street, no bairro nova-iorquino de Greenwich Village mudou o rumo da história da população LGBTQ+ do mundo. À época do acontecimento, a homossexualidade era considerada crime em quase todos os estados norte-americanos, com exceção do estado de Illinois. A polícia costumava dar “batidas” em lugares frequentados pelo público gay, lésbico e trans.
Mas há 50 anos, os policiais não encontraram a passividade costumeira. Ao levar para o camburão algumas drag queens e travestis que estavam no bar, chamado The Stonewall In, os policiais foram surpreendidos com reações.
As futuras prisioneiras faziam caretas e deboches. Reagindo à provocação, os policiais aumentaram o grau de violência na coerção. A multidão que acompanhava o “Salve Geral” também reagiu e começou a jogar moedas nos policiais. Era uma forma de dizer que eles ‘não valiam um níquel’.

Stonewall Inn 1969 @ Reprodução

O espírito do levante estava posto, sem maiores explicações, e encontrou caminho fácil para vir à luz. Depois das moedas, garrafas e pedras passaram a ser arremessadas contra os policiais. E clientes e funcionários de bares vizinhos juntaram-se aos que já estavam no entorno de Stonewall.
A viatura da polícia foi virada de cabeça para baixo. Nesse momento, seis policiais correram para o interior do bar para se esconder do número de revoltados que só aumentava. A partir deste instante, os relatos são muitos.
O fato inegável é que a Batalha de Stonewall, como ficou conhecido o episódio, durou três dias, com reforço de ambos os lados. No segundo dia, ganharam apoio dos vizinhos, do Panteras Negras e de outros movimentos.

“Demos uma resposta clara, um troco. Stonewall era um bar frequentado por gays, trans e lésbicas pobres. Não eram apenas brancos de classe média. Eram negros, latinos que se rebelaram contra a violência policial recorrente”, defende o cineasta René Guerra, diretor dos filmes ‘Os Sapatos de Aristeu e Vaca Profana’, que aborda a temática trans.

Stonewall Inn 1969 @ Reprodução

“Foi no corpo a corpo, no pedra a pedra, que Marsha (P. Johnson), e suas companheiras e companheiros conseguiram inaugurar amplamente algo muito maior que um movimento, a visibilizarão de um modo de existência”, completa a jornalista e professora universitária Fabiana Moraes, citando a ativista negra e drag queen Marsha P. Johnson, uma das protagonistas da Batalha, que anos depois teve uma morte não explicada.

Já o roteirista e publicitário Tony Góes atenta para o ineditismo da reação da população. “Sempre vai ter quem diga que já havia ativismo gay antes do Levante de Stonewall. É verdade: na Europa e nos Estados Unidos existiam associações e revistas voltadas aos homossexuais desde, pelo menos, a década de 1940. Mas era tudo muito secreto, e quase sem nenhuma repercussão fora de um círculo muito pequeno. Stonewall mudou tudo isso. Foram três dias de revolta, com farta cobertura da imprensa e adesão de simpatizantes não-LGBT. Por isto o levante é considerado o marco zero da história da luta pelos direitos igualitários”.

Stonewall Inn 1969 @ Reprodução

O Levante de Stonewall causou uma nova percepção identitária na população LGBT (na época, a palavra Gay englobava todos) dos Estados Unidos e depois de outros países. No ano seguinte, mais duas mil pessoas foram às ruas no dia 28 de junho em Nova York para celebrar o primeiro aniversário do episódio. Plantando a semente das Paradas do Orgulho LGBT que hoje acontecem em quase todos os países.

“A partir dos eventos de Stonewall, a população homossexual começou a entender que era uma guerra, que tinha um exército e poderia lutar. Foi quando os LGBT saíram da condição de invisibilidade para dizer que eram também uma força política”, analisa Chico Fireman, jornalista e crítico de cinema. “Quando aqueles pioneiros foram para a rua, eles inspiraram gente mundo afora e gerações além, e pela primeira vez foram exigir respeito. Do lodo da intolerância brotou uma flor”.

Confira o excelente documentário ‘A Revolta de Stonewall’:

Assista ao filme Stonewall (2015)