Lizzie Siddal foi uma Supermodelo da Era Pré-Rafaelita

Conhecida como Lizzie, Elizabeth Eleanor Siddal nasceu em 25 de julho de 1829 em Hatton Garden, bairro londrino de Camden, próximo à fronteira com Londres. Mistura de ingleses e galeses, era esguia, magra e com longos cabelos ruivos. Quando tinha dois anos, seus pais – ele tinha uma Cutelaria – se mudaram para o bairro de Southwark, no sul de Londres, onde tiveram mais cinco filhos, Lydia, Mary, Clara, James e Henry.
Desde muito cedo se apaixonou pela poesia depois de descobrir Alfred Tennyson. Começou a escrever seus próprios.
Aos 20 anos, Lizzie trabalhava numa chapelaria em Leicester Square quando conheceu o pintor Walter Deverell, um dos nomes da Irmandade Pré-Rafaelita, fundada em 1848 por Dante Gabriel Rossetti, Holman Hunt e John Everett Millais, estudantes da Academia Real Inglesa.
Com o consentimento da mãe, Lizzie aceitou ser modelo por meio período do dia. Seu primeiro trabalho foi uma representação de Viola para a tela Noite de Reis/Twelfth Night, inspirada na peça de Willian Shakespeare feita por Deverell.

Walter Deverell – Noite de Reis – 1850 @ reprodução

Em seguida, Holman Hunt a retratou em 1850 em Uma Família Britânica Convertida Protege um Missionário Cristão da Perseguição aos Druídas, posteriormente como Sylvia em outra representação de uma peça de Shakespeare, Os Dois Cavalheiros de Verona. E para Dante Rossetti em Rosso Vestida (Dress in Red), a primeira da centena de obras feita por ambos.

Dante Gabriel Rossetti – Rosso Vestita – 1850 @ Google_Art_Project_1

Apesar de esguia, magra e de cabelos avermelhados, seu estilo fugia dos padrões da época, pois a magreza não era considerada atraente. Os cabelos ruivos chegaram a ser descritos por uma jornalista da época como “suicídio social”.
Mesmo assim, dois anos depois de começar a trabalhar no estúdio, Lizzie conseguia ganhar o suficiente para largar o emprego na chapelaria.
O auge de sua fama aconteceu quando seu rosto foi retratado em Ophelia (1851-1852) de Sir John Everett Millais.

Sir John Everett Millais – Ophelia – 1851-1852 @ Google Art Project_1

Para essa obra, Lizzie flutuava em uma banheira cheia de água para representar Ophelia se afogando. Millais pintava diariamente no inverno pondo lâmpadas à óleo na banheira para aquecer a água. Em uma das ocasiões as lâmpadas se apagaram e a água gelou. Millais, absorvido em sua pintura não notou o acidente e Siddall não se queixou. Depois disto ela pegou uma forte gripe. Seu pai acusou Millais como responsável e, sob a ameaça de ações legais, ele pagou o tratamento médico.

Mudança de papéis

Envolvida emocionalmente, em 1852, Lizzie começou a estudar com Rossetti. Sua primeira obra foi um autorretrato, que difere da beleza idealizada retratada pelos Pré-Rafaelitas.

Elizabeth Siddal – Self-Portrait – 1853 @ reprodução

Em 1855, o crítico de arte John Ruskin começou a subsidiar sua carreira e pagou 150 libras por ano em troca de suas obras. Ela produziu muitos esboços, desenhos, aquarelas e também uma pintura à óleo.
Também voltou a escrever poesia. Seus temas eram melancólicos como amores perdidos ou impossibilidade de um amor verdadeiro.

Elizabeth Siddal – Lady Clare Elizabeth Siddall, Lady Clare, 1857 @ reprodução

Em 1857, foi a única mulher a expor na mostra Pré-Rafaelita em Londres. Um de seus trabalhos, Clerk Saunders (1857), foi adquirido por um colecionador americano influente, Charles Eliot Norton.

Lizzie Siddal – Clerk Saunders – 1857 @ Reprodução

Casamento – Depressão – Traição

Depois de 10 anos de relacionamento, Lizzie e Rossetti se casaram em 23 de Maio de 1860, na St. Clement’s Church na cidade litoral de Hastings. Não havia ninguém da família ou amigos presente, apenas duas testemunhas achadas de última hora.
Rossetti tinha vergonha das origens trabalhadora da família de Lizzie e se recusava a apresenta-la aos pais que não aceitariam a união.
Depois do casamento, resolveram se isolar de todos. Porém, ela desconfiava da fidelidade do marido, pois tinha certeza que ele estava procurando uma mulher mais jovem para ser sua nova musa. Isso, aliado ao vício em Laudano – medicamento sedativo à base de vinho branco, açafrão, cravo, canela e ópio, ajudou-a a entrar em depressão.
Nessa época, ela descobriu que estava grávida. Em sua homenagem, Rossetti a pintou Regina Cordium (1860).

Dante Gabriel Rossetti – Regina Cordium – 1860 @ Reprodução

Meses depois, ela entrou em trabalho de parto — a bebê, contudo, nasceria morta. A depressão foi mais profunda, piorada com novas desconfianças de infidelidade.
Na noite de 10 de fevereiro de 1862, o casal saiu para jantar com o poeta Algernon Charles Swinburne. Quando voltaram, Rossetti saiu para dar aula na Working Men’s College, um centro para a educação de adultos.
Antes de sair, viu Lizzie deitar e tomar sua dose costumeira de láudano. Ao retornar, deparou-se com o frasco vazio e um bilhete. Sem conseguir acordar a esposa, gritou para a proprietária do imóvel pedindo que chamasse um médico o mais rápido possível. Quatro médicos tentaram reanimá-la, sem sucesso. Lizzie Rossetti morreu nas primeiras horas do dia 11 de fevereiro de 1862. Ela estava grávida novamente.

Dante Gabriel Rossetti – Beata Beatrix – 1864-70 @ Reprodução

Pós morte

Aconselhado pelo amigo Ford Madox Brown, Rossetti queimou a carta de suicídio da esposa. Ela não poderia ter um enterro cristão se fosse considerada suicida.
Rossetti colocou no caixão as únicas cópias dos poemas que ela escrevera. Sete anos depois, mudou de ideia e decidiu recuperá-los.
Secretamente, em uma noite de outono de 1869, o caixão de Lizzie Siddal foi desenterrado do cemitério de Highgate, em Londres. Rossetti, a essa altura considerado “louco” por alguns de seus conhecidos, não estava presente. A operação foi planejada por seu agente, Charles Augustus Howell.
Se não bastasse o crime, ele contou a Rossetti que o corpo da esposa estava perfeitamente preservado.

“Ela não era um esqueleto. Continuava tão linda quanto havia sido em vida. O cabelo havia crescido e inundava o caixão com um brilho acobreado que reluzia como o fogo”.

Com esse relato surgiu o mito de que a beleza da modelo havia permanecido intocada mesmo após sua morte. Na realidade, isso contribuiu para algumas pessoas questionarem se ela não foi enterrada viva.

Legado

Rosalie e Geoffrey Mander compraram as obras de Lizzie Siddal em 1960 e doaram ao National Trust – Fundo Nacional para Locais de Interesse Histórico ou Beleza Natural, que sediou a exposição “Beyond Ophelia” composta por 12 obras escolhidas pela curadora Hannah Squire.

Foi apenas a segunda exibição solo de seu trabalho (a primeira foi realizada na Ruskin Gallery, Sheffield em 1991).

O relacionamento entre Rossetti e Lizzie ganhou um telefilme chamado ‘O Inferno de Dante’, de 1967, dirigido por Ken Russell, estrelado por Judith Paris e Oliver Reed. Em 1975, Patricia Quinn viveu a Lizzi em ‘The Love School.
‘Desperate Romantics’ foi uma mini-série feitas em seis partes da BBC em 2009 sobre a Irmandade Rafaelita com o ator Aidan Turner (o eterno John Mitchell da série ‘Being Human’) como Rossetti e Amy Manson como Lizzie.
A vida de Lizzie também foi tema de quatro livros, um conto, uma novela, um álbum da banda The Goblin Market, uma peça teatral (2013), uma novela Gótica de Joanne Harris (Sleep, Pale Sister), entre outros.

(Artigo assinado por Jorge Marcelo Oliveira – Fonte de pesquisa: BBB Cultura e Wikipedia)

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