Os (incríveis) tipos de vozes do canto lírico

O canto lírico é conhecido pelos cantores de óperas e cantos sacros. Ele privilegia um trato vocal (espaço compreendido entre as pregas vocais e os lábios) mais alongado e utiliza tessituras (disposição das notas para se acomodarem a uma determinada voz ou a um dado instrumento) mais agudas.
É o tipo de canto que precisa de grande potência vocal; a voz deve alcançar toda a plateia e sem usar microfone. Mesmo que ele esteja ao lado de uma orquestra sinfônica ou filarmônica.
Dentro do canto lírico, as classificações das vozes são dividas em: tenor, barítono e baixo (masculinas), soprano, mezzo e contralto (femininas).

Essas diferenças podem variar por intensidade, amplitude vocal, timbre, volume e algumas notas.

No gênero masculino, tenor, barítono e baixo, sendo tenor a voz mais aguda e baixo a mais grave, e para as mulheres as classificações vocais são: soprano, mezzo e contralto e ainda existem as subdivisões ou extensões.
Para estudar o canto lírico e ser um cantor deve-se entender, primeiramente, que é necessário ter potência na voz e que ela será muito mais exigida do que para um cantor popular. Encontrar um local especializado e com bons professores é fundamental, caso seja trabalhada de maneira incorreta, a voz pode ser prejudicada. Uma vez que o canto lírico exige longo treinamento, domínio da projeção vocal e qualidade rica em harmônicos.
Compreender onde se encaixa a sua classificação vocal, também é essencial, pois existem intenções musicais que são criadas para um tipo específico de voz e isso deve ser respeitado.

Vozes masculinas

Tenor ligeiro – Voz brilhante, que emite notas agudas com facilidade, ou nas óperas de Mozart e de Rossini, por exemplo, voz ligeira e suave. Exemplo: Almaviva, de ‘O barbeiro de Servilha’, de Rossini e Tamino, em Die Zauberflöte/A Flauta Mágica, de Mozart.

Tenor lírico – Tipo de voz bem próxima da anterior, mais luminosa nos agudos e ainda mais cheia no registro médios e mais timbrada. Exemplo na ária ‘Vesti la Giubba’ da Ópera ‘Pagliacci’ de Rugerro Leoncavallo, composta em 1892

Tenor dramático – Com relação à anterior, mais luminosa e ainda mais cheia no registro médio. Exemplo: Tannhäuser, protagonista da ópera homônima de Wagner.

Barítono “Martin”, ou Barítono francês – Voz clara e flexível, próxima da voz de tenor. Exemplo: Pelléas, na ópera Pelléas et Mélisande, de Debussy.

Barítono verdiano – Exemplo: o protagonista da ópera ‘Rigolleto’, de Verdi.
Baixo-barítono – Mais à vontade nos graves e capaz de efeitos dramáticos. Exemplo: Wotan, em ‘Die Walküre/A Valquíria’, de Wagner.

Baixo cantante – Voz próxima à do barítono, mais naturalmente lírica do que dramática. Exemplo: Boris Godunov, protagonista da ópera de mesmo nome, de Mussorgski, composta entre 1868 e 1873.

Contratenor – Voz masculina muito aguda, que iguala ou mesmo ultrapassa em extensão a de um contralto (Voz Grave Feminina). Muito apreciada antes de 1800, esta é a voz dos principais personagens da ópera antiga francesa (Lully, Campra, Rameau), de uma parte das óperas italianas, do contralto das cantatas de Bach, etc. Exemplo da ária de Leader of the Argonauts da Ópera Giasone de Francesco Cavalli, composta em 1649. 

Baixo profundo – Voz de grande extensão a amplitude no registro grave. Exemplo: Sarastro em ‘A Flauta mágica’ de Mozart.

Vozes femininas

O Soprano de caráter absoluto (português brasileiro) é o tipo que possui grande extensão e facilidade de interpretação de todo repertório para soprano e alguns papéis de mezzosoprano. Exemplo mais famoso era Maria Callas, que cantava desde o repertório de soprano leggero até os papéis para mezzosoprano e para contralto.
Geralmente, sopranos que se arriscam nessa categoria são sopranos líricos e lírico-spintos maduros, com anos de experiência em palco.
Callas tinha um timbre descomunal e muito amplo, mesmo desde o início de sua carreira, que permitia-a mudar a cor do timbre em diversas nuances que a interpretação pedia, além de sua incrível extensão. A extensão usual de um soprano absoluto é de, aproximadamente, três oitavas do G3-E6.

Soprano coloratura ou soprano ligeiro – o termo coloratura significava, na origem, “virtuosismo” e se aplicava a todas as vozes. Hoje, aplica-se a um tipo de soprano dotado de grande extensão no registro agudo, capazes de efeitos velozes e brilhantes. Exemplo: a personagem Rainha da Noite, na famosa ária ‘Der Hölle Rache kocht in meinem Herzen’ (A vingança do inferno ferve no meu coração) da Ópera ‘A Flauta mágica’, de Mozart, composta em 1791.

As exigências dramáticas do contexto acrescentam dificuldade à interpretação, tornando o papel acessível somente a vozes extremamente qualificadas.

Soprano lírico – Voz brilhante e extensa. Exemplo: Marguerite, na ópera Fausto, de Gounod.

Soprano dramático – É a voz feminina que, além de sua extensão de soprano, pode emitir graves sonoras e sombrias. Exemplo: Isolde, em ‘Tristão e Isolda’, de Wagner.

Soprano Spinto – É o tipo de voz lírica caracterizada pela capacidade de se fazer spinto (do italiano spingere, “empurrar”). Possui cor e peso vocais para cantar passagens dramáticas sem desgaste, não obstante não tenha as características típicas da soprano dramático, e é associada normalmente ao tenor lírico-spinto. O termo define, essencialmente, a soprano lírica que canta com mais potência nos clímaces dramáticos.

Mezzo-soprano – Voz intermediária entre o soprano e o contralto. Ela pode ser lírica e dramática. Lírica: são as mezzos de vocal mais brilhante e agudo, chegando mesmo a ocupar os papéis de sopranos em alguns casos. Também interpretam meninos e homens jovens, normalmente com indumentária condizente. Mezzos líricas têm vozes flexíveis e um grande alcance vocal.

Dramática: mezzos com vozes amplas e de coloração semelhante à da soprano dramática. Normalmente interpretam mulheres maduras e/ou sedutoras ou vilãs. Embora raramente apareçam em óperas barrocas ou clássicas, as vozes mezzos dramáticas ganharam larga aplicação a partir do século XIX. A famosa ária ‘Habanera’ da Ópera Carmen, de Bizet, é exige esse tipo de voz.

Contralto – Muitas vezes abreviada para alto, a voz de contralto prolonga o registro médio em direção ao grave, graças ao registro “de peito”. Exemplo: Ortrude, na ópera Lohengrin, de Wagner.

Os Castrati

Um castrato é um voz semelhante a de uma soprano, de uma mezzo-soprano ou de uma contralto, embora seja produzida por um homem. Esse tipo era produzido pela castração dos cantores antes que chegassem à puberdade, de forma que a ação hormonal acabasse reduzida — embora, em alguns casos, problemas endocrinológicos naturalmente limitassem a maturação do cantor.
A castração de pré-adolescentes diminuiu grandemente ao final do século XVIII, tornando-se ilegal na Itália em 1870. Apenas uma única gravação de um castrato foi preservada até os dias de hoje. No vídeo abaixo, Alessandro Moreschi interpreta “Ave Maria”, em registro de 1902 — de forma que a qualidade sofrível deve ser relavada, é claro. Moreschi é considerado como o “Último dos castrati”.
Vale reforçar, entretanto, que a voz dos castrati se diferencia daquela obtida por vocais masculinos por meio da técnica conhecida como “falsete” — em que o tom produzido se encontra acima da região natural do cantor, sendo produzido por músculos da laringe. Um castrato era, efetivamente, um cantor cujas cordas vocais não amadureciam, de forma que o seu tom era naturalmente mais agudo.

O italiano Carlo Maria Michelangelo Nicola Broschi ficou conhecido como Farinelli, lendário Castrati, o mais popular e bem pago cantor de ópera da Europa do século XVIII. Em 1994, sua vida ganhou às telas no filme belga ‘Farinelli’, indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro. O ator Stefano Dionisi o interpretou, enquanto sua voz foi conseguida na mixagem das vozes da soprano Ewa Malas-Godlewska e do contratenor Derek Lee Ragin. Somente na canção ‘Lascia Ch’io Pianga, a voz é unicamente da soprano.

(Fonte: Teatro L’Occitane | Megacurioso)