Doce de batata da lata redonda não é Marron Glacê

No Império Romano, as castanhas eram cozidas e mergulhadas numa ânfora com mel. Entrou para história como o doce saboreado por Amarílis, personagem cantada nas Bucólicas, obra do poeta latino Virgílio, entre os séculos 42 e 39 a. C.
Uma releitura surgiu no final do século 16. Segundo a lenda, um desatento da corte que trabalhava para harles Emmanuel I, Duque de Savoy, cozinhou as castanhas numa calda, em vez de água, que iriam rechear um javali. Ganhou o nome de marrone candido, mas os Savoia julgavam mais elegante cita-lo em francês: Marron Glacê.

Marron Glacê da Kestane Sekeri @ Reprodução

Anos depois, o doce chegou nas mãos dos confeiteiros da corte de Luís XIV (1651-1715), que o adotaram. Em 1882, a receita foi aperfeiçoada em Privas, Ardèche, pequena região do sudeste do país, com fama de produzir as melhores castanhas. Nascia o crème de marrons de I’Ardèche.
A receita clássica utiliza selecionadas castanhas – as maiores e mais macias, quase 25% das existentes. Descascadas e envolvidas num tecido muito fino, são cozidas na água quente por um tempo determinado. Na sequência, são eliminadas as que não resistiram ao calor e quebraram. As restantes são colocadas numa grelha e recebem um banho de xarope de açúcar. Depois, ficam alguns instantes no forno.
Finalmente, os marron glacês são acondicionados individualmente em papel alumínio e colocados em embalagem de papelão ou vidro. Também podem estar presentes amassadas em calda, licor, rum ou cerveja.

Dinde Aux Marroms @ Divulgação

Existem também o creme de marrons (geleia com açúcar), o purê de castanhas (o mesmo produto, sem açúcar) e a conserva de castanhas em pedaços. No natal francês, as ceias mais elegantes oferecem a dinde aux marrons (peru com castanhas).

Origem do fruto

De origem asiática, a castanha foi levada para a Líbia e dali se alastrou pela bacia do Mediterrâneo. Hoje, encontra-se do norte da África à Dinamarca, dos Estados Unidos ao Brasil.
Sua árvore alcança de 20 a 30 metros de altura e passa a dar frutos aos 25 anos. No início, cada pé fornece de 15 a 20 quilos anuais de castanhas. Aos 50 anos, a produção sobe para 80 a 110 quilos. No sul da Itália, perto do Etna, existe uma castanheira com 400 anos de idade. Isso lhe confere o status árvore longeva.
O fruto se desenvolve no interior de uma carapaça espinhosa, conhecida como ouriço. Quando amadurece na época do outono, despenca dos galhos. Não pode ser comido cru. Só quando assado ou cozido revela suas deliciosas características.
São dois tipos: a castanha propriamente dita e o marrom. No primeiro, o ouriço acomoda dois ou três frutos. O marrom nasce solitário.

Marrom Glacê na latinha redonda @ reprodução

A castanha europeia contém elevado teor calórico. Rica em proteínas, vitaminas A, B e C, dotada de sais minerais, magnésio, enxofre e cloro, ajudou populações inteiras de camponeses franceses e italianos do passado a enfrentar a fome no inverno. A castanha-do-pará e a castanha de caju não pertencem ao mesmo gênero.
Apesar do sabor evocar algo do original, p doce de batata-doce vendido na lata retangular não é Marron Glacé. Ele é feito com batata-doce, xarope de glicose, espessante e acidulante.
Uma caixa do doce original de 300 g custa em média € 13,90 (em torno de R$ 90,00).
(Fonte de consulta: O Estado de S. Paulo)