Como Faye Dunaway chegou a ser considerada “a pior pessoa de Hollywood”

Na semana passada foi anunciada a participação de Faye Dunaway (80 anos) em ‘The Man Who Drew God (O Homem que Desenhou Deus)’, o filme que marca o retorno de Kevin Spacey às telas quatro anos depois de receber várias acusações por assédio sexual. O argumento é sobre um pintor cego, capaz de desenhar as pessoas de acordo com o som de sua voz, que é injustamente acusado de abusos sexuais a menores.
Após décadas de manchetes sobre seu temperamento, dessa vez se fala de Dunaway por um filme. Mesmo sendo polêmico. Porque, como ela disse uma vez:

“Sim, sou uma pessoa difícil, mas pelo menos assim vocês prestam atenção em mim”.

Faye Dunaway nasceu em Bascom, um bairro pobre na fronteira da Flórida com o Alabama cujas ruas não eram asfaltadas. Uma tarde ela se encontrou com a estrela de cinema Gene Tierney, a protagonista do clássico do cinema noir Laura (Otto Preminger, 1944), e compreendeu seu destino.

“Minha mãe tinha uma ambição para mim: que fosse a melhor”, contou a atriz à revista Vanity Fair. “Tudo se centrava em mim, de modo que eu queria ser perfeita, o que me fez intensa e motivada”.

Faye Dunaway 1960 Minkshmink Magazine @ Reprodução

Estudou dança, sapateado, piano e canto até se graduar em artes cênicas na Universidade de Boston. Em 1962, estudou na National Endowment for the Arts – uma agência governamental que apoiava as artes. Em seguida participou de algumas peças teatrais e séries de TV.

Estrou no cinema com duas pequenas participações em ‘Acontece Cada Coisa’ e ‘O Incerto Amanhã’, do diretor Otto Preminger. Mesmo com pouca experiência, ela entrou em contato com o diretor Arthur Penn para fazer um teste pelo papel de Bonnie Parker em ‘Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas’.

Muitas atrizes, como Jane Fonda, Ann-Margret, Carol Lynley, Leslie Caron e Natalie Wood queriam o papel. Penn adorou seu teste e fez de tudo para convencer Warren Beatty, protagonista e produtor. Ele não se empolgou até ver umas fotos dela feitas por Curtis Hanson na praia. Mesmo assim, ela passou por uma severa dieta para perder 12 quilos.

Deu certo. Ela conseguiu o disputado papel para atuar ao lado de Beatty, Gene Hackman e Estelle Parsons (que ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel).

“Ninguém gostava de Faye”, contou Estelle ao jornal Telegraph. “Sempre que estávamos prontos para filmar uma cena ela exigia que a penteassem novamente. Claro que não quero imaginar como uma mulher nessa situação se sente”. No caso, Estelle se referia ao fato que Faye sofreu para conseguir o papel.

Bonnie & Clyde se transformou em um desses fenômenos triplos que quase nunca acontecem: sucesso de crítica, triunfo comercial e referência cultural. Na semana seguinte de sua estreia, a venda de boinas estilo beret aumentou 1.300%.

Aos 26 anos, ela conseguiu sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz, ganhou o BAFTA de Melhor Estreante e um David di Donatello (O Oscar do cinema italiano) de Melhor Atriz Estrangeira.

“Bonnie é o personagem mais próximo a mim em muitos sentidos: uma garota de cidade pequena que veio do nada, faminta e desejando prosperar, desejando fazer algo importante, desejando fazer sucesso”, disse a atriz à revista Esquire.

Dunaway renunciou à metade de seu salário em troca do seu nome aparecer nos créditos, como o de Beatty, antes do título do filme.

Faye Dunaway e a boina de Bonnie & Clyde @ Reprodução

O filme inaugurou o ‘Novo Hollywood’, um movimento cinematográfico sexy, violento e sofisticado que aplicava o estilo da Nouvelle Vague à mitologia norte-americana. E Faye Dunaway se tornou sua musa.

Fez barulho ao lado de Steve McQueen em ‘Crown, o Magnífico’ e estrelou 11 filmes sem muita importância até conseguir o papel de Everlyn Mulwray em ‘Chinatown’, em 1974, ao lado de Jack Nicholson.
Muitas histórias nebulosas rondam as filmagens do clássico da década de 1970. As mais famosas são: o diretor Roman Polanski arrancou um fio cabelo seu, pois afirmava que ‘flutuava contra a luz porque distrairia o espectador.

Ela exigiu que ele fosse demitido. Lógico que isso não aconteceu. Polansky era um dos nomes mais quentes entre os diretores da época.

Numa noite, Polanski não interrompeu uma tomada para deixa-la ir ao banheiro. Sendo assim, ela fez xixi num copo plástico e o jogou em seu rosto.

“Roman considerava que era preciso infligir dor para fazer algo bom. Seu sadismo ia do físico ao emocional. Não fosse pelo cabelo, era pela incessante crueldade, o constante sarcasmo, a infinita necessidade de me humilhar”, se lamentou Dunaway ao The New York Times.

Entre os diretores que defenderam seu profissionalismo foram Sidney Lumet e Elia Kazan.

“Meu perfeccionismo surge porque meu trabalho consiste em conquistar algo maravilhoso e utilizo toda a minha inventividade, minha coragem e minha mente para tentar que seja especial. Para isso as pessoas vão ao cinema, para ver algo especial”, se defendeu ela.

Faye Dunaway em Chinatown 1974 @ Reprodução

Oscar

Seu marido da época, o cantor de rock Peter Wolf, a alertou de que o personagem de ‘Rede de Intrigas’, de 1976, relato  sobre os bastidores de um TV que apela para o sensacionalismo para fazer sucesso, poderia perpetuar sua imagem de mulher calculista, ambiciosa e sem escrúpulos.

“Por que fez esse personagem como uma mulher? Se fala como um homem e se comporta como um homem”, a atriz perguntou ao roteirista Paddy Chayefksy. “Porque precisava de uma história de amor”, respondeu ele.

Oscar 1977 Faye Dunaway (Rede de Intrigas) veste Geofrey Beene @ Reprodução

Valeu a pena. Sob direção de Sidney Lumet, Faye Dunaway ganhou seu único Oscar de melhor atriz.

“Nunca esquecerei o momento de escutar meu nome e o que senti. Foi, sem dúvida alguma, uma das noites mais maravilhosas da minha vida. O Oscar representava o epítome do que eu havia sonhado e pelo que eu sofri desde que era uma garota. Era o símbolo de tudo o que eu pensava que queria como atriz”, escreveu em suas memórias.

Contudo… Uma foto feita na noite seguinte à premiação em março de 1977, tornou-se polêmica.

Faye Dunaway por Terry O’Neill

Assinada pelo fotógrafo Terry O’Neill, que se tornaria seu marido anos depois, ficou conhecida como ‘A Manhã Seguinte’. Mostra Dunaway entre o esgotamento e o sono, com o Oscar dominando a fotografia e com dúzias de jornais com seu nome espalhados pelo chão.
A foto foi interpretada como como símbolo da ironia de Hollywood: uma atriz recebe uma quantidade desproporcional de atenção e, entretanto, está sozinha ao voltar para casa. Também foi apontada como de alguém que ‘parece importante, mas conquistar triunfos frívolos’.

E finalmente: conquistar um sonho e imediatamente se perguntar: “E agora, o que?”.

Razzie

Seu trabalho seguinte foi um filme feito para TV ‘O Desaparecimento de Aimee’. Entenda: somente no final do século, com os sucessos internacionais das séries que a TV ganhou status de ‘coisa séria’. O sonho de todos atores e atrizes era ‘fazer cinema’ para começar a ser respeitado entre seus pares. Não o contrário.

Acertou na atuação em ‘Os Olhos de Laura Mars’, elogiado thriller de Irvin Kershner, no qual ela interpretava uma famosa fotógrafa que começa a desenvolver habilidade de enxergar pelos olhos de um assassino. Também esteve no dramalhão ‘O Campeão’ ao lado de Jon Voight e Ricky Schroder (que roubou a cena como a criança carismática T. J.).

Aí, em 1981, Faye aceitou o convite para interpretar Joan Crawford em ‘Mamãezinha Querida’, uma adaptação do livro homônimo escrito por Christina Crawford para se vingar por décadas de humilhações sofridas pela mãos da mãe estrela de cinema de década de 1940.

Ao anunciar seu nome na obra (antes de começaram as filmagens), o The New York Times escreveu que o papel renderia seu segundo Oscar de Melhor Atriz. Puffff…

Faye Dunaway como Joan Crawford @ Divulgação

Empolgada, a própria admitiu sua identificação com Crawford:

“Ela era uma garota pobre e sem estudos do Meio Oeste. E se transformou em Joan Crawford. Ela criou a si mesma. Às vezes achava que estava de volta a Oklahoma. Uma vez desmaiou porque o vento no set a lembrou de Oklahoma”.

Tanto o produtor quanto o diretor (Frank Perry) asseguraram que (o filme) seria um estudo de personagem e uma reflexão sobre o poder insidioso da fama, não de uma recriação sensacionalista. Porém, ‘não era bem isso’.
O filme foi massacrado pela crítica, fãs, imprensa e público. Ninguém gostou da forma que a mítica estrela hollywoodiana foi retratada. E para piorar: nem sua atuação foi poupada. Foi considerada exagerada e histriônica.

Se não bastasse, ganhou o Razzie de pior atriz na segunda  edição dessa premiação. Voltou a ser ‘premiada’ em 1994 de um total de oito indicações.

“Após Mamãezinha Querida minha própria personalidade e a lembrança de meus outros personagens se perderam na cabeça do público e de muitas pessoas de Hollywood. Foi uma interpretação. Nada mais. Mas as pessoas acreditaram que eu era como ela”, lamentaria em suas memórias.

Mamãezinha Querida gerou um efeito metanarrativo: uma diva ególatra interpretando uma diva ególatra em um filme que conseguiu ridicularizar as duas e arruinar para sempre suas reputações.

“Você pode colocar qualquer pessoa nessa cadeira e te dirá que Faye Dunaway é absolutamente impossível”, disse no programa de Johnny Carson diante de 20 milhões de espectadores quando este perguntou a ela quem era a pior pessoa de Hollywood.

TV e Teatro

Praticamente ‘Mamãezinha Querida’ encerrou sua carreira. Abraçou todas as oportunidades que encontrou em séries, minisséries e filmes para TV. Sempre repetindo esquemáticos papéis de vilãs ou de mulheres pérfidas.

Teve duas exceções: a primeira no filme independente ‘Barfly: Condenados pelo Vício’, em 1987, atuando ao lado de Mickey Rourke, antes das inúmeras plásticas que modificaram seu rosto. Sua atuação garantiu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Drama.

Faye Dunaway e Mickey Rourke em Barfly (1987) @ Reprodução

E num pequeno papel em ‘Gia’, filme que garantiu o estrelato para Angelina Jolie, em 1999. Sua atuação rendeu empate com Camryn Mainhein (O Desafio) o Globo de Ouro de Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Filme Feito p/ TV. Era visível a surpresa da atriz ao receber o prêmio.

Escalada para substituir Glenn Close na montagem em Los Angeles do musical ‘Sunset Boulevard’, foi demitida pouco antes da estreia pelo autor Andrew Lloyd Weber. Motivo: a decepção com o pouco talento vocal da atriz.
Em 2019, foi demitida da peça ‘Tea at Five’, onde interpretava Katherine Hepburn, após várias semanas de problemas com seus colegas que relataram ao The New York Post: chegava horas atrasada, proibia que a olhassem (incluindo o diretor e o dramaturgo), exigia que ninguém usasse roupa branca, utilizava escovas, espelhos e caixas de grampos como armas projéteis. Jogava as refeições no chão quando não gostava. Esbofeteou uma camareira que tentava colocar sua peruca. Ordenava que limpassem seu camarim de joelhos. E seu assistente a denunciou por abusos emocionais e insultos como “pequeno homossexual”.

De volta ao Oscar

Ao lado de Warren Beatty, Faye esteve envolvida no maior escândalo da história da cerimônia Oscar quando ouve a troca de envelopes no anúncio do melhor filme. Anunciaram ‘La La Land’, mas o vencedor era ‘Moonlight’.

“Faye nos mostrava em seu celular uma foto do cartão que deram a ela, temia que as pessoas culpassem sua idade pelo erro”, contou uma pessoa que estava na cerimônia.

Se uma das grandes regras de uma diva do espetáculo é nunca se desculpar e justificar a si mesma, Dunaway a desobedeceu. Algumas vezes, como em uma conversa com o Los Angeles Times, lançou ao público algo parecido a uma mea culpa.

“A tragédia de Hollywood, do cinema e das estrelas, é que você vive uma realidade intensificada em que experimenta o melhor de tudo… E quando se vive dentro de uma ilusão e a retiram, você não pode aceitar, porque a realidade te golpeia e te quebra. Te quebra”.

(Fonte: El Pais Brasil)