13ª edição da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo

“É preciso a imagem para recuperar a identidade, tem que tornar-se visível, porque o rosto de um é o reflexo do outro, o corpo de um é o reflexo do outro e em cada um o reflexo de todos os corpos. A invisibilidade está na raiz da perda da identidade.” (Beatriz Nascimento em trecho do filme Ori)

A 13ª edição da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo acontece entre os dias 27 de maio e 17 de julho de 2022, no SESC Avenida Paulista e Centro Cultural São Paulo. Promovida pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB Brasil), o evento contará curadoria de Sabrina Fontenele e da equipe Travessias, formada por nove integrantes brasileiros de diversas áreas de atuação;
O recorte curatorial aventado pela equipe Travessias entende que a pandemia de COVID-19 reforça desigualdades socioespaciais que já se estabeleciam no país e em esfera global. Partindo dessa perspectiva, a ideia de reconstrução em debate lança uma reflexão sobre as dinâmicas inerentes à produção dos espaços.
Compreende, dessa forma, que essas são estruturas marcadas pela fragmentação, pelas descontinuidades e pelas simultaneidades, tanto físicas quanto simbólicas, cujas origens estão enraizadas nos violentos processos de colonização e são marcadas por desigualdades e apagamentos históricos, que provocam inúmeras manifestações de opressão – como o racismo, o sexismo, o capacitismo e o colonialidade – no Brasil e em diversos territórios pelo mundo.

Paraisópolis © Tuca Vieira

Os territórios brasileiros, extremamente fragmentados, estão costurados como uma colcha de retalhos e a 13ª Bienal representa uma possibilidade de atravessá-la e de apresentar tanto o compartilhamento de urbanidades possíveis, quanto a oportunidade de reinterpretação de memórias coletivas ancestrais.
A partir do conceito de travessias de Maria Beatriz Nascimento, a equipe curatorial da 13ª Bienal busca investigar o que do passado colonial e das diásporas permanece e o que se altera nos deslocamentos das populações do mundo. Seja no trajeto diário casa – trabalho, seja nas migrações forçadas ou espontâneas entre Ocidentes e Orientes. O que sobra, o que fica?
As Travessias permanecem contínuas, atravessadas pela diversidade dos corpos, que continuamente sofrem vulnerabilidades materializadas na estrutura de sua vida, de seu acesso à cidade. Entre tais consequências, tornam-se evidentes as tentativas de apagamento de seus modos de existir, também por meio do silenciamento de suas narrativas, tornando essas Travessias ainda mais sensíveis, já que a memória político-social sobre essas populações é seletiva: tende a exaltar e propiciar o funcionamento da estrutura colonial em detrimento de perspectivas individuais e comunitárias.

Essas marcas presentes na história tornam-se narrativas elencadas na própria construção das nações e, ainda que possuindo origens coloniais de séculos atrás, são a base estrutural destes territórios. Nascem também como um projeto, um investimento para o que temos hoje como sociedade.
A insurgência das vozes que construíram e ainda constroem o país é o chamamento para criação e recuperação de espaços dentro do território partilhado que possam servir para a escuta e diálogo dessas narrativas.
As Travessias pretendem estimular reflexões críticas com relação ao espaço contemporâneo enquanto desdobramento de eventos passados e ainda em curso por meio de narrativas que reconstruam temporalidades e levantamentos coletivos de memórias apagadas. Tem como fio condutor a relação entre corpos e territórios pelo viés de sua agência, seus apagamentos e suas resistências.
A possibilidade de visibilizar e intercruzar espaços e narrativas tende a ser uma ferramenta que entrelaça saberes e sentimentos extrapolando a dicotomia entre erudito e marginal, que conforma uma “estrutura de sentimentos” e redes de atravessamentos que afetam e ensinam sobre diversas formas de atuação, resgate e adaptação de práticas, formas de vida e do viver em comunidade.