Por que ainda precisamos celebrar os 53 anos da Revolta de Stonewall Inn?

Na noite de 28 de junho de 1969, uma rotineira batida policial num bar na Christopher Street, no bairro nova-iorquino de Greenwich Village, mudou o rumo da história da população LGBTQIA+ (Lésbica, Gay, Bissexual, Transexuais, Queer, Intersexo, Assexual e outras variações) nos EUA e, por sequência, no resto do mundo.
Na época, a homossexualidade era considerada crime em quase todos os estados norte-americanos, com exceção do estado de Illinois. Sendo assim, a polícia costumava dar “batidas” em lugares frequentados por esse público. Porém, há 53 anos, os policiais não encontraram a passividade costumeira. Eles alimentavam a ideia que LGBTQIA+ eram passivos, medrosos e que não reagiam as agressões e as prisões.
Além do mais, esta população enfrentava um sistema jurídico anti-homossexual. Os primeiros grupos de ativismo do país tentavam provar que os gays poderiam ser assimilados pela sociedade e apoiavam um sistema educacional não confrontacional para homossexuais e heterossexuais.
Poucos estabelecimentos recebiam pessoas abertamente homossexuais nos 1960. Na época, o Stonewall Inn era propriedade do grupo mafioso Cosa Nostra Americana. Ele recebia uma grande variedade de clientes e era conhecido por ser popular entre os efeminados jovens, lésbicas masculinizadas, garotos de programa, jovens sem-teto, drag queens, drag kings e travestis.
Ao mesmo tempo, as batidas policiais nesses locais eram rotineiras. Porém, a história seria reescrita na noite daquele sábado.

Ao levar para o camburão drag queens, travestis, lésbicas e gays que estavam no bar The Stonewall In, os policiais foram surpreendidos com reações. As futuras prisioneiras faziam caretas e deboches. Reagindo à provocação, os policiais aumentaram o grau de violência na coerção. A multidão que acompanhava o “Salve Geral” também reagiu e começou a jogar moedas nos policiais. Era uma forma de dizer que eles ‘não valiam um níquel’.

Stonewall Inn 1969 @ Reprodução

Na sequência, garrafas e pedras foram arremessadas. Clientes e funcionários de bares vizinhos juntaram-se aos que já estavam no entorno de Stonewall.
A viatura da polícia foi virada de cabeça para baixo. Nesse momento, seis policiais correram para o interior do bar para se esconder do número de revoltados que só aumentava. A partir deste instante, os relatos são muitos.

Stonewall Inn 1969 @ Reprodução

O fato inegável foi que a Revolta de Stonewall durou três dias, com reforço de ambos os lados. No segundo dia, ganhou apoio dos vizinhos, do grupo radical Panteras Negras, de outros movimentos contrários a Guerra do Vietnã e até LGBTQIA+ das classes médias e altas.

“Demos uma resposta clara, um troco. Stonewall era um bar frequentado por gays, trans e lésbicas pobres. Não eram apenas brancos de classe média. Eram negros e latinos que se rebelaram contra a violência policial recorrente”, defende o cineasta René Guerra, diretor dos filmes ‘Os Sapatos de Aristeu e Vaca Profana’, que aborda a temática trans.

Marsha P Johnson @ Randy Wicker

“Foi no corpo a corpo, no pedra a pedra, que Marsha (P. Johnson), e suas companheiras e companheiros conseguiram inaugurar amplamente algo muito maior que um movimento, a visibilizarão de um modo de existência”, completa a jornalista e professora universitária Fabiana Moraes, citando a ativista negra e drag queen Marsha P. Johnson, uma das protagonistas da Batalha, que anos depois teve uma morte não explicada.

Já o roteirista e publicitário Tony Góes aponta para o ineditismo da reação desta população.

“Sempre vai ter quem diga que já havia ativismo gay antes do Levante de Stonewall. É verdade: na Europa e em outros estados dos Estados Unidos existiam associações e revistas voltadas aos homossexuais desde, pelo menos, a década de 1940. Mas era tudo muito secreto, e quase sem nenhuma repercussão fora de um círculo muito pequeno. Stonewall mudou tudo isso. Foram três dias de revolta, com farta cobertura da imprensa e adesão de simpatizantes não-LGBT. Por isto o levante é considerado o marco zero da história da luta pelos direitos igualitários”.

Importante lembrar que a ‘farta’ cobertura de imprensa omitiu, errou e abusou de diversos tipos de preconceitos, pois poucos jornalistas – fora aqueles dos veículos alternativos – tinham verdadeiro interesse por esta população.
A Revolta de Stonewall causou uma nova percepção Identitária na população LGBTQIA+ (na época, erroneamente a palavra gay era usada para se referir à todos) dos EUA. Em seguida, em outros países. Passamos a existir – em não apenas identificados como ‘doentes mentais’, ou pessoas sujas que vivem em guetos, ou qualquer outra definição do período.

Stonewall Inn Nova York Maio 2014 @ Reprodução

No ano seguinte, mais duas mil pessoas foram às ruas no dia 28 de junho em Nova York para celebrar o primeiro aniversário do episódio. Plantando a semente das Paradas do Orgulho LGBTQIA+ que hoje acontecem em quase todos os países, desde então.

“A partir dos eventos de Stonewall, a população homossexual começou a entender o que era uma guerra, que tinha um exército e poderia lutar. Foi quando os LGBTs saíram da condição de invisibilidade para dizer que eram também uma força política”, analisa Chico Fireman, jornalista e crítico de cinema. “Quando aqueles pioneiros foram para a rua, eles inspiraram gente mundo afora e gerações além, e pela primeira vez foram exigir respeito. Do lodo da intolerância brotou uma flor”.

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