Dica para maratonar: “De Belfast ao Paraíso” na Netflix

A Netflix lançou na quinta-feira, 12 de fevereiro a ótima (e intrigante) série britânica “De Belfast ao Paraíso” (How to Get to Heaven from Belfast, nome original). É uma das melhores apostas para o início do ano.
Com oito episódios, a obra transita de forma sagaz entre a comédia ácida, o suspense e a análise profunda dos traumas do passado.

De Belfast ao Paraíso @ Netflix

A trama foca em três mulheres na faixa dos trinta anos que carregam bagagens emocionais pesadas. Saoirse é uma escritora de TV inteligente e caótica que assina uma série policial de sucesso. Robyn é uma mãe de três filhos que vive no limite do estresse sob uma fachada glamorosa. Por fim, Dara é uma cuidadora inibida, uma mulher lésbica que ainda não vive sua sexualidade de forma plena devido a dogmas familiares rigorosos.

De Belfast ao Paraíso @ Netflix

A rotina isolada de cada uma é alterada quando recebem a notícia da morte de Greta, a quarta integrante do antigo grupo de juventude.
As três viajam até o interior rural de Donegal para o velório. O que deveria ser apenas uma despedida solene rapidamente se transforma em uma teia caótica de mistérios. Ao chegar na bela casa, o trio é apresentado a uma estranhíssima família.

De Belfast ao Paraíso @ Netflix

Na sala do velório, Saoirse nota um detalhe aterrador: o corpo dentro do caixão não possui uma tatuagem de contornos ocultistas que Greta ostentava no pulso.
Sem preparo algum, o trio assume o papel de detetives amadoras e bate de frente com figuras sombrias, incluindo o marido suspeito da falecida e uma assassina implacável.

A Estética de Wes Anderson

De Belfast ao Paraíso – Michelle Fairely (Game of Thrones), Matilda Freeman, Ryan McParland e Emmett J. Scanlan @ Netflix

Logo no primeiro episódio, a série estabelece seu tom peculiar através da direção de arte. Ao apresentar a família de Greta, a produção adota uma estética que remete diretamente aos filmes do cineasta Wes Anderson. A câmera estática, a simetria rigorosa e a paleta de cores altamente saturada criam um efeito de casa de bonecas. Essa escolha visual não é mero capricho, servindo para ilustrar como a excentricidade e o excesso de estilo funcionam como uma armadura para esconder a disfunção e o trauma sob uma fachada de perfeição.
O choque de realidades acontece quando as três protagonistas chegam trazendo o luto real e a crueza das ruas de Belfast, invadindo esse ambiente perfeitamente coreografado e artificial.

Bronagh Gallagher, Shauna Bray e Saoirse Monica Jackson em De Belfast ao Paraíso @ Netflix

Para sustentar o mistério no presente, a série utiliza deliciosas canções do final da década de 1990, período que as garotas se conheceram no colégio.
O público descobre que a amizade do quarteto foi cimentada por um evento traumático envolvendo uma cabana incendiada, símbolos bizarros e o flerte com uma seita religiosa.
Conforme desenterram pistas no presente, inclusive viajando até os resorts de Algarve, em Portugal, elas são forçadas a encarar que quase tudo o que acreditavam sobre o próprio passado da suposta amiga morta era uma ilusão editada pela mente para suportar a culpa.

A Mente Criativa e o Elenco Estrelado

Caoilfhionn Dunne, Roisin Gallagher e Sinead Keenan em De Belfast ao Paraíso @ Christopher Barr – Netflix

A roteirista por trás da série é Lisa McGee, aclamada pelo fenômeno cômico “Derry Girls”, além de outras obras britânicas como “London Irish” e o suspense “The Deceived”. Desta vez, McGee amadurece sua narrativa ao trocar os dilemas adolescentes pela complexidade da vida adulta.
O elenco traz rostos familiares para os fãs de grandes produções. Roísín Gallagher, que interpreta Saoirse, é bastante conhecida por seus papéis viscerais na comédia dramática “The Dry” e no suspense “The Fall”. A Sinéad Keenan, que dá vida a Robyn e arranca os maiores elogios cômicos da crítica estadunidense e europeia, tem em seu currículo atuações de peso em “Unforgotten” e a também ótima “Being Human”.
Caoilfhionn Dunne, no papel de Dara, traz sua experiência de produções aclamadas mundialmente como “Love/Hate”, a série financeira “Industry” e a premiada minissérie “Chernobyl”. Fechando o quarteto original, Natasha O’Keeffe, imortalizada na cultura pop como Lizzie Shelby no hit “Peaky Blinders”, interpreta a enigmática Greta.

Além do quarteto, a série ainda apresenta uma deliciosa e excêntrica gama de outros personagens em pequenas (e marcantes) participações.

Natasha O’Keefe em De Belfast ao Paraíso @ Netflix

O veredito da imprensa especializada tem sido favorável, destacando a excelente química do trio de protagonistas, a direção que apostou numa identidade visual vibrante de noir bizarro, um envolvente roteiro que transita da comédia ao suspense, embalado por uma trilha sonora nostálgica perfeita para a geração millennial.

A Netflix ainda não confirmou oficialmente uma segunda temporada, contudo, Lisa McGee revelou em entrevistas que o último episódio tem um final propositalmente em aberto. De qualquer forma, ela disse que tem ideias prontas para continuar a história a partir desse gancho intrigante.

Sua opinião

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.