A proliferação desenfreada de cerimônias de premiação nos Estados Unidos não deve ser interpretada como um gesto altruísta de celebração artística, mas sim como o funcionamento vital de um complexo industrial de marketing que utiliza o prestígio como moeda de troca.
Do Oscar ao Grammy, passando pelos sindicatos e centenas de associações críticas, a construção dessa “cultura do troféu” serve a um propósito triplo que sustenta a supremacia econômica estadunidense: a validação de produtos comerciais sob o disfarce de mérito artístico, o exercício do poder brando (soft power) global e a manutenção de uma hierarquia de classes dentro da própria indústria criativa.
A principal função deste ecossistema é a transformação da obra de arte em um ativo financeiro de alta performance. O fenômeno conhecido como o “impulso das premiações” é uma estratégia de vendas agressiva que estende o ciclo de vida de filmes, séries e álbuns, forçando o consumidor a investir tempo e dinheiro em obras que receberam o selo de aprovação das academias.
Ao criar uma necessidade artificial de “estar por dentro” dos indicados, a indústria gera bilhões de dólares em publicidade gratuita, transformando tapetes vermelhos em vitrines de luxo onde o talento humano é frequentemente reduzido a um suporte para marcas globais de moda e joalheria.
Criticamente, a abundância dessas premiações funciona como um mecanismo de colonização cultural. Ao estabelecerem os padrões do que é considerado “excelente”, os Estados Unidos impõem sua estética e seus valores morais ao restante do planeta, sufocando produções locais que não se adequam à estrutura narrativa de Hollywood. O fetiche pelos prêmios cria uma ilusão de meritocracia global, quando na verdade as regras do jogo são ditadas por um punhado de votantes que, historicamente, pertencem a demografias privilegiadas – fundamentalmente masculinas e brancas.
Essa estrutura marginaliza vozes dissidentes e reduz a diversidade cultural a categorias específicas, muitas vezes meramente ilustrativas ou performáticas.
A existência de premiações de nicho, como aquelas voltadas exclusivamente para minorias (GLADD Awards) ou para o público maduro (AARP), revela a falência ética das grandes instituições centrais.
Essas cerimônias surgem não apenas por um desejo de celebração, mas por uma necessidade militante de visibilidade diante de um sistema que, por décadas, ignorou qualquer narrativa que não servisse ao homem branco jovem.
No entanto, mesmo essas premiações correm o risco de serem absorvidas pela mesma lógica de mercado, tornando-se satélites de uma indústria que prefere entregar estatuetas a realizar mudanças estruturais nas relações de trabalho e na distribuição de renda.
Em última análise, o excesso de prêmios atua como uma cortina de fumaça que desvia o olhar público das condições laborais precárias e da exploração de trabalhadores técnicos e criativos.
Enquanto o glamour das luzes e os discursos de agradecimento dominam as manchetes, as lutas por direitos sindicais, contra o uso predatório da inteligência artificial e pela equidade salarial permanecem em segundo plano.
Seria urgente questionar até que ponto a arte pode ser verdadeiramente livre quando seu valor é medido pelo peso de um objeto de metal dourado e pela rentabilidade de sua indicação.
A Tirania das Estatuetas
O domínio absoluto das premiações estadunidenses sobre o imaginário global não é apenas uma questão de prestígio estético, mas sim um mecanismo sofisticado de sufocamento das soberanias culturais de outras nações.
Ao estabelecer o Oscar, o Grammy e o Emmy como os únicos selos de validação universal, a indústria do entretenimento dos Estados Unidos opera uma forma de colonização mental que impõe padrões narrativos, rítmicos e morais a criadores do mundo inteiro.
Esse fetiche pelos troféus de Hollywood não apenas marginaliza produções locais, como também força cineastas, músicos e dramaturgos estrangeiros a moldarem suas obras para atender ao gosto de um júri majoritariamente ocidental e anglófono, resultando em uma preocupante homogeneização da arte global.
O maior prejuízo causado por essa obsessão é a erosão da autenticidade cultural. Quando um filme brasileiro, sul coreano ou nigeriano é produzido com o único objetivo de conquistar uma indicação ao Oscar, ocorre um processo de filtragem criativa.
O autor tende a simplificar nuances culturais, a adotar estruturas dramáticas padronizadas por Hollywood e a suavizar críticas sociais que poderiam ser incompreendidas pelo centro do poder econômico.
Essa busca pela aprovação externa transforma a diversidade do mundo em um subproduto palatável para o consumo estadunidense, onde o exótico é celebrado apenas quando não desafia as hegemonias estabelecidas.
A disparidade financeira entre as campanhas de premiação dos EUA e os orçamentos culturais de países em desenvolvimento cria um abismo intransponível. O custo de uma única campanha de marketing voltada para os membros da Academia muitas vezes supera o orçamento total de produção de diversas cinematografias nacionais.
Esse poderio econômico garante que as obras estadunidenses dominem as telas de cinema e as plataformas de streaming globalmente, enquanto produções locais de alta qualidade técnica e profunda relevância social permanecem invisibilizadas por falta do “carimbo de aprovação” de Los Angeles.

A cultura torna se um jogo de cartas marcadas onde o capital dita quem tem o direito de ser visto e celebrado.
A própria existência de categorias como Melhor Filme Internacional funciona como um mecanismo de segregação disfarçado de inclusão. Ao confinar toda a produção cinematográfica do restante do planeta a uma única categoria, o sistema de premiações dos Estados Unidos reafirma a ideia de que o cinema estadunidense é a norma e todo o resto é o outro.
Essa estrutura desestimula o público a consumir produções estrangeiras em igualdade de condições, reforçando a percepção de que a arte produzida fora do eixo Hollywoodiano é um nicho opcional ou uma curiosidade étnica, em vez de ser parte integrante da excelência artística universal.
A verdadeira diversidade cultural só florescerá quando a qualidade de uma obra for medida pelo seu impacto em sua própria comunidade e pela sua capacidade de dialogar com o mundo a partir de sua própria língua e território, sem a necessidade de mediadores imperiais.
O fetiche das premiações dos Estados Unidos é uma barreira que precisa ser transposta para que a cultura global deixe de ser um monólogo de poder e passe a ser um diálogo genuíno entre iguais.



