No universo da interpretação, o termo mugging refere-se à prática deliberada de exagerar expressões faciais e maneirismos físicos para atrair a atenção do espectador ou sinalizar uma emoção de forma hiperbólica. Para o espectador comum, pode parecer “muita atuação”, mas para o crítico rigoroso, é uma falha de interioridade.
A verdadeira grande atuação é aquela que acontece no silêncio, na sutileza e na economia de movimentos. O bom cinema não precisa de legenda ou de careta para nos fazer sentir.
O mugging é medonho porque rompe a suspensão da descrença; em vez de enxergarmos um personagem vivendo uma verdade, vemos um ator gritando por validação. É a “morte da alma” em cena, onde o ego do artista ocupa o espaço que deveria pertencer à narrativa.
Na indústria estadunidense, essa técnica é frequentemente o passaporte para o Oscar, já que a Academia costuma confundir “quantidade de atuação” com “qualidade de atuação”.
Overacting

O Overacting é um termo guarda-chuva mais amplo. Ele se refere a qualquer atuação que esteja ‘acima do tom’ necessário para a cena. Inclui não só o rosto, mas o corpo, o volume da voz e a energia dramática.
O combustível dessa prática é o histrionismo: uma teatralidade deliberada e autoconsciente que busca o centro do palco a qualquer custo.
Essa falha de calibração geralmente nasce da incapacidade do intérprete em distinguir a escala das mídias: enquanto o teatro é a arte da expansão — onde o ator projeta sua voz e corpo para alcançar a última fila da galeria —, o cinema é a arte da contração e da intimidade.
No set, a lente de 35mm captura o pensamento e o micro-movimento; portanto, o que é técnica necessária no palco, torna-se agressivo na tela.
No overacting, o ator grita quando deveria falar baixo, ou chora convulsivamente quando um olhar triste bastaria. É o erro de calibração: o intérprete entrega uma nota ’10’ de intensidade quando a cena pedia uma nota ‘4’.
O perigo dessa entrega sem filtros é o mergulho na caricatura. Quando o recurso histriônico perde a conexão com a verdade humana, o personagem deixa de ser uma figura reconhecível para se tornar um desenho animado de si mesmo, esvaziando a narrativa de qualquer peso emocional.”

Faye Dunaway em “Mamãezinha Querida” (1981) é o Santo Graal do excesso. Sua atuação não é apenas um clássico de overacting, é “a performance” que define o termo para toda uma geração, que praticamente destruiu a carreira da atriz.
A famosa cena dos cabides de arame (“No wire hangers, ever!”) é o ápice do descontrole: o volume vocal, a dilatação das pupilas e a agressividade física ultrapassam qualquer noção de realismo.
Na época, o The Hollywood Reporter descreveu a performance como “uma possessão”. A crítica apontou que Dunaway não estava interpretando Joan Crawford, mas sim uma versão demoníaca e distorcida da atriz.
O Variety observou que a atuação era tão “estratosférica” que impedia qualquer empatia. Em vez de sentirmos medo ou pena da personagem, o público acabava rindo pelo absurdo da entrega.
Anos depois, sua atuação se tornou um clássico do ‘Camp’, conceito imortalizado pelo ensaio de Susan Sontag, que trata do “amor pelo não natural: do artifício e do exagero”.
O filme também caiu nas graças da comunidade LGBTQIAP+ e das drag queens, que historicamente abraçam performances operísticas e cheias de intensidade.
OSCAR BAIT: A ISCA DE OSCAR

O Overacting (atuação excessiva) é o “pecado favorito” da Academia. Muitas vezes, os votantes confundem o volume da interpretação com a sua qualidade. Se o Mugging é o excesso no rosto (que incomoda por parecer pedante), o Overacting é o excesso na energia, no volume e na ocupação do espaço.
No universo do cinema, o termo Oscar Bait define filmes e atuações produzidos com o objetivo quase exclusivo de seduzir os votantes. Muitas vezes, o talento genuíno dá lugar ao artifício técnico.
Fique atento aos sinais:
A Ditadura do Látex (Transformação Radical): O sinal mais óbvio é a mudança física extrema. Se o ator está irreconhecível sob camadas de maquiagem, próteses ou variações drásticas de peso, o sinal de alerta deve acender.
O Truque: A indústria adora premiar o “esforço físico” e o sacrifício estético.
O Erro: Quando a maquiagem trabalha mais do que a expressão facial, soterrando o ator.
Exemplos: Jared Leto em Casa Gucci ou Rami Malek em Bohemian Rhapsody.
A Ginástica Vocal (Sotaques e Sussurros): Quando o ator adota um sotaque carregado ou vozes ofegantes que não existiam em seus trabalhos anteriores.
O Truque: Sinalizar que o ator passou meses com fonoaudiólogos e “estudou muito”.
O Erro: A voz torna-se uma distração. Se você foca mais no sotaque do que na narrativa, a atuação falhou.
Exemplo: Eddie Redmayne em O Destino de Júpiter.
O “Mugging” (Hiper-Expressividade Facial): O uso desnecessário dos músculos faciais para comunicar emoções básicas.
O Truque: Tentar convencer o espectador de que a atuação é “psicologicamente complexa”.
O Erro: O ator parece estar em uma competição de caretas. É o famoso “gritar com os olhos”.
Exemplo: Renée Zellweger em Cold Mountain.
O Overacting (Excesso de Intensidade): A falta de calibração dramática em prol do impacto.
O Truque: Confundir “intensidade” com “boa atuação”.
O Erro: O personagem torna-se uma caricatura histriônica que rompe o naturalismo do restante do elenco.
Exemplos: Faye Dunaway em Mamãezinha Querida e Roberto Benigni em A Vida é Bela.
A “Cena do Oscar” (O Momento de Explosão): Aquele monólogo aos gritos ou choro convulsivo com direito a muco facial.
O Truque: Criar o clipe perfeito de 30 segundos para ser exibido durante a cerimônia.
O Erro: A cena soa isolada e não pertence ao ritmo orgânico do filme. É um anúncio: “Vejam como eu sofro pelo meu personagem!”.
Exemplo: Amy Adams em Era uma Vez um Sonho.
O cinema é a arte do detalhe e o teatro é a arte do conjunto. Quando o ator de teatro não entende que a lente de 35mm é o seu espectador mais íntimo, ele acaba “gritando” com quem está tentando sussurrar no seu ouvido.
Dez atores no teatro do excesso
Tom Hanks em Elvis (2022) – O The Hollywood Reporter classificou a atuação como desconcertante. Hanks se esconde atrás de uma montanha de látex e um sotaque bizarro, perdendo a humanidade que o consagrou. O mugging aqui é uma tentativa de se transformar em um vilão de “pantomima” em um filme estilizado.

Jared Leto em Casa Gucci (2021) – A Slant Magazine descreveu a performance como uma caricatura ofensiva. Leto utiliza sotaques italianos saídos de desenhos animados e gesticulações frenéticas. O motivo é a sua crença no “método externo”, onde a maquiagem e o exagero substituem a construção de uma psique real.
Rami Malek em Bohemian Rhapsody (2018) – O crítico da Variety apontou que a atuação de Malek é focada na mimetização técnica. O uso constante da prótese dentária e as poses coreografadas transformam Freddie Mercury em uma estátua de cera em movimento. Ele recorreu a isso para vencer o prêmio através da “estética da semelhança”.

Robert De Niro em Tirando o Atraso (2016) – O portal IndieWire criticou a falta de dignidade na performance, onde De Niro utiliza caretas vulgares e um humor físico pobre. O motivo é a zona de conforto financeira pós-prestígio, onde o ator abandona a técnica sutil em favor de um mugging preguiçoso.
Eddie Redmayne em O Destino de Júpiter (2015) – É o estudo de caso perfeito de como o histrionismo e a falta de calibração podem transformar uma performance de um vencedor do Oscar em algo involuntariamente cômico. O Erro da “Ginástica Vocal” é o ponto mais criticado pela imprensa especializada, como a Variety e o The Hollywood Reporter, que apontaram que ele optou por uma voz extremamente sussurrada, rascante e ofegante durante 90% do filme, interrompida por gritos histriônicos súbitos.
Leonardo DiCaprio em O Regresso (2015) – O jornal The Guardian observou que a atuação se baseia quase inteiramente em grunhidos, baba e sofrimento físico. DiCaprio utilizou o mugging corporal para convencer a Academia de que o esforço hercúleo de filmagem deveria ser traduzido em um Oscar de atuação.
Matthew McConaughey em O Mar de Árvores (2015) – A Variety descreveu a performance como uma coleção de olhares vazios e sofrimento espiritual forçado. Após sua vitória por “Clube Comprar em Dallas”, McConaughey tentou replicar a “intensidade premiável”, mas resultou em um mugging solene que não ressoou com a crítica.
Al Pacino em Cada Um Tem a Gêmea Que Merece (2011) – A Variety lamentou o uso de gritos e trejeitos agressivos por um ícone do calibre de Pacino. O motivo do mugging aqui é a decadência profissional em busca de um humor rasteiro, onde o ator satiriza sua própria intensidade de forma vergonhosa.
Nicolas Cage em O Sacrifício (2006) – A revista Empire destacou o histrionismo de Cage como o ápice do involuntariamente cômico. O motivo é o estilo “Nouveau Shamanic” do ator, que em projetos posteriores à sua vitória no Oscar em “Despedida em Las Vegas”, muitas vezes descambou para um exagero que ignora qualquer lógica narrativa.

Sean Penn em Uma Lição de Amor (2001) – O crítico A.O. Scott do The New York Times sugeriu que Penn cruzou a linha da sensibilidade para o artifício. Ao interpretar um homem com deficiência intelectual, o ator carregou nos tiques e na fala arrastada de forma tão ostensiva que o “trabalho de ator” ficou mais visível que o ser humano.
Dez atrizes – até mitos se enganam
Jessica Chastain em Os Olhos de Tammy Faye (2021) – A Variety mencionou que a voz infantilizada e o choro constante sob a maquiagem pesada sufocaram a atuação. O motivo foi o uso do artifício visual como âncora para uma interpretação que prioriza o detalhe externo sobre a verdade interna.
Renée Zellweger em Judy: Muito Além do Arco-Íris em (2019) – A Cahiers criticou o que chamam de “performance de prótese”. Para eles, o cinema deveria ser sobre a presença orgânica do ator, e o excesso de tiques e maquiagem de Renée foi visto como uma barreira que impedia o surgimento de uma verdade cinematográfica. Eles consideraram a atuação “pesada” e “acadêmica”.

Jennifer Hudson em Cats (2019) – A Variety criticou o melodrama excessivo e o canto acompanhado de muco facial constante. O motivo foi a busca por um momento “showstopper” que repetisse o sucesso de Dreamgirls, resultando em uma performance que a crítica achou insuportável.
Meryl Streep em A Dama de Ferro (2011) – O The Guardian classificou a atuação como uma imitação técnica sem alma. Streep utilizou biquinhos e trejeitos vocais de Thatcher como uma barreira, sinalizando o tempo todo o seu domínio técnico no que a crítica considera um mugging de alto nível intelectual.
Sandra Bullock em Maluca Paixão (2009) – O veículo The Independent afirmou que Bullock parecia uma maníaca em vez de uma excêntrica. O motivo foi o erro de tom no uso de expressões infantis e tiques de ansiedade, um mugging cômico que quase manchou sua vitória no Oscar no mesmo ano.
Halle Berry em Mulher-Gato (2004) – O The New York Times descreveu a atuação como afetada e sem direção. Após o Oscar, Berry tentou traduzir sensualidade através de movimentos felinos exagerados e olhares arregalados, um mugging físico que se tornou motivo de piada.
Angelina Jolie em Alexander (2004) – A Variety detonou o sotaque eslavo e as expressões de “vilã de novela”. Jolie recorreu ao mugging de diva para tentar dominar um épico confuso, transformando sua personagem em uma caricatura que destoava de todo o elenco estadunidense.

Renée Zellweger em Cold Mountain (2003) – O The New York Times apontou que a boca entortada e os muxoxos constantes eram distrações teatrais. O motivo foi o desejo de provar versatilidade através de uma “personagem de composição” rústica, resultando em um dos casos mais famosos de mugging premiado da história.
Nicole Kidman em As Horas (2002) – A Rolling Stone comentou que, apesar do prêmio, o nariz protético ditou uma atuação rígida. Kidman utilizou o artifício para sinalizar “profundidade dramática”, um tipo de mugging de contenção onde a prótese faz o trabalho de comunicação com o público.

Gwyneth Paltrow em “Shakespeare Apaixonado” (1998) – A critica apontou o uso do sotaque britânico afetado e o choro “limpo”, mas constante. É o mugging da “donzela em perigo”. Paltrow usa expressões de surpresa e encantamento que parecem saídas de um catálogo de moda da época. Falta a “sujeira” e a gravidade que uma personagem de Shakespeare exigiria, soando como uma performance de colégio de elite com figurinos caros.
