A Trilha Sonora no Cinema

Desde que as orquestras nos fossos dos teatros acompanhavam as projeções mudas para abafar o ruído dos projetores e guiar a emoção da plateia, a música estabeleceu-se como um pilar narrativo no cinema.
Contudo, em uma análise contemporânea, apoiada por referências como a Cahiers du Cinéma e a Sight & Sound, é imperativo questionar: quando a trilha sonora eleva a obra à categoria de arte e quando ela se torna um ornamento supérfluo ou, pior, uma muleta narrativa?

Sala de cinema mudo com orquestra @ Gemini

A eficácia de uma trilha sonora reside na sua capacidade de dialogar com o subtexto. A música não deve apenas reiterar o que a imagem mostra, mas revelar o invisível. Compositores como Bernard Herrmann compreenderam que a música é a arquitetura psicológica do filme.

Em “Psicose” (1960), os violinos estridentes na cena do chuveiro não são apenas som; eles são as facadas. Sem a partitura, a cena perde sua visceralidade cinética.

Do ponto de vista teórico, a aplicação do leitmotif (conceito wagneriano de associar temas a personagens ou ideias) é uma das ferramentas mais poderosas do cinema estadunidense clássico e contemporâneo.
John Williams, em “Tubarão” (1975) e “Star Wars” (1977), utiliza a música para denotar presença e destino, substituindo a necessidade de diálogo expositivo.

A música torna-se fundamental quando atua como o “inconsciente” do filme. Ennio Morricone, em sua vasta colaboração com Sergio Leone, transformou a trilha sonora em um personagem, onde o som ditava o tempo da montagem, e não o contrário. Nestes casos, a música respeita a integridade da trama, expandindo o universo diegético (o mundo da história) e elevando a experiência sensorial.

Baseado no cruzamento de dados da Sight & Sound e na teoria de autor da Cahiers du Cinéma, “Era uma Vez no Oeste” (1968) é apontada como a obra seminal que melhor traduz o que deve ser uma trilha sonora.
Na maioria das produções estadunidenses, a música é composta na pós-produção, adaptando-se ao corte final do editor. Sergio Leone e Ennio Morricone inverteram esta lógica industrial. Morricone compôs os temas centrais antes mesmo de as câmeras começarem a rodar.

Leone, por sua vez, reproduzia a música no set de filmagem através de grandes alto-falantes, instruindo atores como Henry Fonda e Claudia Cardinale a moverem-se no ritmo da partitura.

Neste caso, a música não é um acessório; ela é o cronômetro, o diretor e o roteiro emocional.
A imagem existe para servir à música, criando uma fusão orgânica impossível de ser replicada pelo método tradicional de Hollywood.

Há, no entanto, uma tendência no cinema moderno de utilizar a trilha sonora para manipular emoções que o roteiro ou a atuação não conseguiram entregar.
O excesso de “mickey mousing” (técnica onde a música imita cada movimento da ação) pode infantilizar a obra.
O silêncio, muitas vezes, é a escolha musical mais corajosa. O suspense em “Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007), dos irmãos Coen, é sustentado pela ausência quase total de trilha incidental. O realismo cru da obra seria diluído por uma orquestra convencional.

Onde os Fracos Não têm Vez @ Getty

Da mesma forma, o cineasta austríaco Michael Haneke frequentemente abdica da trilha para forçar o espectador a confrontar a realidade da imagem sem o filtro de proteção emocional que a música oferece.
Nestes contextos, a música seria não apenas desnecessária, mas prejudicial à honestidade intelectual da obra.

E a Canção?

Sala de cinema mudo com pianista @ Gemini

A inserção de canções pré-existentes requer uma curadoria cirúrgica. Quando bem executada, a canção torna-se um comentário cultural ou uma extensão da psique do personagem. “A Primeira Noite de Um Homem” (1967), a canção “Mrs. Robinson” da dupla, Simon & Garfunkel, funciona como a voz interior do protagonista.

Em Pulp Fiction (1994), Quentin Tarantino resgatou a Surf Music dos anos 60 (especificamente Dick Dale com “Misirlou”), um gênero que estava culturalmente morto e associado a filmes de praia ingênuos. Ao reposicionar essa sonoridade na abertura de um filme de gângsteres neo-noir, Tarantino reescreveu a história da música pop. A crítica musical aponta que ele conferiu uma nova “coolness” e perigo a acordes que antes eram considerados inofensivos. É sensacional!

Em contrapartida, blockbusters recentes sofrem do que a crítica especializada denomina “síndrome do videoclipe”. O filme “Esquadrão Suicida” (2016) é um exemplo citado negativamente por veículos como The Hollywood Reporter e Variety: uma colagem de sucessos pop jogados aleatoriamente para evocar uma nostalgia barata, sem qualquer conexão rítmica ou temática com a narrativa visual. Isso desrespeita a trama, transformando o cinema em uma vitrine de marketing fonográfico.

Os Compositores Mais Premiados

A estatueta dourada da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas não premia apenas a excelência técnica, mas a capacidade de um compositor de definir a identidade emocional de uma era.
Ao abrir os arquivos históricos de Hollywood, observamos que a distribuição de prêmios reflete as mudanças na indústria, da era de ouro dos grandes estúdios, onde compositores eram funcionários contratados, ao período contemporâneo dos cineastas independentes.

Alfred Newman (1900 – 1970) detém o recorde absoluto de vitórias na categoria de trilha sonora, somando 9 estatuetas (de 43 indicações). Ele foi o diretor musical da 20th Century Fox por décadas e é o autor da famosa fanfarra que abre os filmes do estúdio. Sua versatilidade permitiu que vencesse por obras tão distintas quanto “A Canção de Bernadette” (1943) e “O Rei e Eu” (1956).

Logo atrás, com uma trajetória intimamente ligada ao renascimento da animação na década de 1990, está Alan Menken. O compositor acumula 8 Oscars (de 19 indicações), conquistados através de uma combinação de Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Canção Original.
Sua colaboração com a Disney em “A Pequena Sereia” (1989), “A Bela e a Fera” (1991) e “Aladdin” (1992) redefiniu o musical animado, trazendo a estrutura da Broadway para a tela grande.

O maestro John Williams, indiscutivelmente o compositor mais popular da história do cinema, possui 5 estatuetas (de 54 nomeações). Embora seu impacto cultural seja imensurável, a Academia “só” o premiou por “Um Violinista no Telhado” (1971) , “Tubarão” (1975), “Star Wars” (1977), “E.T.: O Extraterrestre” (1982) e “A Lista de Schindler” (1993). Ele perdeu pelas trilhas de “Superman: O Filme (1978), “Indiana Jones – Os Caçadores da Arca Perdida” (1981), “O Império Contra-Ataca” (1980, quando ele introduziu a “Marcha Imperial”), “O Resgate do Soldado Ryan” (1998), “Harry Potter e a Pedra Filosofal” (2001) e “Memórias de uma Gueixa” (2005.

Empatado com Williams em número de vitórias está o britânico John Barry (1933, 2011), com 5 Oscars. Barry trouxe uma sensibilidade romântica e jazzística única, eternizada em Entre Dois Amores (1985) e Dança com Lobos (1990), além de seu trabalho icônico (embora nem sempre premiado) na franquia 007.

Jerry Goldsmith (1929, 2004), um dos compositores mais inovadores e vanguardistas (responsável por Planeta dos Macacos e Chinatown), recebeu 18 indicações, mas levou a estatueta apenas uma vez, por A Profecia (1976). A crítica especializada, incluindo a Film Comment, frequentemente aponta Goldsmith como o mestre do modernismo no cinema, cuja complexidade muitas vezes assustava os votantes mais conservadores.

Outro gigante contemporâneo, Hans Zimmer, que revolucionou a indústria ao fundir orquestra e sintetizadores, soma 12 indicações e 2 vitórias (O Rei Leão em 1994 e Duna em 2021), consolidando a transição do som melódico clássico para o design de som imersivo.

Um caso contemporâneo de “maldição” familiar recai sobre Thomas Newman (filho de Alfred). Com um estilo minimalista e texturas atmosféricas que definiram o cinema dos anos 1990 e 2000 (Beleza Americana, Um Sonho de Liberdade), Thomas acumula 15 indicações sem nenhuma vitória até o momento.

Vencedores do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original

Para compreender a evolução desta forma de arte, confira a cronologia dos vencedores do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original.
Em tempo: a categoria foi introduzida oficialmente apenas na 7ª cerimônia (1934). Antes disso, não havia premiação específica para composição original.

Década de 1930

Ao analisarmos a produção musical da década de 1930, observamos o nascimento da gramática sonora do cinema. Este período, documentado por publicações como a Cahiers du Cinéma e a Sight & Sound, marca a transição do som rudimentar para o sinfonismo europeu que definiria o padrão estadunidense de prestígio.

1934: Louis Silvers (One Night of Love)
1935: Max Steiner (O Delator)
1936: Erich Wolfgang Korngold (Anthony Adverse)
1937: Charles Previn (Cem Homens e Uma Menina)
1938: Erich Wolfgang Korngold (As Aventuras de Robin Hood)
1939: Herbert Stothart (O Mágico de Oz)

Década de 1940

A década de 1940 no cinema estadunidense e europeu representou o ápice do sistema de estúdios e, consequentemente, a consolidação da música como ferramenta de manipulação psicológica e narrativa. Ao analisarmos o decênio que vai da fantasia técnica de Pinóquio ao rigor acadêmico de A Herdeira, observamos um embate entre o romantismo tardio e as primeiras incursões do modernismo.

1940: Leigh Harline, Paul J. Smith, Ned Washington (Pinóquio)
1941: Bernard Herrmann (O Homem que Vendeu a Alma)
1942: Max Steiner (A Estranha Passageira)
1943: Alfred Newman (A Canção de Bernadette)
1944: Max Steiner (Desde que Partiste)
1945: Miklós Rózsa (Quando Fala o Coração)
1946: Hugo Friedhofer (Os Melhores Anos de Nossas Vidas)
1947: Miklós Rózsa (Mortalmente Perigosa)
1948: Brian Easdale (Os Sapatinhos Vermelhos)
1949: Aaron Copland (A Herdeira)

Década de 1950

A década de 1950 representou um período de resistência e gigantismo para o cinema estadunidense. Confrontada pela ascensão da televisão, a indústria de Hollywood refugiou-se nos grandes épicos e no CinemaScope, exigindo partituras que preenchessem não apenas as salas, mas a alma de um público ávido por espetáculo. Analisando o decênio que transita entre o pessimismo do film noir e a glória do Technicolor, publicações como a Sight & Sound e a Cahiers du Cinéma destacam que a música nesta era deixou de ser meramente ilustrativa para se tornar arquitetural.

1950: Franz Waxman (Crepúsculo dos Deuses)
1951: Franz Waxman (Um Lugar ao Sol)
1952: Dimitri Tiomkin (Matar ou Morrer)
1953: Bronislau Kaper (Lili)
1954: Dimitri Tiomkin (Sete Noivas para Sete Irmãos)
1955: Alfred Newman (Suplício de uma Saudade)
1956: Victor Young (A Volta ao Mundo em 80 Dias)
1957: Malcolm Arnold (A Ponte do Rio Kwai)
1958: Dimitri Tiomkin (O Velho e o Mar)
1959: Miklós Rózsa (Ben-Hur)

Década de 1960

A década de 1960 foi um período de transição sísmica para a música de cinema. Enquanto o gigantismo dos épicos ainda ecoava nos primeiros anos, a metade da década trouxe a influência do jazz, do pop e de uma sensibilidade europeia mais íntima. Analisar os vencedores deste decênio é confrontar obras que definiram a identidade sonora de nações e movimentos culturais.

1960: Ernest Gold (Exodus)
1961: Henry Mancini (Bonequinha de Luxo)
1962: Maurice Jarre (Lawrence da Arábia)
1963: John Addison (As Aventuras de Tom Jones)
1964: Richard M. Sherman, Robert B. Sherman (Mary Poppins)
1965: Maurice Jarre (Doutor Jivago)
1966: John Barry (A História de Elsa)
1967: Elmer Bernstein (Positivamente Millie)
1968: John Barry (O Leão no Inverno)
1969: Burt Bacharach (Butch Cassidy)

Década de 1970

A década de 1970 é, sem dúvida, o período mais vibrante e eclético da história da música para cinema. Trata-se do decênio em que a “Nova Hollywood” permitiu que compositores transitassem entre o sinfonismo operático e a experimentação eletrônica radical. Analisar os vencedores entre 1970 e 1979 é observar o nascimento do blockbuster moderno e a agonia do melodrama clássico europeu.

1970: Francis Lai (Love Story)
1971: Michel Legrand (Houve uma Vez um Verão)
1972: Charlie Chaplin, Raymond Rasch, Larry Russell (Luzes da Ribalta) Nota: Filme de 1952, elegível apenas em 1972 devido a problemas de distribuição nos EUA.
1973: Marvin Hamlisch (Nosso Amor de Ontem)
1974: Nino Rota, Carmine Coppola (O Poderoso Chefão II)
1975: John Williams (Tubarão)
1976: Jerry Goldsmith (A Profecia)
1977: John Williams (Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança)
1978: Giorgio Moroder (O Expresso da Meia-Noite)
1979: Georges Delerue (Um Pequeno Romance)

Década de 1980

A década de 1980 representou um período de transição tecnológica e cultural sem precedentes para a música cinematográfica. Foi o decênio em que o sintetizador atingiu a maturidade emocional, a música pop se fundiu definitivamente à narrativa e os compositores globais começaram a ocupar o centro do palco estadunidense. Analisar os vencedores entre 1980 e 1989, através das lentes de publicações como The Hollywood Reporter e Sight & Sound, é observar o conflito entre o sinfonismo nostálgico e a experimentação multicultural.

1980: Michael Gore (Fama)
1981: Vangelis (Carruagens de Fogo)
1982: John Williams (E.T.: O Extraterrestre)
1983: Bill Conti (Os Eleitos)
1984: Maurice Jarre (Passagem para a Índia)
1985: John Barry (Entre Dois Amores)
1986: Herbie Hancock (Por Volta da Meia-Noite)
1987: Ryuichi Sakamoto, David Byrne, Cong Su (O Último Imperador)
1988: Dave Grusin (O Milagro de Milagro)
1989: Alan Menken (A Pequena Sereia)

Década de 1990

A década de 1990 marcou o que muitos analistas do The Hollywood Reporter e da Variety chamam de o “último grande fôlego” do sinfonismo romântico e melódico antes da ascensão da era digital e do design de som contemporâneo. Foi um decênio onde a trilha sonora reassumiu seu status de blockbuster, vendendo milhões de cópias físicas em CD e dominando as paradas de sucesso. Analisar os vencedores entre 1990 e 1999 é confrontar obras que se tornaram fenômenos culturais globais, mas que também elevaram o rigor técnico da composição cinematográfica.

1990: John Barry (Dança com Lobos)
1991: Alan Menken (A Bela e a Fera)
1992: Alan Menken (Aladdin)
1993: John Williams (A Lista de Schindler)
1994: Hans Zimmer (O Rei Leão)
1995: Luis Bacalov (O Carteiro e o Poeta)
1996: Gabriel Yared (O Paciente Inglês)
1997: James Horner (Titanic)
1998: Nicola Piovani (A Vida é Bela)
1999: John Corigliano (O Violino Vermelho)

Década de 2000

A primeira década do século XXI representou um período de transição fascinante para a música cinematográfica, marcado pelo embate entre o retorno das grandes sinfonias temáticas e a ascensão do minimalismo intimista.

2000: Tan Dun (O Tigre e o Dragão)
2001: Howard Shore (O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel)
2002: Elliot Goldenthal (Frida)
2003: Howard Shore (O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei)
2004: Jan A. P. Kaczmarek (Em Busca da Terra do Nunca)
2005: Gustavo Santaolalla (O Segredo de Brokeback Mountain)
2006: Gustavo Santaolalla (Babel)
2007: Dario Marianelli (Desejo e Reparação)
2008: A.R. Rahman (Quem Quer Ser um Milionário?)
2009: Michael Giacchino (Up: Altas Aventuras)

Década de 2010

A década de 2010 representou o período de maior experimentação e ruptura na história recente da música cinematográfica. Foi o decênio em que as fronteiras entre a trilha sonora e o design de som foram definitivamente derrubadas, permitindo que texturas industriais, sintetizadores experimentais e silêncios digitais ocupassem o espaço anteriormente reservado às orquestras.

2010: Trent Reznor, Atticus Ross (A Rede Social)
2011: Ludovic Bource (O Artista)
2012: Mychael Danna (As Aventuras de Pi)
2013: Steven Price (Gravidade)
2014: Alexandre Desplat (O Grande Hotel Budapeste)
2015: Ennio Morricone (Os Oito Odiados)
2016: Justin Hurwitz (La La Land)
2017: Alexandre Desplat (A Forma da Água)
2018: Ludwig Göransson (Pantera Negra)
2019: Hildur Guðnadóttir (Coringa)

Década de 2020 (até o momento)

2020/21: Trent Reznor, Atticus Ross, Jon Batiste (Soul)
2021: Hans Zimmer (Duna)
2022: Volker Bertelmann (Nada de Novo no Front)
2023: Ludwig Göransson (Oppenheimer)
2024: Daniel Blumberg (O Brutalista)

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