A Unidos da Tijuca fechou os desfiles do Grupo Especial na Marquês de Sapucaí, na segunda-feira de Carnaval, dia 16 de fevereiro, com uma oportuna homenagem a uma das maiores vozes da literatura brasileira: Carolina Maria de Jesus.
Sob a batuta do carnavalesco Edson Pereira, a agremiação do Morro do Borel apresentou o enredo que levou o nome da escritora, propondo uma reinterpretação de sua vida que foi muito além da narrativa da miséria, destacando sua potência artística e as nuances de sua ascensão e declínio social.
A escola de samba optou por uma narrativa biográfica e cronológica, começando pela infância de Carolina em Sacramento, Minas Gerais. A comissão de frente e as primeiras alas trouxeram a figura de Bitita, apelido de infância da autora, ressaltando seus primeiros contatos com as letras e o sonho de ascensão através do conhecimento.

O desenvolvimento do desfile na Avenida transportou o público para a São Paulo de meados do século XX. As alegorias retrataram a Favela do Canindé não apenas como cenário de pobreza, mas como o laboratório de observação onde a catadora de papel transformava a realidade dura em denúncia.
O ponto de virada do desfile, no entanto, foi a representação da saída da favela e a chegada à tão sonhada casa de alvenaria, um momento de glória que a escola retratou com opulência, mas também com a crítica social necessária sobre o que viria a seguir.
A Ascensão Meteórica e o Confronto com a Elite

Nascida em 14 de março de 1914, neta de escravizados e filha de mãe lavadeira, Carolina frequentou a escola por apenas dois anos. Em 1947, se mudou para a Favela do Canindé, em São Paulo, onde trabalhou como catadora para sustentar três filhos e registrava seu cotidiano em cadernos encontrados no lixo.
A descoberta pelo repórter Audálio Dantas, em 1958, culminou no lançamento de Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada em 1960. A obra tornou-se um best-seller instantâneo, vendendo mais de 100 mil exemplares em meses e sendo traduzida para dezenas de idiomas. O sucesso editorial trouxe um reconhecimento financeiro imediato e vertiginoso.
Com os direitos autorais, Carolina realizou seu maior desejo: comprou uma casa de dois andares no bairro de Santana, na Zona Norte de São Paulo, reduto da classe média na época. Pela primeira vez, pôde desfrutar de conforto material, viajar para o exterior e vestir seus filhos adequadamente. Contudo, essa fase foi marcada por turbulências.

A escritora enfrentou a hostilidade e o racismo da vizinhança de classe média, que a via como um corpo estranho naquele espaço. Simultaneamente, o mercado editorial e a crítica da época, que haviam consumido vorazmente o relato da miséria, rejeitaram a Carolina intelectualizada que tentava publicar romances e poesias. O interesse público despencou quando ela deixou de ser a favelada exótica para se tornar a escritora de Santana.
Além do boicote velado do mercado, Carolina lidou com a má gestão financeira e contratos desvantajosos. Generosa, ajudava muitos que a procuravam, o que, somado ao alto custo de vida e à falta de educação financeira formal, dilapidou seus recursos.
Sentindo-se deslocada e com o dinheiro escasseando, Carolina tomou uma decisão drástica no final da década de 1960. Vendeu a casa de Santana e mudou-se para um sítio em Parelheiros, no extremo sul de São Paulo.
Lá, viveu seus últimos anos de forma modesta, plantando para comer e longe dos holofotes, falecendo em 1977. Ela morreu longe da miséria absoluta do Canindé, mas sem a fortuna que seu sucesso global poderia sugerir, vítima de um sistema que não aceitava sua permanência no topo.
Obra Literária e Legado Musical

A Tijuca fez questão de lembrar que Carolina não foi autora de um livro só. Além de Quarto de Despejo (1960) e Casa de Alvenaria (1961), publicou Pedaços da Fome (1963) e Provérbios (1963). Postumamente, sua obra foi ampliada com Diário de Bitita (1986), Meu Estranho Diário (1996) e Antologia Pessoal (1996).
O desfile também celebrou a faceta musical da artista. Em 1961, Carolina gravou um LP com composições próprias, revelando seu talento para o samba, aspecto que a escola explorou para reafirmar sua identidade plural.
A apresentação da Unidos da Tijuca em 2026 entra para a história como um ato de reparação, celebrando Carolina Maria de Jesus em sua totalidade: a mulher que venceu a fome, a escritora que desafiou o cânone, e a artista que enfrentou o preço alto de sonhar em um país desigual.
Filme sobre Carolina Maria de Jesus

Com direção do cineasta Jeferson De (M8 – Quando a Morte Socorre a Vida e Doutor Gama), o longa “Carolina – Quarto de Despejo” promete. O filme não apenas adapta o best-seller homônimo de 1960, mas propõe uma releitura estética e intelectual da trajetória da escritora que, da Favela do Canindé, projetou sua voz para mais de 40 países.
A atriz e produtora Maria Gal assume o desafio de interpretar a protagonista, em uma performance que exigiu uma transformação física radical e um mergulho profundo na psique da autora.
Gal, que também assina a produção através da Move Maria (ao lado da Raccord Produções, Buda Filmes e coprodução da Globo Filmes), busca desconstruir a imagem cristalizada da “escritora da fome”.
A narrativa, roteirizada por Maíra Oliveira, pretende iluminar as facetas frequentemente sombreadas pela crítica hegemônica: a Carolina vaidosa, a intelectual sofisticada, a compositora e a mulher que, apesar da precariedade material, exercia uma curadoria estética e política sobre sua própria existência.
A produção utilizou tecnologia de ponta nos estúdios Quanta Rio, empregando painéis de LED para recriar a atmosfera da extinta Favela do Canindé dos anos 1950. Essa escolha técnica não é meramente logística, mas semiótica: utiliza-se a modernidade do cinema digital para revisitar o passado, sugerindo que a favela de Carolina não é um “lugar exótico”, mas um complexo urbano pulsante e visualmente rico.
O figurino torna-se um elemento narrativo central. O icônico lenço na cabeça, que se tornou o símbolo visual de Carolina Maria de Jesus, é tratado não como um acessório de submissão, mas como uma coroa de tecido, um marcador de identidade que dialoga com as amarrações de matriz africana.
O filme deve explorar o contraste entre os trapos do “quarto de despejo” (a favela) e a elegância almejada na “sala de visita” (a cidade de São Paulo), questionando como a indumentária opera como ferramenta de dignidade em corpos marginalizados.
Além de Maria Gal, o elenco conta com Fábio Assunção, Raphael Logam, Clayton Nascimento, Liza Del Dala, Carla Cristina Cardoso e Ju Colombo. A presença de Vera Eunice, filha da escritora e guardiã de seu legado, atuando como consultora e realizando uma participação especial, confere à obra um selo de autenticidade irrefutável.
A distribuição ficará a cargo da Elo Studios. Ainda que a data de estreia oficial não tenha sido fixada, a expectativa é que Carolina – Quarto de Despejo percorra o circuito de festivais internacionais.
