Muito antes de a duquesa estadunidense Meghan Markle reacender debates sobre raça e realeza nas mídias globais, a verdadeira diversidade já estava incrustada no mais alto escalão da nobreza, seja através de linhagens comprovadas ou de debates históricos que desafiam a iconografia oficial.

Um dos casos que mais gera fascínio na historiografia moderna é o da Rainha Charlotte Sophia, esposa do Rei George III do Reino Unido. A teoria defendida pelo historiador Mario de Valdes y Cocom sugere que a monarca descendia de um ramo negro da família real portuguesa, especificamente de Margarida de Castro e Souza.

A grande prova visual desse debate repousa na arte. Enquanto muitos pintores reais suavizavam os traços da rainha para adequá-la aos padrões de branquitude da época, o pintor escocês Allan Ramsay, conhecido por suas visões abolicionistas, retratou Charlotte com feições mais próximas ao real em 1761.

Contemporâneos, como o escritor Horace Walpole, chegaram a fazer descrições preconceituosas sobre as narinas e os lábios da rainha, o que hoje serve como indício de sua herança multirracial, um tema que ganhou força global graças a série da Netflix “Bridgerton’.
Já no Renascimento italiano, a presença negra no poder é um fato histórico incontestável. O governo absoluto de Florença esteve nas mãos de Alexandre de Médici, conhecido como O Mouro. Ele foi o primeiro Duque de Florença e o último governante do ramo principal de sua poderosa família.

Reconhecido como filho do Papa Clemente VII com uma mulher de ascendência africana chamada Simonetta da Collevecchio, Alexandre assumiu o governo aos 19 anos em 1530.
Seu casamento oficial com Margarida de Parma, filha do Imperador Carlos V, selou sua posição no topo da hierarquia geopolítica. Apesar de seu assassinato precoce aos 26 anos, sua linhagem de sangue perpetuou na alta nobreza, com retratos de mestres como Pontormo registrando fielmente suas feições.

O Império Russo do século 18 contou com a figura de Abraham Gannibal. Sequestrado na África, ele foi levado à corte do Czar Pedro, o Grande, que passou a ser seu “padrinho” e garantiu uma educação de elite que culminou com a elevação de Hannibal ao posto de General e membro da nobreza hereditária russa.
Seu legado cultural é imensurável, pois ele é bisavô de Alexander Pushkin, o maior poeta da literatura russa, que sempre celebrou abertamente sua herança africana.

Um fenômeno similar ocorreu na corte sueca com Adolf Ludvig Gustav Fredrik Badin. Originalmente escravizado, ele foi entregue à Rainha Luísa Ulrica da Suécia. Criado como um filho adotivo ao lado dos príncipes reais, Badin cresceu e se tornou um intelectual respeitado e um oficial da corte, recebendo títulos de nobreza e integrando a elite do país.

Na Inglaterra da Era Vitoriana, a princesa iorubá Sara Forbes Bonetta protagonizou uma das trajetórias mais notáveis do século 19.
Nascida Omoba Aina e resgatada de um sacrifício no Reino de Daomé, ela foi apresentada à Rainha Vitória. A monarca ficou tão impressionada com a inteligência e a postura régia da jovem que assumiu sua educação e a transformou em sua afilhada e protegida.
O ápice de sua influência visual e social ocorreu em seu casamento em 1862 com o empresário James Pinson Labulo Davies. Sara subiu ao altar vestindo o mais requintado traje vitoriano patrocinado pela própria rainha, acompanhada por um cortejo de damas de honra aristocratas (brancas), quebrando paradigmas estéticos e sociais da época. O evento parou as ruas e foi amplamente coberto pela imprensa.
Sarah e James tiveram uma filha, a quem batizaram de Victoria Davies. A Rainha Vitória, mantendo a tradição, tornou-se madrinha da menina também, garantindo que a conexão entre a monarquia e essa linhagem africana continuasse.

Com uma saúde fragilizada pelo clima britânico, Sarah faleceu aos 37 anos, de tuberculose, na Ilha da Madeira (Portugal), para onde havia viajado em busca de ares mais quentes.
Hoje, a figura de Sarah é frequentemente resgatada para mostrar que a Londres vitoriana não era exclusivamente branca e que havia figuras negras circulando nas mais altas esferas do poder e do luxo europeu. Seus descendentes continuam proeminentes, dividindo-se entre a elite da Nigéria e do Reino Unido.
