Esqueça a seda italiana ou o corte impecável da alfaiataria britânica. O acessório mais onipresente nas vitrines sociais — e o preferido da classe média que se acha “consciente” — é a alienação.
Sim, meus caros: ser alienado virou o novo preto. É aquela escolha segura, que combina com tudo, não amassa a alma e, melhor ainda, protege contra qualquer respingo inconveniente de realidade.
Mas a pergunta que realmente importa não é se ela está na moda. É outra: as pessoas gostam de ser alienadas?

Viver no Brasil em 2026 e manter a sanidade exige um tipo de malabarismo ético que nem o melhor figurinista de Hollywood conseguiria sustentar por muito tempo.
Diante de um cenário social complexo e, muitas vezes, sufocante, a Indústria Cultural oferece uma solução elegante: anestesia em doses contínuas, embalada como entretenimento.
Como já apontaram alguns dos grandes “estilistas” da sociologia, a lógica não é exatamente produzir cultura — mas facilitar o consumo dela.
Tudo vem pronto, digerido, confortável.
Sem atrito. Sem esforço. Sem necessidade de reflexão.

O alienado moderno não é desinformado. Ele está apenas… bem entretido.
Consome o reality show da vez no celular de última geração enquanto decisões reais acontecem longe demais do feed para gerar notificação.
O mundo, para ele, vira um fluxo contínuo de estímulos leves — onde o conflito só é permitido quando é roteirizado, editado e, de preferência, patrocinado.
Nada ilustra melhor esse fenômeno do que o recente surto em torno do suposto “demônio” na estampa da nova camisa da Seleção Brasileira. É quase uma obra-prima involuntária.
Enquanto uma marca estrangeira redesenha símbolos nacionais e transforma identidade em produto premium, o debate público se desloca para… Exorcismo em poliéster.
No lugar de questionamento, temos interpretação mística. No lugar de análise, projeção. E, no fim, é só engajamento gratuito.
“A alienação é a felicidade de quem terceirizou a consciência para o algoritmo.”

É mais confortável enxergar um símbolo oculto em uma estampa do que perceber as dinâmicas reais que moldam o que vestimos, consumimos e desejamos. A leitura sobrenatural exige imaginação. A leitura crítica exige desconforto. E entre os dois, a escolha costuma ser bastante previsível.
Existe uma estética na alienação. Ela oferece pertencimento, alívio e uma sensação de coerência em um mundo confuso. Funciona como uma jaula bem decorada: limita, mas tranquiliza.
Ser consciente, por outro lado, cobra um preço. Exige atenção, questionamento e, principalmente, a disposição de lidar com contradições. Nem sempre é bonito. Nem sempre é confortável. Mas é real.

Talvez por isso a alienação seja tão sedutora. Ela permite manter hábitos, crenças e consumos sem grandes conflitos internos. Transforma complexidade em narrativa simples. E entrega um roteiro onde tudo parece fazer sentido — ainda que superficialmente.
Há também um componente curioso: muitas vezes, o sujeito percebe que algo não encaixa perfeitamente… Porém, ele segue mesmo assim. Não por ignorância, mas por conveniência. É mais fácil continuar performando normalidade do que encarar o desconforto de questionar o próprio papel nesse sistema.
Seguir o fluxo tem suas vantagens. Evita atritos, preserva relações e garante que você nunca seja o “incômodo” da mesa.
Afinal, se todos estão vendo sinais extraordinários nas superfícies mais banais, talvez seja mais simples concordar — ou, no mínimo, não interromper o espetáculo.

No MONDO MODA de 2026 acreditamos que cruzar moda, cultura e crítica social não é apenas uma escolha estética. É uma forma de resistência. Se a alienação virou o novo preto, talvez o papel de quem observa seja justamente introduzir uma cor que não combina. Que quebra. Que incomoda. Que obriga a olhar de novo.
Porque existe uma felicidade muito bem apresentada por aí. Fotogênica, compartilhável, perfeitamente alinhada com o algoritmo. Mas, muitas vezes, ela depende de uma coisa simples: não olhar com muita atenção.
No fim das contas, talvez a pergunta inicial precise ser ajustada. Não é se as pessoas gostam de ser alienadas. Isso, em certa medida, já está respondido.
A questão mais interessante é outra: “até quando vale a pena continuar vestindo esse conforto — sabendo que ele foi desenhado por outra pessoa?
