‘Dener – O Luxo’ é a melhor ‘pior autobiografia’ sobre a moda brasileira

Dener - O Luxo (edições de 2007 e 1972)
Dener – O Luxo (edições de 2007 e 1972)

Acabei de reler a melhor ‘pior autobiografia sobre a moda brasileira’ dos últimos anos: Dener – O Luxo.

Reedição do livro escrito originalmente em 1972, o livro de Dener Pamplona de Abreu é um registro de um personagem criado pelo costureiro mais famoso do Brasil nas décadas de 60 e 70. Na época, ninguém falava estilista e ainda confundia ‘Roupa Sob Medida’ com ‘Alta Costura’ – que, saiba, nunca existiu no Brasil, pois é um termo criado e protegido pela Chambre Syndicale de la Haute Couture para a criação de roupas  produzidas com uma lista de normas e regras na cidade de Paris!

Dener e suas 'manequins' - como eram conhecidas as modelos na época @ Foto Divulgação
Dener e suas ‘manequins’ – como eram conhecidas as modelos na época @ Foto Divulgação

Além de costureiro, Dener se autodenominava ‘figurinista’, que também é uma palavra incorreta, pois este é um profissional que trabalha com figurinos – trajes de personagens de uma obra de ficção, como cinema, televisão, teatro, ópera, entre outros. Que, não era o caso do mesmo.

Enfim… Na introdução da obra, o autor (o próprio Dener) já avisa que o relato é sobre ‘personagem’ Dener.

Primeiro ponto favorável da obra: ele realmente não mentiu. É uma biografia de um personagem nascido no Recife, com mãe – rica – criada na Inglaterra, que foi aluna de Ana Pavlova e pai – classe média – filho de médicos.

Dener e seus croquis @ Foto Divulgação
Dener e seus croquis @ Foto Divulgação

Quando a família perde todo o dinheiro, graças as extravagâncias do avô materno, eles se mudam para uma pensão em Copacabana, no Rio. Na escola, ele era a vedette, ou seja, o ‘popular’. Fazia o que bem queria, sem se preocupar em respeitar qualquer norma ou disciplina. Segundo o mesmo, nem a Primeira-Comunhão ele quis que fosse do jeito convencional e, acabou fazendo sozinho – sem cerimônia.

Aos oito anos, por influência do cinema, desenha modelos para estrelas, como Green Garson, Betty Grabler, Heddy Lamar e Maria Montez. Ele colava a cabeça recortada e fazia o vestido.

Quando a mãe sai da Panair, aos 13 anos, Dener é obrigado a arrumar um emprego. No caminho, o ônibus quebra e seus desenhos são vistos por Cândida Fiala, diretora da Casa Canadá – a mais importante loja de roupas no Rio de Janeiro, fundada em 1944. Ele foi contratado e ganharia o dobro que sua mãe. Sua primeira cliente foi Sarah Kubitschek, ou seja, a esposa do presidente da república. Se isto foi verdade ou não, hoje, seria impossível saber.

Dener em seu ateliê @ Foto Divulgação
Dener em seu ateliê @ Foto Divulgação

De qualquer forma, segue por aí, o longo conto de fadas, escrito com toda a afetação possível que se esperava de um profissional que trabalhava com moda naquela época. Piora em saber que, hoje, esta caricatura do gay continua sendo a preferida pela maioria das pessoas – vide o sucesso dos personagens Félix e Crô nas recentes novelas globais.

Além disto, o livro faz um desfile de nomes de milionárias paulistas  e americanas, esposas de políticos, estrelas de Hollywood, como Vivien Leigh, que são mencionados sem o menor pudor de parecer arrogante ou fora de contexto. Muito pelo contrário, durante 160 páginas, Dener faz questão de parecer uma figura irreal. Quase o sonho de todo jovem criador de moda.

Dener e uma de suas criações
Dener e uma de suas criações

Seu mundo de luxo e elegância nos anos 60 e 70 eram regados com fartas doses de futilidade e alienação – o auge acontece no momento que os militares derrubam João Goulart por um golpe de estado e os ricos acreditavam que o Brasil se tornaria Comunista. Segundo Dener, sua preocupação era saber se teríamos que usar uniformes cinzas. Pior: qual vestido Maria Teresa Goulart quando fosse exilada?

Maria Teresa Goulart veste Dener @ Foto Divulgação
Maria Teresa Goulart veste Dener @ Foto Divulgação

Juro que é verdade! É tamanho o desfile de bobagens, que o principal tema do livro, que seria ‘moda’, é citada apenas quando lemos quando ele se classifica como o Maior Costureiro do Brasil ou fala mal de todo mundo – em especial de Clodovil. Também não poupa Pierre Balmain, Yves Saint Laurent (que ele não aceitou trabalhar em sua Maison, quando o mesmo foi para o exército) e Emilio Pucci. Seus únicos elogios foram para Balenciaga, Valentino, Chanel e Dior.

Uma vez que ele não consegue sair do personagem que criou, sua vida privada é praticamente descartada. Rapidamente, ele cita a ‘ajuda’ do barão de Neuville, que pagou os estudos nas melhores casas da Europa e de um filho de marajá, poucos anos mais velhos, que queria a todo custo o levar para sua terra. Com a ‘ajuda’ deste, viajou muito e ganhou diversos casacos de Vison.

Carlito Maia e Dener @ Foto Divulgação
Carlito Maia e Dener @ Foto Divulgação

Lá no final, rapidamente, ele comenta sobre seu curto casamento com Maria Stella Splendore. Segundo ele, já começou mal na lua-de-mel pelos diferentes desejos que ambos tinham em relação a viagem à Paris. Enquanto ele queria assistir Callas no Ópera, ela se interessou em ver Elis se apresentar no Olympia. Neste momento, ele soube que o casamento não daria certo!

No final das contas, eu me pergunto se não estou exigindo demais de uma pessoa que viveu tantos anos na pele de um ‘personagem’, que, segundo o mesmo, era rico, popular e… Um Luxo!

Será que, no momento que escrevia o livro, ele se perguntou: ‘será que este personagem que criei tinha alma?’

Plus: Semana passada, ganhei a bonita reedição lançada em 2007 pela Cosac Naify, que se juntou a raríssima edição original, que ganhei em 2011 – ambas presenteadas por pessoas muito especiais, Ana Paula Barros e Huguette Gallo.

(Artigo Jorge Marcelo Oliveira)