O gênero do terror ocupa um lugar singular na história da arte e da cultura. Mais do que provocar sustos, ele traduz ansiedades coletivas, questiona tabus e revela os medos mais profundos da humanidade. Desde a literatura gótica do século XIX até as séries contemporâneas de streaming, o terror se reinventa constantemente, mantendo-se relevante e fascinante.
Além de entretenimento do susto, o gênero é na verdade um dos mais poderosos espelhos da sociedade. De clássicos como Psicose (1960) e O Exorcista (1973) até fenômenos contemporâneos como Stranger Things, The Walking Dead e It: Bem-Vindos a Derry, o terror traduz ansiedades coletivas, questiona tabus e molda a cultura pop global.

Como a Psicanálise enxerga as obras de terror
A psicanálise, desde Freud e Lacan, oferece ferramentas para compreender o impacto do terror, enquanto pensadores contemporâneos como Noël Carroll e Carol Clover ampliam a discussão para o campo da filosofia e dos estudos culturais.
Freud e o “Estranho” (Das Unheimliche)
Em O Estranho (1919), Freud descreve o terror como a experiência do familiar que se torna inquietante. Monstros, casas assombradas e duplos (doppelgängers) são manifestações do retorno do reprimido — conteúdos inconscientes que emergem sob forma perturbadora. Obras como Frankenstein (Mary Shelley) e Drácula (Bram Stoker) exemplificam esse mecanismo: a criatura e o vampiro são figuras familiares (vida, desejo, sexualidade) que se tornam ameaçadoras.

Lacan e o Real do Horror
Lacan amplia a leitura ao introduzir o conceito de Real: aquilo que escapa à simbolização. O terror, nesse sentido, é a irrupção do Real na narrativa — o momento em que o simbólico falha e o espectador confronta o impossível. Filmes como O Exorcista (1973) ou Hereditário (2018) encarnam essa lógica: o horror não está apenas no monstro, mas na falha da linguagem e da ordem simbólica diante do trauma. O Mundo Invertido de Stranger Things pode ser lido como metáfora lacaniana: um espaço onde o Real invade o cotidiano, revelando o que deveria permanecer oculto.
Noël Carroll e a Filosofia do Horror
Em The Philosophy of Horror (1990), Carroll argumenta que o fascínio pelo terror reside na figura do monstruoso, que viola categorias naturais. O monstro é simultaneamente repulsivo e atraente: provoca medo, mas também curiosidade. Carroll destaca que o terror é uma narrativa de descoberta: o público acompanha a revelação da natureza do monstro e sua ameaça. Exemplos: Nosferatu (1922) e Alien (1979) — ambos apresentam criaturas que desafiam fronteiras entre humano e inumano, natural e sobrenatural.
Carol Clover e a Dimensão de Gênero
Em Men, Women, and Chainsaws (1992), Clover analisa os filmes “slasher” e introduz o conceito da final girl — a sobrevivente feminina que enfrenta o assassino. Essa figura revela mudanças sociais: a mulher deixa de ser apenas vítima e assume papel ativo na narrativa. Filmes como Halloween (1978) e A Hora do Pesadelo (1984) exemplificam essa dinâmica. Clover mostra como o terror é também campo de disputa cultural sobre gênero, poder e identidade.
O fascínio pelo terror não se limita ao susto. Ele é uma linguagem complexa que articula inconsciente, filosofia e cultura. De Frankenstein a Stranger Things, passando por Nosferatu, O Exorcista e Halloween, o gênero revela como o medo pode ser transformado em narrativa, crítica social e arte. Ao conectar Freud, Lacan, Carroll e Clover, compreendemos que o terror é um espelho multifacetado: ele mostra tanto os monstros internos quanto os dilemas coletivos, reafirmando-se como uma das formas mais poderosas de expressão cultural.
Como a Sociologia enxerga as obras de terror
A sociologia entende o terror — em livros, filmes e séries — como um espelho das ansiedades coletivas. Mais do que estórias de monstros e sustos, o gênero revela tensões sociais, crises históricas e dilemas culturais. Ao analisar obras de Mary Shelley, Edgar Allan Poe, Bram Stoker, Stephen King e produções audiovisuais como Nosferatu, The Walking Dead e Stranger Things, a sociologia mostra como o terror traduz medos compartilhados e funciona como crítica social.
O terror como reflexo social
• Medos coletivos: O gênero dramatiza ameaças que variam conforme o contexto histórico — epidemias, guerras, crises econômicas.
• Tabus e moralidade: Vampiros, zumbis e monstros simbolizam medos ligados à sexualidade, à alteridade e à desintegração social.
• Controle social: O terror expõe mecanismos de disciplina e poder, mostrando como sociedades lidam com o “outro” e com o caos.
Exemplos literários e cinematográficos
• Mary Shelley – Frankenstein: O monstro representa o medo da ciência sem limites e da exclusão social.
• Bram Stoker – Drácula: O vampiro encarna ansiedades sobre imigração, sexualidade e decadência da aristocracia.
• Stephen King – It: Pennywise simboliza traumas coletivos e a corrupção escondida sob a aparência de normalidade.
• Nosferatu (1922): Reflete o medo da alteridade e da peste, em um contexto pós-Primeira Guerra Mundial.
• The Walking Dead: Zumbis funcionam como metáfora para crises sociais, mostrando dilemas éticos em sociedades colapsadas.
• Stranger Things: O Mundo Invertido pode ser lido como metáfora das tensões políticas da Guerra Fria e dos traumas coletivos.
Perspectivas sociológicas
• Émile Durkheim: O terror pode ser visto como ritual coletivo, reforçando valores sociais ao dramatizar o caos e a ordem.
• Max Weber: O gênero revela tensões entre racionalidade moderna e irrupção do irracional.
• Zygmunt Bauman: Em Medo Líquido, Bauman mostra como sociedades contemporâneas vivem em constante insegurança — o terror dramatiza essa condição.
• Stuart Hall: O terror pode ser analisado como discurso cultural, revelando representações de raça, gênero e classe.
Impacto na cultura pop
• Halloween globalizado: O terror transformou-se em evento cultural, espalhando-se para além dos EUA.
• Ícones culturais: Freddy Krueger, Michael Myers e Drácula tornaram-se símbolos reconhecidos mundialmente.
• Crítica social: Filmes como Corra! (Jordan Peele, 2017) usam o terror para discutir racismo estrutural.
A sociologia mostra que o terror é uma linguagem cultural que traduz medos coletivos e revela tensões sociais. Ao longo da história, o gênero se reinventou para refletir crises e ansiedades de cada época. De Frankenstein a Stranger Things, o terror continua a ser um espaço privilegiado para compreender como sociedades lidam com o medo, a alteridade e a fragilidade da ordem social.
Linha Evolutiva do Terror
Século XIX – O medo da ciência e do desconhecido
• Obras: Frankenstein (1818, Mary Shelley), Drácula (1897, Bram Stoker).
• Medos da época: avanços científicos, industrialização, choque entre fé e razão.
• Impacto: Criaram arquétipos duradouros (monstro, vampiro) e inauguraram o terror moderno.
Décadas de 1920–1930 – O medo da modernidade
• Obras: Nosferatu (1922), Drácula (1931), Frankenstein (1931).
• Medos da época: guerras, crise econômica, ascensão do cinema como mídia de massa.
• Impacto: Monstros clássicos da Universal se tornaram ícones culturais.
Décadas de 1950–1960 – O medo da Guerra Fria e da mente humana
• Obras: Psicose (1960), Village of the Damned (1960).
• Medos da época: paranoia nuclear, alienígenas, repressão psicológica.
• Impacto: Hitchcock redefine o terror psicológico; surgem filmes sobre invasões e mutações.
Décadas de 1970 – O medo religioso e apocalíptico
• Obras: O Exorcista (1973), O Bebê de Rosemary (1968), A Profecia (1976).
• Medos da época: satanismo, fim dos tempos, crise de fé.
• Impacto: O terror sobrenatural domina, refletindo ansiedades espirituais e sociais.
Décadas de 1980 – O medo do corpo e da tecnologia
• Obras: Halloween (1978), A Hora do Pesadelo (1984), A Mosca (1986).
• Medos da época: serial killers, pesadelos, mutações científicas.
• Impacto: Popularização do slasher e do horror corporal.
Décadas de 1990–2000 – O medo da mídia e da globalização
• Obras: A Bruxa de Blair (1999), Ringu (1998, Japão), Os Outros (2001, Espanha).
• Medos da época: tecnologia, isolamento, choque cultural.
• Impacto: Found footage e J-horror renovam o gênero; Europa traz suspense psicológico sofisticado.
Décadas de 2010–2020 – O medo social e psicológico
• Obras: Corra! (2017), Hereditário (2018), Les Revenants (2012, França), Dark (2017, Alemanha).
• Medos da época: racismo, luto, traumas familiares, crises existenciais.
• Impacto: Surge o “terror elevado”, misturando crítica social e horror psicológico.
Década de 2020 em diante – O medo do futuro e da sobrevivência
• Obras: The Last of Us (2023), From (2022), The Fall of the House of Usher (2023).
• Medos da época: pandemias, colapso ambiental, desigualdade social.
• Impacto: O terror se torna espelho direto das crises contemporâneas.
Livros de Terror

Os principais livros de terror incluem clássicos como Frankenstein (Mary Shelley), Drácula (Bram Stoker), os contos de Edgar Allan Poe, O Iluminado (Stephen King), O Exorcista (William Peter Blatty) e A Assombração da Casa da Colina (Shirley Jackson). Essas obras moldaram o gênero e influenciaram tanto a literatura quanto o cinema.
Clássicos Fundamentais
• Frankenstein (1818) – Mary Shelley – Considerado o primeiro grande romance de terror moderno, mistura ciência, ética e horror existencial.
• Drácula (1897) – Bram Stoker – Estabeleceu o mito do vampiro moderno e influenciou toda a cultura pop.
• Contos de Edgar Allan Poe (século XIX) – Obras como O Coração Delator e A Queda da Casa de Usher exploram obsessão, loucura e morte.
Século XX: O terror psicológico e sobrenatural
• O Iluminado (1977) – Stephen King – Mistura isolamento, alcoolismo e forças sobrenaturais em um dos romances mais influentes do gênero.
• O Cemitério (1983) – Stephen King – Explora luto e necromancia, considerado um dos livros mais perturbadores do autor.
• O Exorcista (1971) – William Peter Blatty – Inspirado em casos reais de possessão, tornou-se um marco cultural.
• O Bebê de Rosemary (1967) – Ira Levin – Aborda paranoia e satanismo em plena Nova York contemporânea.
• A Assombração da Casa da Colina (1959) – Shirley Jackson – Um dos melhores romances sobre casas mal-assombradas, referência para o gênero.
Outras obras marcantes
• Hellraiser (1986) – Clive Barker (The Hellbound Heart) – Mistura horror corporal e fantasia sombria.
• Eu Sou a Lenda (1954) – Richard Matheson – Reinterpreta o mito do vampiro em contexto pós-apocalíptico.
• Hell House (1971) – Richard Matheson) – Uma das narrativas mais intensas sobre casas mal-assombradas.
• Entrevista com o Vampiro (1976) – Anne Rice – Renovou o mito do vampiro com profundidade psicológica.
• It – A Coisa (1986) – Stephen King – Pennywise tornou-se ícone do terror moderno.
20 séries de terror

The Twilight Zone (1959–1964)
• Criador: Rod Serling
• Elenco: Vários atores convidados (William Shatner, Burgess Meredith)
• Trama: Antologia de ficção científica, fantasia e terror psicológico.
• Impacto: Introduziu crítica social em narrativas fantásticas.
• Legado: Inspirou gerações de roteiristas e várias reboots.
- Kolchak: Os Demônios da Noite (1974–1975)
• Criador: Jeff Rice (baseado em seu romance)
• Elenco: Darren McGavin
• Trama: Jornalista investiga crimes sobrenaturais.
• Impacto: Antecessora de The X-Files.
• Legado: Cult clássico da TV dos EUA.
Tales from the Crypt / Contos da Cripta (1989–1996)
• Criadores: William Gaines (quadrinhos EC Comics)
• Elenco: John Kassir (voz do Crypt Keeper)
• Trama: Antologia de terror com humor negro.
• Impacto: Popularizou o terror pulp na TV.
• Legado: Influenciou Creepshow e outras antologias.
Buffy, a Caça-Vampiro (1997–2003)
• Criador: Joss Whedon
• Elenco: Sarah Michelle Gellar, Alyson Hannigan
• Trama: Adolescente luta contra vampiros e demônios.
• Impacto: Misturou terror e empoderamento feminino.
• Legado: Série cult, referência em estudos de gênero.
Arquivo X (1993–2018)
• Criador: Chris Carter
• Elenco: David Duchovny, Gillian Anderson
• Trama: Agentes investigam fenômenos paranormais.
• Impacto: Misturou terror, ficção científica e conspiração.
• Legado: Ícone da TV dos anos 1990.
Supernatural (2005–2020)
• Criador: Eric Kripke
• Elenco: Jared Padalecki, Jensen Ackles
• Trama: Dois irmãos caçam criaturas sobrenaturais.
• Impacto: Longa duração, fandom global.
• Legado: Misturou terror com mitologia pop.
The Walking Dead (2010–2022)
• Criador: Frank Darabont (baseado em Robert Kirkman)
• Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus
• Trama: Sobreviventes em apocalipse zumbi.
• Impacto: Fenômeno cultural global.
• Legado: Redefiniu o zumbi como metáfora social.
American Horror Story (2011–presente)
• Criadores: Ryan Murphy, Brad Falchuk
• Elenco: Sarah Paulson, Evan Peters, Jessica Lange
• Trama: Antologia com temas variados (bruxas, cultos, apocalipse).
• Impacto: Revitalizou o formato de antologia.
• Legado: Influência estética e cultural no terror moderno.
Les Revenants / Os Retornados (2012–2015, França)
• Criador: Fabrice Gobert
• Elenco: Anne Consigny, Clotilde Hesme, Pierre Perrier
• Trama: Mortos retornam misteriosamente a uma cidade francesa.
• Impacto: Atmosfera melancólica, crítica social.
• Legado: Série cult europeia, influenciou adaptações internacionais.
Hannibal (2013–2015)
• Criador: Bryan Fuller
• Elenco: Mads Mikkelsen, Hugh Dancy
• Trama: Relação entre Hannibal Lecter e Will Graham.
• Impacto: Estética sofisticada, violência estilizada.
• Legado: Série cult, redefiniu o horror psicológico.
Penny Dreadful (2014–2016)
• Criador: John Logan
• Elenco: Eva Green, Josh Hartnett
• Trama: Reunião de personagens clássicos (Drácula, Frankenstein).
• Impacto: Mistura de literatura gótica e terror moderno.
• Legado: Referência estética e narrativa.
Stranger Things (2016–2025)
• Criadores: Matt e Ross Duffer
• Elenco: Millie Bobby Brown, David Harbour
• Trama: Crianças enfrentam monstros do Mundo Invertido.
• Impacto: Mistura nostalgia e horror cósmico.
• Legado: Ícone cultural global.
The Haunting of Hill House / A Maldição da Residência Hill (2018)
• Criador: Mike Flanagan
• Elenco: Victoria Pedretti, Carla Gugino
• Trama: Família assombrada por traumas e fantasmas.
• Impacto: Redefiniu o terror psicológico na TV.
• Legado: Influenciou o “terror elevado” no streaming.
The Haunting of Bly Manor / A Maldição da Mansão Bly (2020)
• Criador: Mike Flanagan
• Elenco: Victoria Pedretti, Oliver Jackson-Cohen
• Trama: Adaptação de A Volta do Parafuso.
• Impacto: Mais melancólica, foco em drama humano.
• Legado: Expandiu o universo The Haunting.
Kingdom (2019–2020, Coreia do Sul)
• Criador: Kim Eun-hee
• Elenco: Ju Ji-hoon, Bae Doona
• Trama: Zumbis em contexto histórico coreano.
• Impacto: Mistura terror e drama político.
• Legado: Internacionalizou o terror asiático.
Marianne (2019, França)
• Criador: Samuel Bodin
• Elenco: Victoire Du Bois
• Trama: Escritora descobre que seus personagens de terror são reais.
• Impacto: Terror francês contemporâneo.
• Legado: Cult no streaming.
Dark (2017–2020, Alemanha)
• Criadores: Baran bo Odar, Jantje Friese
• Elenco: Louis Hofmann, Lisa Vicari
• Trama: Mistura viagem no tempo, mistério e horror cósmico.
• Impacto: Primeira série alemã da Netflix a conquistar público global.
• Legado: Referência em narrativas complexas e atmosfera sombria.
The Fall of the House of Usher / A Queda da Casa Usher (2023)
• Criador: Mike Flanagan
• Elenco: Carla Gugino, Bruce Greenwood
• Trama: Adaptação de Edgar Allan Poe.
• Impacto: Mistura crítica social e horror gótico.
• Legado: Consolidou Flanagan como mestre do terror moderno.

The Last of Us (2023–presente)
• Criadores: Craig Mazin, Neil Druckmann
• Elenco: Pedro Pascal, Bella Ramsey
• Trama: Drama humano em apocalipse infectado.
• Impacto: Adaptação de videogame aclamada.
• Legado: Mostrou potencial narrativo de adaptações de games.
From / Origem (2022–presente)
• Criador: John Griffin
• Elenco: Harold Perrineau, Catalina Sandino Moreno
• Trama: Cidade misteriosa onde ninguém consegue sair, cercada por criaturas noturnas.
• Impacto: Mistura terror e ficção científica.
• Legado: Cult contemporâneo, comparada a Lost.


