A conclusão de Stranger Things consolidou a produção como o maior fenômeno comercial da história da Netflix, ao mesmo tempo em que revelou uma profunda divisão entre a excelência técnica e a satisfação do público.
Sob a direção e o roteiro dos Irmãos Duffer, o longo episódio final (2h30) entregou um espetáculo de proporções cinematográficas que, segundo a análise da Variety, priorizou a grandiosidade visual em detrimento de um peso emocional real.
A análise do The Hollywood Reporter reforça que a série encerrou seu ciclo fundamentada na segurança da nostalgia, evitando riscos que pudessem alienar sua base de fãs.

A Teoria de Dustin
A temporada final trouxe uma das maiores reviravoltas da mitologia da série ao revelar, por meio de Dustin, que o Mundo Invertido não era uma dimensão paralela, mas sim uma ponte espaço-temporal conectando a Terra ao Abismo, também chamado de Dimensão X.
Essa descoberta, baseada em anotações do Dr. Brenner, redefiniu tudo o que se sabia sobre o universo de Hawkins, desmontando teorias que sustentaram o suspense desde a primeira temporada.
O problema, no entanto, residiu na forma como essa revelação foi conduzida. A explicação surgiu de maneira abrupta, com Dustin encontrando um diário perdido e, em poucas cenas, desvendando mistérios que a série vinha alimentando há anos.
A ponte entre o Mundo Invertido e o Abismo é apresentada como um buraco de minhoca, mas a origem da matéria exótica que estabiliza essa conexão permaneceu vaga, sem aprofundamento científico ou simbólico.
Além disso, a série exigiu que o público compreendesse eventos explicados fora da Netflix, como na peça teatral “Stranger Things: The First Shadow”, o que gerou confusão e sensação de incompletude entre os espectadores.
A teoria de Dustin acabou funcionando mais como um dispositivo de roteiro para justificar a escalada do conflito final do que como uma resposta orgânica aos mistérios da série.
O resultado soou apressado, que sacrificou a construção gradual da mitologia em prol de uma conclusão rápida e conveniente.

Fãs questionaram, por exemplo, por que o Mundo Invertido ficou “preso no tempo” na data do desaparecimento de Will Byers, mistério que nunca foi esclarecido.
A ausência de explicações detalhadas sobre a origem da rocha infectada que possuiu Henry Creel e o funcionamento exato do Abismo reforçaram a percepção de que a série optou por atalhos narrativos em vez de desenvolver respostas consistentes.
Retcon entre o Devorador de Mentes e Vecna

Um dos pontos mais controversos da temporada foi o retcon envolvendo a relação entre Vecna (Henry Creel) e o Devorador de Mentes.
Desde sua introdução, Vecna era visto ora como um agente do Devorador de Mentes, ora como o verdadeiro cérebro por trás das ameaças do Mundo Invertido. O episódio final decidiu enfrentar essa questão, apresentando Vecna e o Devorador de Mentes como entidades em simbiose, compartilhando propósito e consciência, mas sem subordinação total.
A série revelou que Henry adquiriu seus poderes após entrar em contato com uma pedra ligada ao Devorador de Mentes, em uma cena traumática na infância, detalhada tanto na série quanto na peça teatral “The First Shadow”.
Vecna afirma que o Devorador de Mentes apenas potencializou sentimentos e crenças já existentes, funcionando como catalisador de sua visão distorcida do mundo. Essa abordagem, embora mais complexa, entra em conflito com temporadas anteriores, que sugeriam uma hierarquia clara entre as entidades.
O retcon, portanto, gerou inconsistências na mitologia da série. Fãs apontaram que a explicação sobre a simbiose entre Vecna e o Devorador de Mentes não resolveu questões como a necessidade de doze crianças para o ritual de fusão dos mundos, nem esclarece por que Vecna nunca se tornou um simples avatar da entidade.
A decisão de não aprofundar a origem da rocha infectada e de tratar a transformação de Henry em Vecna como resultado de uma infecção biológica por partículas interdimensionais foi vista como uma invenção forçada, que serviu mais para amarrar pontas soltas do que para enriquecer a narrativa.
Além disso, a série exigiu que o público aceitasse que Vecna e o Devorador de Mentes sempre foram “a mesma coisa”, ignorando pistas e construções anteriores que indicavam uma relação de dominação e manipulação.
O resultado é um retcon que, embora tente dar profundidade ao vilão, acaba por criar mais dúvidas do que respostas, evidenciando a dificuldade dos roteiristas em conciliar as diferentes camadas da mitologia de “Stranger Things”.
Invisibilidade Narrativa de Eleven e Hopper

A trajetória de Eleven (Millie Bobby Brown) e Hopper (David Harbour) sempre foi central para o desenvolvimento emocional da série. No entanto, a última temporada foi marcada por uma “invisibilidade” narrativa dos dois personagens, que ora aparecem como protagonistas, ora são convenientemente esquecidos pela trama e pelos demais personagens.
No caso de Eleven, a protagonista foi sacrificada pela carga excessiva de importância atribuída à mitologia do universo, exigindo da atriz uma dramaticidade além do que a fantasia pede (sem contar a falta de maiores talentos dramáticos para tanto). Sua presença se tornou cansativa, e a personagem foi relegada a cenas de sofrimento e sacrifício, sem espaço para desenvolvimento pessoal ou interação significativa com o grupo.
O final ambíguo, que sugeriu sua morte ou fuga graças a uma ilusão criada por Kali, reforçou a sensação de que Eleven foi “apagada” da narrativa, servindo apenas como instrumento para encerrar o ciclo de experimentos e ameaças sobrenaturais.
Hopper, por sua vez, repete o mesmo dilema de temporadas anteriores: a preocupação com Eleven e o desejo de protegê-la. A dinâmica entre os dois, que já estava saturada, não recebeu nenhum aprofundamento ou resolução significativa.
O personagem foi mantido em segundo plano, sem protagonismo nas decisões finais ou impacto real no desfecho da trama.
Essa invisibilidade narrativa foi agravada pelo fato de que, durante toda a temporada, os roteiristas evitaram mexer com os personagens queridinhos do público, criando a sensação de que todos estão seguros, independentemente do perigo que enfrentam.
O resultado foi uma narrativa que privilegiou a ação épica e a urgência dos acontecimentos, mas sacrificou o desenvolvimento dos protagonistas, tornando-os figuras quase decorativas em meio ao caos do Mundo Invertido.
O Preço da Nostalgia

Um dos aspectos mais criticados da temporada final foi o desperdício de personagens veteranos, que retornam apenas para serem subaproveitados ou eliminados sem impacto narrativo relevante.Kali (Linnea Berthelsen), a “irmã” perdida de Eleven, reapareceu como peça central para entender os planos do governo, mas sua participação na batalha final contra Vecna foi mínima, sem o protagonismo esperado.
A personagem, que poderia trazer uma nova camada de conflito e dilema moral, foi reduzida a vítima dos experimentos da Dra. Kay, servindo apenas para justificar a perseguição a Eleven.
A Dra. Kay (Linda Hamilton, você aceitou o convite para comprar uma casa de praia?), introduzida como nova antagonista humana, também foi completamente desperdiçada. Sua motivação — reiniciar o programa de Brenner usando Eleven e Kali — foi tratada de forma superficial, sem aprofundamento sobre seu passado ou relação com Brenner. A personagem saiu de cena sem despedida, e o fato de os militares simplesmente abandonarem Hawkins após perderem inúmeros soldados, sem qualquer retaliação contra os protagonistas, soou inverossímil e preguiçoso.
Outros personagens queridos, como Murray, Sr. Clarke e Erica Sinclair, não ganham destaque no desfecho, apesar de seguirem vivos e bem.
Segundo a análise do IndieWire, o desaparecimento de Vickie, namorada de Robin, é uma falha narrativa notável, especialmente após o esforço da quarta temporada e do início da quinta em estabelecer a química e a tensão romântica entre as duas.
O veículo aponta que Robin, uma das personagens mais queridas pelo público, terminou a série focada exclusivamente em seus estudos no Smith College, sem qualquer menção ao destino do namoro ou sequer uma cena de despedida entre as duas.

O portal Vulture destacou que essa escolha reforça a percepção de que os Irmãos Duffer tiveram dificuldade em equilibrar o elenco inchado da temporada final. Para a crítica, Vickie acabou servindo apenas como um acessório para o desenvolvimento individual de Robin, sendo descartada assim que a trama precisou focar nos eventos apocalípticos de Hawkins.
Em uma entrevista recente concedida à Variety após a estreia, os Irmãos Duffer admitiram que o arco de Vickie e Robin foi um dos maiores desafios da edição final. Segundo os mesmos, cenas que mostravam a resolução do namoro foram filmadas, mas removidas porque o episódio já ultrapassava as 2h30. Eles alegaram que a inclusão de Vickie “diluía a urgência” do epílogo, que precisava focar na separação do grupo principal.
A ideia era que o salto temporal de 18 meses deixasse implícito que a vida seguiu em frente. No entanto, o IndieWire criticou duramente essa justificativa, afirmando que “apagar” a única trama romântica explicitamente LGBTQ+ da temporada final soou como uma escolha covarde e desrespeitosa com o arco de autodescoberta de Robin.
O Poder de Kali (Oito) como ‘Deus Ex Machina’

Desde sua introdução na segunda temporada, Kali (Oito) foi estabelecida como a personagem capaz de criar ilusões mentais, manipulando percepções e emoções. Na temporada final, seu poder foi utilizado como recurso de “Deus Ex Machina”, especialmente na resolução do destino de Eleven.
A teoria apresentada por Mike, de que Kali teria criado uma projeção de Eleven para enganar os militares e permitir sua fuga, foi tratada como possibilidade real, mas nunca confirmada pela narrativa.
O uso do poder de Kali como solução para o dilema de Eleven foi visto como uma invenção forçada e preguiçosa. Em vez de construir uma estratégia elaborada ou explorar as consequências emocionais do sacrifício da protagonista, a série optou por uma saída fácil, baseada em poderes pouco definidos e sem limitações claras.
A ambiguidade do final, que deixou em aberto se Eleven estava viva ou morta, reforçou a sensação de covardia dos criadores, que evitaram se comprometer com a morte da protagonista por medo de decepcionar os fãs.
Além disso, a série não explicou detalhadamente como Kali fugiu do laboratório de Hawkins, nem aprofundou sua relação com Henry/Vecna.
A personagem permaneceu misteriosa, poderosa e fora do radar, funcionando mais como peça estratégica do roteiro do que como figura autônoma e complexa.
A limitação dos poderes de Kali, revelada nos experimentos fracassados da Dra. Kay, serviu apenas para justificar a necessidade de capturar Eleven, mas não contribuiu para o desenvolvimento da personagem ou para o enriquecimento da mitologia da série.
O resultado foi um recurso de “Deus Ex Machina” que, longe de surpreender ou emocionar, evidenciou a dificuldade dos roteiristas em criar soluções narrativas orgânicas e coerentes, recorrendo a poderes mal explicados para resolver conflitos complexos.
Recuperação de Max Mayfield

O destino de Max Mayfield (Sadie Sink) foi um dos mais aguardados pelos fãs após o ataque brutal de Vecna na quarta temporada. A personagem, que permaneceu em coma por quase dois anos, retornou à consciência graças à ajuda de Holly Wheeler, mas chegou ao desfecho da estória em condição física debilitada, usando cadeira de rodas e sem participar diretamente da missão final no Mundo Invertido.
A decisão narrativa de limitar o papel de Max na reta final da série foi vista como corajosa por alguns, pois transformou a personagem em símbolo das consequências reais da guerra contra o Mundo Invertido. Sua sobrevivência foi marcada por perdas, e ela se tornou peça importante no tabuleiro por conhecer os medos e fragilidades de Vecna, atuando à distância no plano final do grupo.
No entanto, a recuperação de Max foi tratada de forma apressada e pouco aprofundada. O salto temporal de 18 meses, que mostrou a personagem andando de skate e beijando Lucas, sugeriu uma superação rápida e conveniente dos traumas vividos, ignorando o impacto psicológico e físico de sua experiência.
Fãs questionaram o conteúdo das cartas de despedida de Max, escritas na quarta temporada, que nunca foram abordadas ou explicadas no desfecho.
A relação entre Max e Lucas, embora emocionante, foi retomada sem grandes conflitos ou desenvolvimento, reforçando a sensação de que a série preferiu encerrar arcos de forma otimista e superficial, em vez de explorar as consequências profundas dos eventos traumáticos.
O resultado foi uma recuperação que, embora simbólica, careceu de verossimilhança e profundidade, funcionando mais como solução preguiçosa para garantir finais felizes do que como reflexão sobre o impacto da violência e do sofrimento.
Nancy Wheeler: A ‘Rambo Feminina’

A transformação de Nancy Wheeler (Natalia Dyer) em uma espécie de “Rambo feminina” foi um dos aspectos mais discutidos da temporada final. A personagem, que sempre se destacou pela inteligência e determinação, assumiu o papel de liderança nas batalhas contra Vecna e o Devorador de Mentes, protagonizando cenas de ação e enfrentando perigos extremos.
O excesso de protagonismo, no entanto, foi visto por parte do público como artificial e desproporcional. Nancy abandonou a faculdade para trabalhar como jornalista, mas sua trajetória foi marcada por decisões impulsivas e ações heroicas que destoavam do desenvolvimento original da personagem.
A cena na qual ela serve de isca para atrair o monstro para uma montanha, enquanto os demais atacavam a criatura com armas, lanças e fogo, foi apontada como exemplo de solução forçada, que privilegiou o espetáculo em detrimento da coerência narrativa.

A relação de Nancy com Jonathan, que chegou ao fim de forma sutil e simbólica, foi elogiada por alguns críticos como retrato do amadurecimento e da necessidade de seguir caminhos distintos.
No entanto, o foco excessivo na personagem como líder da resistência e investigadora incansável criou desequilíbrio entre os núcleos, relegando outros personagens a papéis secundários ou decorativos.
O resultado foi uma personagem que, embora carismática e relevante, acabou por assumir funções que extrapolavam sua construção original, tornando-se símbolo da busca por soluções fáceis para encerrar arcos complexos.
Holly Wheeler: O Surgimento de um ‘Prodígio’

A evolução de Holly Wheeler, caçula da família Wheeler, foi uma das surpresas da última temporada. Após anos como personagem secundária, quase uma figurante, Holly assumiu papel central na reta final da série, sendo sequestrada por Vecna e encarando uma jornada perigosa ao lado de Max para escapar da mente do vilão.
A troca de atriz, com Nell Fisher assumindo o papel, foi estratégica e explicada pelos criadores como tentativa de recuperar a sensação da primeira temporada, trazendo de volta o protagonismo infantil que marcou o início da série.
Nell Fisher, de 14 anos, entregou uma atuação elogiada pela crítica e pelo público, sendo comparada a Sadie Sink pela inteligência e precocidade.
No entanto, o surgimento de Holly como “prodígio” foi visto por parte dos fãs como solução forçada e pouco fundamentada. A personagem, que antes ocupava espaço periférico, passou a tomar decisões arriscadas e a protagonizar cenas intensas, enfrentando traumas e desafios que extrapolavam sua construção original.
A redenção de Holly, ao guiar as crianças até a caverna e escapar do Camazotz, foi tratada como momento heroico, mas careceu de desenvolvimento prévio e justificativa narrativa.
A ascensão de Holly como nova líder da geração de “Dungeons & Dragons” no porão dos Wheeler simbolizou a passagem do bastão e o ciclo de renovação da infância, mas também evidenciou a tendência da série de apostar em personagens jovens como forma de manter o encanto e a magia do universo de Hawkins.
O portal Vulture observa que os Irmãos Duffer utilizaram Holly para resolver o problema do envelhecimento do elenco original. Enquanto Mike, Dustin e Lucas agora são jovens adultos prontos para a faculdade, Holly reintroduz a sensação de “maravilhamento e perigo infantil” que definiu a série em 2016.
Arco de Vecna/Henry Creel e Motivação

O aprofundamento do passado de Henry Creel (Jamie Campbell Bower) e sua transformação em Vecna foi um dos focos da temporada final, com direito a flashbacks traumáticos e revelações sobre sua ligação com o Devorador de Mentes.
A cena da caverna, com o cientista e a maleta metálica, foi apresentada como ponto de ruptura que moldou o vilão, afastando a ideia de mal puramente inato e apontando para origem marcada por violência, intervenção científica e contato com forças interdimensionais.
No entanto, a forma que isso aconteceu foi marcado por pontas soltas e contradições. A série não se preocupou em explicar detalhadamente o conteúdo da maleta, a infecção ocorrida em Nevada ou a verdadeira natureza do Devorador de Mentes, exigindo que o público aceitasse eventos apresentados fora da televisão, como na peça teatral “The First Shadow”.
A motivação de Vecna, de fundir Terra e Abismo para criar utopia sob seu controle, foi tratada de forma superficial, sem aprofundamento sobre o significado simbólico ou as consequências dessa fusão.
Fãs questionaram por que Vecna precisava especificamente de doze crianças para o ritual, mistério que nunca foi esclarecido. A relação entre Vecna e Will, que compartilham a mesma data de nascimento, também foi ignorada, apesar de potencial para redefinir a ligação psíquica entre os dois. O confronto final, embora visualmente impactante, foi resolvido de maneira rápida e pouco estratégica, com Joyce dando o golpe final ao decapitar o vilão, sem complexidade ou sacrifício esperado para um antagonista desse porte.
O resultado é um arco que, embora tente dar profundidade ao vilão, acabou por criar mais dúvidas do que respostas, evidenciando a dificuldade dos roteiristas em amarrar todas as pontas soltas da mitologia de “Stranger Things”.
Decisões Ambíguas dos Criadores

O episódio final de “Stranger Things” foi marcado por uma série de perguntas fundamentais sem resposta, deixando pontas soltas e mistérios que frustraram parte do público.
Entre os principais questionamentos estão a natureza do Mundo Invertido, o destino de criaturas como Demogorgons e Morcegos, e quem abriu a porta da casa dos Byers para o Demogorgon no primeiro episódio da franquia.
O paradeiro de figuras secundárias, como Dr. Owens, Argyle e Dmitri, também permaneceu sem resolução, assim como o envolvimento de Robin e Vickie. A ligação da série com a peça teatral “The First Shadow”, que mostrou os adultos de Hawkins estudando com Henry Creel nos anos 50, foi deixada de lado.
A decisão dos criadores de não matar personagens principais para agradar fãs foi tratada como covardia por parte do público, que esperava consequências mais dramáticas e finais menos otimistas.
Os irmãos Duffer afirmaram que nunca consideraram matar personagens apenas para satisfazer a “sede de sangue” dos fãs, preferindo focar nas consequências emocionais e no amadurecimento coletivo do grupo.
A morte de Kali, por exemplo, foi apresentada de forma ambígua, sem confirmação explícita, reforçando a tendência de evitar choques e finais trágicos.
O Abismo e a Representação Visual do Mundo Invertido

A representação visual do Mundo Invertido e do Abismo foi um dos pontos altos da temporada final, com sequências de ação grandiosas e efeitos especiais que lembravam blockbusters das telas.
A batalha final, ambientada no Abismo, foi marcada por cenas tensas e visualmente impactantes, como a explosão da bomba ao som de “Purple Rain” e a entrada de Onze no Devorador de Mentes.
No entanto, o CGI da dimensão onde ocorreu a batalha final foi criticado por parte do público como medíocre, comparável a filmes de ficção científica de baixo orçamento.
A explicação sobre a natureza do Abismo, como dimensão original de onde surgiram todas as criaturas, foi apresentada de forma rápida e pouco detalhada, gerando confusão sobre as regras e o funcionamento do universo.
A missão dos heróis de Hawkins, de impedir a colisão dimensional entre Terra e Abismo, foi tratada como campanha épica de RPG, mas careceu de complexidade estratégica e desenvolvimento emocional.
O resultado foi uma representação visual que, embora impressionante, sacrificou a clareza e a profundidade em prol do espetáculo, reforçando a percepção de que a série optou por soluções rápidas e superficiais para encerrar o conflito central.
O destino de Eleven

O desfecho de Eleven (Jane Hopper) foi descrito pela crítica internacional como uma transição da “arma de Hawkins” para um “fantasma no mundo real”.
Após o confronto épico de 2h30, sua trajetória encerra-se com um misto de sacrifício simbólico e isolamento estratégico.
Durante o clímax na caverna e a batalha dentro da mente do Devorador de Mentes, Eleven parecia ter chegado ao seu limite físico. O portal Variety detalha que, no momento da detonação que destruiu o Mundo Invertido, Eleven foi dada como morta por todos os seus amigos.
No entanto, o “plot twist” revelou que sua irmã Kali (Oito) utilizou suas últimas forças, antes de sucumbir a um tiro, para projetar uma ilusão perfeita da morte de Eleven.
Para os militares e para o governo dos EUA, Eleven deixou de existir naquela explosão. Este ato de Kali é visto pelo The Hollywood Reporter como o pagamento de uma dívida de sangue entre as “irmãs” do laboratório, garantindo que a linhagem de experimentos terminasse oficialmente aos olhos do Estado.
Após o salto temporal de 18 meses, descobrimos que Eleven não voltou para a escola com os amigos. Pelo relato de Mike, ela vive em um isolamento absoluto, residindo em uma área remota de Montauk — uma referência direta ao título original da série (Montauk Project).
O IndieWire faz uma análise provocativa sobre este final, argumentando que Eleven alcançou o amadurecimento máximo ao aceitar que sua presença em Hawkins é um ímã para o caos. Ao escolher o exílio, ela deixa de ser uma criança dependente de proteção para se tornar a guardiã silenciosa da paz dos seus amigos.
A Rolling Stone destaca o simbolismo da cena em que Eleven é vista fazendo uma trilha em uma floresta ensolarada: a iluminação clara e as cores vibrantes contrastam com o azul escuro e o cinza do Mundo Invertido que a definiram por anos. Ela finalmente está “livre”, mas o preço dessa liberdade foi o rompimento de todos os seus laços afetivos diretos, exceto por Hopper.
Entre a Nostalgia e a Frustração

A recepção crítica da temporada final foi marcada por divisão de opiniões, com parte do público elogiando o tom emocional e nostálgico do episódio final, enquanto outros criticaram o ritmo acelerado, as pontas soltas e as decisões narrativas. Comparações com o final de “Game of Thrones” foram frequentes, especialmente pela sensação de decepção e oportunidade perdida.
A temporada registrou a pior avaliação da série entre o público, com apenas 55% de aprovação, enquanto a nota dos críticos ficou em 86%, ainda positiva, mas inferior às temporadas anteriores. Parte dessa avaliação foi influenciada pelo formato de lançamento dividido em partes, dificultando leitura coesa da temporada como um todo.
Nas redes sociais, fãs expressaram frustração com o excesso de núcleos narrativos, o desperdício de personagens e a falta de resolução dos mistérios centrais. Comentários viralizaram apontando problemas de ritmo, interpretações fracas, efeitos especiais de baixa qualidade e personagens presos em cenas absurdas e mal justificadas. A ascensão de Holly como protagonista e a dinâmica desalinhada do grupo foram citadas como exemplos de soluções forçadas.
Por outro lado, muitos elogiaram a mensagem de amizade e o fechamento do ciclo de infância, destacando a cena final com a nova geração jogando “Dungeons & Dragons” no porão dos Wheeler como símbolo da passagem do bastão e da renovação do universo de Hawkins.
Spin-offs, Livros e Expansão do Universo Pós-Final

Apesar do encerramento da série principal, o universo de “Stranger Things” segue em expansão, com pelo menos dois spin-offs confirmados: uma série animada ambientada em 1985 e um novo projeto live-action com personagens e mitologia completamente novos.
A animação “Stranger Things: Tales from ’85” irá histórias inéditas entre a segunda e terceira temporada, mantendo o tom de aventura, terror e nostalgia que marcou a franquia.
O novo spin-off live-action, ainda mantido sob sigilo, promete contar história independente, sem ligação direta com os personagens principais ou com Hawkins, apostando em renovação do universo sobrenatural da série. Os criadores garantem que responderão questões pendentes e aprofundarão mitologias não exploradas na última temporada, como a origem da pedra encontrada por Henry Creel na maleta após matar o cientista na caverna.
Além das produções audiovisuais, o universo de “Stranger Things” se expande para o teatro e a literatura, com livros que aprofundam histórias de personagens como Nancy Wheeler e Robin Buckley, explorando mistérios pós-Vecna e lacunas narrativas entre as temporadas.
A expectativa é que os spin-offs e expansões tragam respostas para perguntas deixadas em aberto, mas também renovem o fôlego da franquia, evitando que futuros projetos fiquem presos a tramas anteriores ou repitam os mesmos erros narrativos.
Canção de Prince
O uso da discografia de Prince no episódio final de Stranger Things não foi apenas uma escolha estética, mas uma ferramenta narrativa que serviu para pontuar o tom de despedida e a transição da era de 1986 para o final dos anos 80.
Conforme analisado por veículos como a Rolling Stone e o The Hollywood Reporter, a trilha sonora foi dominada por grandes sucessos do artista, cada um carregando um peso simbólico diferente:
“Purple Rain”: A música mais icônica de Prince foi utilizada durante a sequência de 18 meses após a batalha final. Segundo a Variety, seu uso serviu como uma moldura emocional para o luto de Mike e a melancolia da cidade de Hawkins.
A crítica destaca que a letra sobre “querer apenas ver você na chuva púrpura” reflete perfeitamente a situação de Eleven: ela está “morta” para o mundo, mas sua essência (e os efeitos visuais do céu de Hawkins que ainda carregam tons de roxo e cinza) permanece presente na vida de quem ficou.
“Sign o’ the Times” – A música abre o episódio durante uma montagem que mostra o estado de alerta em Hawkins e os preparativos militares do Tenente Akers. Segundo o Vulture, a letra sobre um “tempo de sinais” serviu como o prenúncio perfeito para o confronto apocalíptico que estava por vir.
“Let’s Go Crazy” – A música de encerramento da série. Ela explode nos créditos finais logo após Holly Wheeler rolar os dados em sua nova campanha de Dungeons & Dragons.
O The Independent destaca que o ritmo acelerado e a letra celebrativa marcam o início da “Era Holly”, deixando o público com uma sensação de energia e renovação apesar das perdas.

Um comentário sobre “Balanço final de Stranger Things”