Quem foi a musa inspiradora da canção ‘Beatriz’ de Chico Buarque e Edu Lobo

“O médico de câmara da imperatriz Tereza – Frederico Knieps resolveu que seu filho também fosse médico, mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes, com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps de que tanto se tem ocupado a imprensa.”

Com estas palavras começa “O Grande Circo Místico”, poema surrealista de Jorge de Lima, escrito em 1938, e publicado no livro “A Túnica Inconsútil”.
O poema é inspirado na história do Circo Knie.

Em 1803, Friedrich (1784-1850), filho do médico da Imperatriz Maria Teresa da Áustria, abandonou seus estudos médicos e entrou em um circo para fundar sua própria trupe em 1806. Em 1919, a dinastia se transforma no “Circo nacional suíço dos irmãos Knie”.
Jorge de Lima, no singular poema de uma estrofe e 45 versos, mistura realidade com ficção e conta a trajetória de Frederic Knie (que no poema vira Knieps) que abandona a corte e a medicina, apaixonando-se por Agnes, uma equilibrista e começa a dinastia do “Grande Circo Místico” .
Feito o Poema, o Ballet Guaíra, do Paraná, em 1982, encomendou a Edu Lobo e a Chico Buarque a trilha musical para um espetáculo para o mesmo nome. E aí vem o impasse sobre o tema da equilibrista.

Em história de canções, Wagner Homem conta um pouco da origem da música:

“Edu Lobo revela que estavam ambos em sua casa quando sugeriu a Chico algumas ideias para o que seria a canção “Na carreira”: uma canção que fechasse o espetáculo, que era um negócio assim do público com os artistas… aquela coisa que o público tem… será que não sei o quê, será que… coisas maldosas no meio… será que aquela moça, será que aquele cara… será que… Imediatamente Chico se levantou, dizendo que iria para casa fazer a letra da valsa, que estava encalacrada. Pegando o mote do “será que”, terminou a letra de uma das mais belas canções da música popular brasileira.”

No poema de Jorge de Lima, a personagem chamava-se Agnes e era equilibrista. Apesar de achar esse nome bonito, a letra não saía. Chico decidiu trocar o nome e a profissão, e, passados alguns dias, surgiu “Beatriz”, uma homenagem à musa de Dante Alighieri.

Numa entrevista, Chico falou um pouco sobre a composição:

“E só tem graça aceitar uma encomenda quando você pode ser infiel ao que foi encomendado, quando você pode tomar certas liberdades. Quando eu estava fazendo as letras para as músicas de Edu Lobo, no balé O grande circo místico, havia um tema para a equilibrista que eu não conseguia solucionar. No poema de Jorge de Lima, a equilibrista se chamava Agnes, que aliás é um belo nome, mas a letra não saía. Então troquei Agnes por Beatriz, transformei a equilibrista em atriz e coloquei-a no sétimo céu, em homenagem à Beatrice Portinari, de Dante. Beatriz carregando minhas obsessões…”

“No repertório composto, com relevantes arranjos do maestro Chiquinho de Morais, destacou-se a valsa “Beatriz“, uma metáfora da vida de atriz, também surrealista e de excepcional qualidade: “Olha / será que é uma estrela / será que é mentira / será que é comédia / será que é divina / a vida da atriz…“

De interpretação difícil, em razão de sua extensão vocal, dos intervalos melódicos e das modulações, “Beatriz” ganhou uma gravação definitiva de Milton Nascimento, que afirma: “‘Beatriz‘ é minha.” Edu fez a música em tempo relativamente curto, com “a certeza de que ia ficar legal”, ao contrário de Chico, que demorou para completar a letra, sendo a composição uma das últimas do bailado a ser concluída.

Sem jamais ter entrado em paradas de sucesso, “Beatriz” acumulou prestígio ao longo do tempo, impondo-se por sua beleza como um clássico da moderna música brasileira. Do começo ao fim, sua partitura tem um desenvolvimento encantador, no mesmo nível de criação dos grandes compositores de qualquer época ou país. No formato A-A-B-A, a melodia de A parte de uma célula (“será que ela é moça”), aproveitada cinco vezes em movimento harmônico ascendente, com pequenas alterações, destacando-se os acidentes na última, sobre as sílabas “rosto”, do verso “o rosto da atriz”.

Tempos depois de a música gravada, Edu e Chico descobriram uma coincidência: a nota mais grave da canção cai na palavra “chão” e a mais aguda na palavra “céu”.

Eu prefiro a gravação de Zizi Possi, que tem a capacidade de transformar as canções numa experiência mística.

(Fonte: Música e Prosa)

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