Três atuações femininas que desafiam as normas de gênero em Hollywood

A recente análise publicada pelo The New York Times sobre as principais apostas para Melhor Atriz para o Oscar de 2026 expõe uma ferida aberta na indústria cultural que vai muito além da distribuição de estatuetas.
Ao destacar as atuações de Amanda Seyfried (“O Testamento de Ann Lee”), Jennifer Lawrence (“Morra, Amor”) e Rose Byrne (“Se Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria”), o jornal estadunidense escancara o que teóricas feministas denunciam há décadas: o olhar masculino, ou “Male Gaze” conceituado pela teórica de cinema Laura Mulvey, não busca apenas o prazer visual, mas a manutenção de uma estrutura de poder onde a mulher deve habitar o silêncio da passividade ou a nobreza do sacrifício.
O desconforto explícito de críticos homens diante de personagens que recusam o papel de vítima passiva é a prova cabal de que a autonomia feminina no cinema ainda é lida como uma afronta pessoal ao patriarcado.

Rose Byrne – Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria @ divulgação

No filme “Se Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria”, Rose Byrne subverte a expectativa da doçura materna ao personificar uma exaustão que não pede desculpas. A recepção de parte da crítica, que rotulou a personagem como insuportável, revela a incapacidade do júri masculino em processar a raiva feminina fora dos códigos da histeria.
Para o sistema patriarcal, uma mulher que não é agradável é uma mulher que falhou em sua função social básica. Byrne, contudo, reivindica o direito ao colapso ativo, lembrando-nos de que a “simpatia” é uma coleira estética usada para domesticar o potencial revolucionário das mulheres.
Quando a personagem de Byrne decide não ser salva, ela quebra o contrato da dependência que alimenta o ego do herói clássico.

Jennifer Lawrence em Morra, Amor @ divulgação

Jennifer Lawrence, em “Morra, Amor”, avança ainda mais nesse território minado ao transformar a maternidade em um campo de batalha visceral e violento. Ao recusar a melancolia santificada da depressão pós-parto tradicional, Lawrence invoca a figura da “Feminilidade Monstruosa” descrita por Barbara Creed.
Ela não espera por um macho dominador que traga a cura ou o equilíbrio; ela mergulha na própria sombra para encontrar uma verdade que a sociedade prefere ignorar.
Sua atuação foi considerada perturbadora por críticos homens. Isso apenas confirma que a liberdade de uma mulher para sentir e agir com agressividade legítima ainda é o maior tabu do ocidente.

Jennifer Lawrence em Morra, Amor @ divulgação

O desconforto dos críticos não nasce de uma falha técnica na obra, mas da recusa absoluta da atriz em se oferecer como objeto de prazer visual ou de redenção moral. No sistema cinematográfico clássico, a mulher é reduzida à condição de imagem a ser olhada, enquanto o homem detém o poder do olhar e da ação. No filme, Lawrence rompe esse contrato ao transformar o corpo feminino em um território de fúria e abjeção que desafia a vigilância masculina.
O que Jennifer Lawrence realiza sob a direção de Lynne Ramsay é a negação sistemática de ambas as rotas. Sua personagem, Grace, não permite o fetiche, pois sua aparência é marcada pelo suor, pelo sangue e pela exaustão brutal da maternidade. Ela também não permite o sadismo punitivo, pois ela mesma é a agente de sua própria destruição e reconstrução, incendiando as florestas de Montana e as expectativas do público.

Amanda Seyfried – O Testamento de Ann Lee @ divulgação

Amanda Seyfried, em “O Testamento de Ann Lee”, coroa essa tríade ao elevar a mulher ao papel de messias e fundadora, retirando das mãos masculinas o monopólio da espiritualidade e da liderança radical.
Este movimento de retomada do poder ecoa obras históricas que também foram punidas ou incompreendidas em seu tempo por negarem a salvação externa. Filmes como “Thelma & Louise”, de 1991, já mostravam que a emancipação plena muitas vezes exige o rompimento definitivo com as leis dos homens, enquanto obras contemporâneas como “Tár” ou “Bela Vingança” provam que a mulher pode ocupar espaços de autoridade e revanche sem precisar performar a fragilidade que o sistema exige para conceder o perdão.
O que o artigo do The New York Times nos mostra é que estamos vivendo uma insurgência estética. A crítica masculina, habituada a avaliar mulheres pela régua do quanto elas são úteis ou atraentes para a narrativa do herói, encontra-se agora perdida diante de espelhos que não refletem mais a sua dominação.

Mulheres na Direção

O fato de “Morra, Amor”, “O Testamento de Ann Lee” e “Se Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” serem dirigidos por Lynne Ramsay, Mona Fastvold e Mary Bronstein transforma o desconforto dos críticos em um temor estrutural.
Não estamos falando apenas de atrizes talentosas, mas de uma autoria que detém o controle total da narrativa, da luz e do corte final. Quando uma mulher assume a direção, ela retira do homem não apenas o papel de salvador na tela, mas também a sua posição histórica de único mediador da verdade artística.
O medo que emana das críticas masculinas mais ferinas nasce da perda da subjetividade dominante. Na história do cinema, o homem sempre foi o sujeito que olha, enquanto a mulher era o objeto olhado. Ao subverterem essa lógica, Ramsay, Fastvold e Bronstein criam obras que são impermeáveis ao desejo masculino de controle.

Lynne Ramsay, em “Morra, Amor”, não oferece ao homem um ponto de entrada para a empatia tradicional; ela impõe uma experiência sensorial de dor e fúria que é alheia à lógica de proteção patriarcal. O crítico homem sente medo porque, diante de uma direção tão assertiva e autoral, ele percebe que não é mais o destinatário preferencial daquela obra. Essa angústia masculina é alimentada pelo que a teoria feminista chama de “subjetividade radical”.

Mary Bronstein, em “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria”, utiliza a câmera para expor uma exaustão que não busca validação externa. Quando um crítico rotula o filme como desagradável, ele está reagindo à sua própria exclusão de um universo de códigos puramente femininos.
O medo é o de que, se as mulheres podem dirigir a própria raiva e o colapso sem a necessidade de um herói ou de uma explicação lógica que satisfaça o ego masculino, a função do homem como o “grande explicador do mundo” torna-se obsoleta.

A direção de Mona Fastvold em “O Testamento de Ann Lee” ataca um dos pilares mais sagrados do patriarcado: a autoridade espiritual. Ao filmar Amanda Seyfried como uma líder que não deve explicações a nenhuma estrutura masculina, Fastvold retira o chão de críticos que estão habituados a ver o poder feminino apenas como algo derivado ou conquistado através do sacrifício para o homem. O medo aqui é o da soberania.
Uma mulher que dirige outra mulher em um papel de poder absoluto cria uma redoma de autonomia que a crítica masculina interpreta como hostilidade, quando na verdade é apenas independência.
Portanto, o desconforto desses jornalistas não é apenas uma questão de gosto cinematográfico, mas um mecanismo de defesa contra uma mudança de poder real nos bastidores.

Mary Bronstein e Rose Byre em Se Eu Tivesse Perna, Eu Te Chutaria @ divulgação

A direção feminina é o golpe de misericórdia no mito da passividade. Ao ocuparem a cadeira de direção, essas cineastas garantem que o olhar que molda as personagens de Jennifer Lawrence ou Rose Byrne seja um olhar de cumplicidade e revolução, e não de julgamento ou desejo.
O temor dos críticos é o reconhecimento de que o cinema de 2026 não precisa mais da aprovação deles para existir ou para ser grandioso. Eles não temem apenas os filmes; eles temem o mundo que esses filmes anunciam.

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