O falecimento de Rosa von Praunheim aos 83 anos em Berlim encerra um dos capítulos mais combativos da cultura alemã contemporânea. Nascido Holger Mischwitzky em 1942 na cidade de Riga, na Letônia ocupada, o artista adotou o nome artístico Rosa em homenagem ao triângulo rosa usado pelos nazistas para identificar homossexuais.
A trajetória artística de Praunheim foi marcada pela recusa absoluta ao silêncio. Sua consagração ocorreu em 1971 com o lançamento do filme “Nicht der Homosexuelle ist pervers, sondern die Situation, in der er lebt” (Não é o homossexual que é perverso, mas a situação em que ele vive).

A obra não apenas desafiou os padrões estéticos do Novo Cinema Alemão como auxiliou a fundação do movimento moderno de libertação LGBTQIP+ no país. Com um estilo cru e documental, ele defendia que a verdadeira revolução deveria vir da visibilidade e da politização da vida cotidiana.
Ao longo de mais de cinco décadas de produção incessante, Praunheim realizou cerca de 150 filmes que transitaram entre o documentário experimental, a ficção e a biografia de figuras marginalizadas.

Seu cinema era indissociável de sua militância. Nos anos 90, ele causou um terremoto mediático ao revelar publicamente a homossexualidade de diversas celebridades alemãs na televisão nacional, uma tática polêmica que visava forçar a sociedade a encarar a crise do HIV-AIDS e a hipocrisia das elites conservadoras.
A arte de Praunheim foi reconhecida com inúmeras honrarias, incluindo diversos prêmios no Festival de Berlim e a Cruz de Cavaleiro da Ordem do Mérito da República Federal da Alemanha. No entanto, o cineasta sempre preferiu o papel de dissidente ao de ícone institucionalizado. Ele manteve até o fim a capacidade de chocar e educar, utilizando o humor e a subversão para desmantelar preconceitos profundamente enraizados.

Sua vida pessoal foi um reflexo de sua integridade artística. Apenas cinco dias antes de seu falecimento em dezembro de 2025, ele oficializou sua união com o parceiro de longa data Oliver Sechting.
A morte de Rosa von Praunheim deixa um vácuo imenso na arte de vanguarda, mas seu legado permanece vivo nas leis, na liberdade e na estética de gerações de cineastas e ativistas que aprenderam com ele que a existência é, por si só, um ato político fundamental.
O filme
O título original é propositalmente longo e provocativo: “Nicht der Homosexuelle ist pervers, sondern die Situation, in der er lebt” (Não é o homossexual que é perverso, mas a situação em que ele vive). Ele é considerado uma obra fundamental no cinema queer.
Antes deste filme, a homossexualidade na Alemanha era tratada no cinema ou como uma tragédia (o “destino infeliz”) ou como uma patologia. Praunheim inverteu essa lógica. Ele não culpou os indivíduos, mas sim a sociedade burguesa e a própria subcultura gay da época, que ele acusava de ser passiva e de se esconder em guetos.
Curiosamente, o filme também foi controverso dentro da comunidade LGBTQ+. Praunheim criticava os gays que tentavam “se adaptar” à sociedade conservadora (o que ele chamava de “mimetismo pequeno-burguês”). Ele incentivava a saída do armário em massa e a organização política. A frase final do filme tornou-se um grito de guerra:
“Saiam do armário! Tornem-se visíveis! Organizem-se!”
Em 1973, quando o filme seria exibido pela primeira vez na TV pública alemã (canal ARD), foi um escândalo nacional. A rede regional da Baviera (BR) cortou a transmissão no último minuto, deixando a tela preta em protesto contra o conteúdo.
Isso gerou o efeito oposto: o debate sobre a censura deu ao filme uma audiência e uma relevância política sem precedentes.
Graças a este filme, surgiram as primeiras organizações de direitos gays na Alemanha Ocidental, pós Segunda Guerra Mundial, como a Homosexuelle Aktion Westberlin (HAW).
Silêncio = Morte
A fase de Rosa von Praunheim em Nova York, especialmente durante os anos 80 e início dos 90, representa um dos momentos mais potentes de sua carreira, unindo a crueza do cinema alemão à urgência da crise do HIV/AIDS nos Estados Unidos.
Diferente de muitos cineastas europeus que iam para a América em busca de Hollywood, Praunheim mergulhou no underground do East Village, onde a arte era uma ferramenta de sobrevivência.

Seu trabalho mais impactante desse período foi o documentário “Silence = Death” (1990). O título foi retirado do famoso slogan do coletivo ACT UP, e o filme é considerado um dos registros mais viscerais daquela época.
O filme apresenta entrevistas e performances de Keith Haring (pouco antes de sua morte), do escritor Edmund White e do artista visual David Wojnarowicz, cujo depoimento furioso contra a negligência governamental é o ponto alto do filme.
Nessa obra, Praunheim explora como a comunidade artística de Nova York respondeu à doença não com luto passivo, mas com fúria criativa e protestos diretos.
O período nos EUA de Praunheim trouxe uma nova camada ao seu ativismo. Ele levou para a Alemanha as táticas de visibilidade do ACT UP (como o uso de posters agressivos e confrontos públicos), o que influenciou diretamente o seu polêmico “outing” de celebridades alemãs nos anos 90. Para ele, a experiência em Nova York provou que o silêncio era, literalmente, mortal.

Rosa von Praunheim foi um dos poucos cineastas que conseguiu transitar entre as duas cenas — a intelectualidade europeia e a subversão americana — sem perder sua identidade provocadora.
