American Horror Story: Uma Retrospectiva da Antologia que Redefiniu o Terror na Televisão

Desde a sua estreia em 2011, American Horror Story (AHS), criada por Ryan Murphy e Brad Falchuk, transformou o panorama televisivo ao revitalizar o formato da antologia. Diferente das séries tradicionais com arcos narrativos que se estendem por anos, esta produção oferece uma experiência renovada a cada ciclo.
O conceito central da obra é a exploração de diferentes mitos e subgêneros do terror, todos profundamente enraizados na cultura e na história dos Estados Unidos.
A característica mais distintiva da série é o seu modelo de elenco rotativo. Ryan Murphy utiliza um grupo recorrente de atores, frequentemente referidos como uma companhia de teatro televisiva, que regressam em cada temporada para interpretar papéis diferentes.

Este formato permite que nomes como Sarah Paulson, Evan Peters, Jessica Lange e Kathy Bates exibam uma versatilidade impressionante, transformando-se de heróis em vilões ou de figuras históricas em personagens sobrenaturais num curto espaço de tempo.
Cada temporada funciona como um microcosmo isolado, possuindo o seu próprio cenário, época e regras narrativas. Desde casas assombradas e sanatórios psiquiátricos até clãs de bruxas e seitas políticas, a série utiliza o terror como uma lente para examinar as ansiedades sociais e os traumas coletivos da América.

Embora as estórias sejam independentes, os criadores estabeleceram, ao longo dos anos, uma teia de conexões que sugerem um universo partilhado, onde personagens e locais de diferentes épocas se cruzam ocasionalmente.
A série mistura uma produção sofisticada com o exagero do gênero camp, resultando numa atmosfera que agradou diversos públicos. O uso de cenários opulentos, figurinos detalhados e uma trilha sonora envolvente ajuda a construir o tom de cada temporada, garantindo que a identidade visual seja tão marcante quanto os seus enredos macabros.

American Horror Story – Murder House – 2011 @ divulgação

American Horror Story não é apenas uma sucessão de estórias de personagens excêntricos, é uma exploração contínua da psique humana e das sombras que habitam o sonho estadunidense. Ao combinar o prestígio da atuação dramática com a liberdade criativa do horror puro, a antologia garantiu o seu lugar como um dos pilares mais influentes e duradouros da cultura pop contemporânea.

As 12 temporadas

Murder House (Temporada 1) estabeleceu as bases do gênero ao focar-se na família Harmon, que se muda para uma mansão assombrada em Los Angeles. O elenco contou com Connie Britton, Dylan McDermott, Evan Peters e o início da era dourada de Jessica Lange na série. Foi um sucesso imediato por misturar o terror gótico com dramas familiares modernos. Pelo papel da enigmática Constance Langdon, Lange venceu o Emmy 2012 de Melhor Atriz Coadjuvante em Minissérie ou Telefilme e Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme.

American Horror Story – Murder House – 2011 @ divulgação

Asylum (Temporada 2) é citada como o auge criativo da série. Situada no sanatório Briarcliff nos anos 60, a trama envolveu possessão demoníaca, alienígenas e assassinos em série. Jessica Lange, Sarah Paulson, Evan Peters e Lily Rabe entregaram interpretações viscerais que elevaram o tom da produção para um patamar de prestígio crítico. James Cromwell ganhou o Emmy de Melhor Ator Coadjuvante pelo seu papel como o sádico Dr. Arthur Arden.

American Horror Story – Asylum – 2012 @ divulgação

Coven (Temporada 3) trouxe uma estética mais vibrante e jovem ao focar-se num clã de bruxas em Nova Orleans. Com a adição de Kathy Bates, Angela Bassett e Frances Conroy, a temporada explorou temas de opressão e feminismo, tornando-se um fenômeno de audiência e cultura pop. Jessica Lange e Kathy venceram o Emmy 2014 de Melhor Atriz Principal em Minissérie ou Telefilme e Melhor Atriz Coadjuvante em Minissérie ou Telefilme. Os figurinos também venceram o Emmy em Série Limitada, Antologia ou Filme.

American Horror Story – Coven (2013) @ divulgação

Freak Show (Temporada 4) centrou-se num dos últimos espetáculos de aberrações nos Estados Unidos da década de 50. Apesar de visualmente deslumbrante e de contar com interpretações marcantes de Jessica Lange e Finn Wittrock, começou a mostrar sinais de uma narrativa sobrecarregada, algo que se tornaria uma crítica recorrente no futuro. Os figurinos também foram premiados com o Emmy.

American Horror Story – Freak Show (2014) @ divulgação

Hotel (Temporada 5) marcou a transição da série com a saída de Lange e a entrada triunfal de Lady Gaga como a Condessa. Situada no sinistro Hotel Cortez, a temporada privilegiou a estética e o glamour em detrimento da coesão narrativa, mantendo um elenco sólido com Kathy Bates, Sarah Paulson e Denis O’Hare, inesquecível como Liz Taylor. Substituindo o vácuo deixado por Jessica Lange, Lady Gaga assumiu o papel da Condessa Elizabeth e acabou vencendo o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Minissérie ou Telefilme. Novamente, os figurinos venceram o Emmy em Série Limitada, Antologia ou Filme.

American Horror Story – Hotel (2015) @ Divulgação

Roanoke (Temporada 6) foi uma experiência metalinguística que simulou um documentário de crimes reais sobre o desaparecimento de uma colônia histórica. Foi uma das temporadas mais ambíguas, elogiada pela sua coragem experimental, mas criticada pela sua estrutura complexa.

American Horror Story – Roanoke (2017) @ Gemini

Cult (Temporada 7) abandonou o sobrenatural para explorar o horror político após as eleições americanas de 2016. Evan Peters brilhou no papel de vários líderes de seitas, numa narrativa que focou na exploração do medo e da paranoia social.

American Horror Story – Cult (2018) @ divulgação

Apocalypse (Temporada 8) serviu como o derradeiro fan servie, cruzando as tramas de Murder House e Coven. Embora tenha gerado grande entusiasmo inicial pelo regresso de personagens icónicas, a crítica apontou um excesso de dependência da nostalgia.

American Horror Story – Apocalypse (2019) @ divulgação

1984 (Temporada 9) foi uma homenagem aos filmes slasher da década de 80. Com Emma Roberts e Billie Lourd na liderança, a temporada foi elogiada pela sua simplicidade e tom divertido, afastando-se da densidade psicológica das anteriores.

American Horror Story – 1984 (2020) @ divulgação

Double Feature (Temporada 10) dividiu-se em duas partes distintas: uma focada em vampiros e outra em alienígenas. Enquanto a primeira parte, Red Tide, recebeu elogios pela sua atmosfera, a segunda parte, Death Valley, foi amplamente criticada pela sua execução apressada.

American Horror Story – Double Featured (2021) @ divulgação

NYC (Temporada 11) apresentou uma mudança drástica de tom, focando-se na crise do HIV/AIDS na Nova Iorque dos anos 80. Foi uma temporada mais sóbria e trágica, elogiada pela sua relevância social e pelo desempenho de Joe Mantello, embora tenha afastado parte do público que esperava o terror tradicional.

American Horror Story – NYC @ divulgação

Delicate (Temporada 12) marcou a primeira vez que a série se baseou num livro. Com Emma Roberts e a estreia de Kim Kardashian, a trama explorou os horrores da gravidez e da fama. A recepção foi fria, com críticas focadas no ritmo lento e na falta do choque criativo que outrora definiu a série.

American Horror Story – Delicate @ divulgação

As temporadas preferidas pela crítica

Desde que surgiu em 2011, American Horror Story (AHS) estabeleceu um padrão de irregularidade fascinante, tornando-se uma das séries mais debatidas da crítica televisiva.
Ao longo de 12 temporadas, a antologia de Ryan Murphy e Brad Falchuk navegou entre a genialidade criativa para o caos narrativo, criando uma disparidade clara entre o que os especialistas celebram e o que o grande público consome com avidez.

No topo do prestígio crítico figuram Asylum (2ª Temporada), Coven (3ª Temporada) e, surpreendentemente para alguns, 1984 (9ª Temporada).
Asylum é considerada a obra-prima da franquia. O motivo reside na sua coesão temática rara: ao fundir horrores institucionais, alienígenas e possessão num sanatório dos anos 60, a série conseguiu uma densidade psicológica que raramente repetiu. As interpretações de Jessica Lange e Sarah Paulson conferiram à temporada uma gravidade que transcendeu o gênero do horror.

Coven divide o topo pelo seu impacto estético e cultural. Com uma aprovação crítica que chegou aos 85%, a temporada foi elogiada por transformar o horror num comentário social sobre opressão feminina e racismo, utilizando o tom “camp” (exagerado e estilizado) de forma magistral.
Já 1984 conquistou a crítica pela sua simplicidade e execução precisa. Ao homenagear os filmes slasher da década de 80, a temporada evitou os habituais erros de Murphy em sobrecarregar a trama, entregando uma trama focada e divertida.

Os fenômenos de audiência

Se a crítica prefere a profundidade de Asylum, o coração do público bateu mais forte por Coven e Freak Show (4ª Temporada). Estas temporadas representam o pico comercial da série.
Coven tornou-se um fenómeno de redes sociais e moda, sendo a temporada mais assistida na sua exibição original, com números que superaram os 50 milhões de espectadores totais. A introdução de personagens icónicas e diálogos que se transforam em memes garantiu a sua longevidade na cultura pop.

American Horror Story – Coven (2013) @ divulgação

Freak Show seguiu de perto este sucesso popular. Embora a crítica tenha começado a apontar falhas no ritmo e um excesso de personagens, o fascínio visual pelo circo de horrores e a interpretação tocante de Jessica Lange como Elsa Mars mantiveram os índices de audiência em níveis estratosféricos, solidificando a série como um pilar da rede FX.

Por outro lado… as mais criticadas

No extremo oposto, Double Feature (10ª Temporada), NYC (11ª Temporada) e a recente Delicate (12ª Temporada) enfrentaram as reações mais duras, embora por motivos distintos.
A 10ª temporada, Double Feature, é frequentemente citada como uma grande oportunidade perdida. Enquanto a primeira parte (Red Tide) foi elogiada, a segunda metade (Death Valley) foi amplamente destruída pela crítica e pelos fãs. O motivo foi o ritmo apressado e uma trama de alienígenas que pareceu desconexa e superficial, deixando a sensação de que nenhuma das duas histórias teve espaço para respirar.
NYC foi criticada por uma parte do público pela sua mudança drástica de tom. Ao abandonar os sustos tradicionais por um terror psicológico e social focado na crise do HIV/AIDS, a temporada foi considerada “lenta” ou “deprimente” por muitos fãs de longa data, apesar de ter recebido elogios de críticos pela sua coragem e relevância histórica.

American Horror Story – Delicate @ divulgação

Finalmente, Delicate tornou-se o ponto mais baixo para muitos. A decisão de basear a temporada num livro externo e a escolha de Kim Kardashian para um papel central geraram ceticismo inicial. No balanço final, todo mundo odiou a “atuação” de Kim, o ritmo gelado e sem graça da narrativa e um final que muitos espectadores consideraram incoerente e insatisfatório. A falta de inovação e o afastamento das raízes viscerais da série fizeram com que esta temporada fosse vista como um sinal de fadiga criativa. Muitos acreditavam que seria a última temporada.

O que esperar da 13ª temporada?

Contando com Jessica Lange, Kathy Bates, Ariana Grande, Sarah Paulson, Evan Peters, Angela Bassett, Gabourey Sidibe, Billie Lourd, Emma Roberts e Ariana Grande, a 13ª temporada estreia em 31 de outubro de 2026.
Embora Ryan Murphy mantenha os detalhes do argumento sob um sigilo rigoroso, as pistas deixadas nos teasers e nas declarações do elenco apontam para uma narrativa ligada a Coven e Apocalypse.
O uso da frase “Surprise, bitch” no anúncio oficial e a banda sonora de Vera Lynn (“I’ll Be Seeing You”) sugerem um reencontro com as bruxas da Academia Miss Robichaux em Nova Orleans.
A trama deverá explorar as consequências dos eventos de Apocalypse, mergulhando mais fundo na mitologia das Supremas e na luta contra novas ameaças sobrenaturais que põem em causa o equilíbrio do mundo.
Fontes próximas da produção indicam que a temporada poderá encerrar os arcos de várias personagens queridas pelo público, servindo como uma conclusão épica para a era clássica da série. A escolha da data de estreia para o Halloween de 2026 reforça o tom ritualístico e sombrio desta nova etapa.

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