Morre o estilista de alto luxo Valentino Garavani

Por cinco décadas, o nome Valentino tornou-se sinônimo de um padrão de elegância, feminilidade e luxo aristocrático. Frequentemente referenciado pela Vogue e pela Harper’s Bazaar como o “Último Imperador”, Valentino Garavani não apenas construiu uma marca global, mas definiu a estética do “jet set” internacional, transformando o ato de se vestir em uma manifestação de poder e graça.
Diferente de muitos de seus contemporâneos, Valentino priorizou a beleza absoluta e clássica em detrimento de tendências passageiras ou experimentações conceituais. Sua dedicação ao corte perfeito garantiu que sua grife se tornasse a favorita de primeiras-damas, realeza e ícones de Hollywood.

Valentino Garavani @ divulgação

Nascido em Voghera, na Itália, em 1932, desde muito cedo Valentino Clemente Ludovico Garavani demonstrou interesse pela moda e pelo cinema. Sua jornada formal começou em Paris, onde estudou na École des Beaux-Arts.
Durante seus anos de graduação na França, trabalhou nas casas de Jean Dessès e Guy Laroche. Foi nessas oficinas que Valentino refinou sua técnica e desenvolveu o apreço pelo drapeado e pela sofisticação que levaria de volta à Itália em 1959, quando fundou sua própria casa de moda em Roma, na Via Condotti, com o apoio de seu parceiro de vida e negócios, Giancarlo Giammetti.
A ascensão de Valentino foi selada por momentos que se tornaram parte da história cultural. Conforme destacado pela ELLE e pela W Magazine em retrospectivas históricas, dois pilares sustentam o mito de Garavani: o vermelho Valentino e a amizade com Jackie O.

Rosso Valentino

Anne Hathaway usa Valentino no Oscar 2008 @ Reuters

No final da década de 1950, um jovem Valentino visitou a Ópera de Barcelona. Enquanto observava a audiência das varandas do Gran Teatre del Liceu, ele ficou hipnotizado por um grupo de mulheres sentadas nos camarotes.
Diferente da moda parisiense da época, que favorecia tons mais sóbrios e Pastel, aquelas mulheres estavam vestidas inteiramente de vermelho carmesim. Para Valentino, aquela visão foi uma revelação: entre todas as cores, o vermelho era a única que conseguia projetar, ao mesmo tempo, uma força monumental e uma feminilidade delicada.

Oscar 2020 Kristen Wiig veste Valentino Couture @ Shutterstock

Valentino descreveu aquele momento como o instante em que compreendeu que o vermelho não era apenas uma cor, mas um elemento de distinção absoluta. Segundo ele, uma mulher vestida de vermelho nunca poderia ser ignorada ou esquecida; ela tornava-se o ponto focal de qualquer ambiente.
Ao fundar a sua própria casa de moda em Roma em 1959, ele decidiu que cada coleção deveria incluir, pelo menos, um vestido naquele tom específico. Ele não queria um vermelho qualquer, mas uma mistura vibrante e intensa que equilibrasse o brilho do sol mediterrâneo com a sofisticação da aristocracia europeia.

Valentino Coleção Fall 2015 Couture @ Umberto Fratini – Indigitalimages

O Rosso Valentino é uma combinação patenteada de 100% de Magenta, 100% de Amarelo e 10% de Preto. Esta consistência permitiu que o vermelho deixasse de ser uma escolha sazonal para se tornar o logótipo cromático da marca.
Desde o seu primeiro vestido oficial, chamado “Fiesta” (da coleção de 1959), o vermelho tornou-se a promessa de Valentino às suas clientes: a garantia de que, ao usar aquela cor, elas estariam a usar o próprio símbolo do luxo e da paixão italiana.

Jackie O

Valentino e Jackie O @ divulgação

Em 1964, após o assassinato de John F. Kennedy, Jacqueline buscava uma nova identidade visual. Em uma visita a Roma, ela conheceu as criações de Valentino através da editora da Vogue, Gloria Schiff. Encantada com a elegância discreta do estilista, ela encomendou seis vestidos de alta-costura, todos em tons de preto e branco, iniciando uma fidelidade que duraria décadas.

Valentino Voce Viva Eau de Parfum @ divulgação

Em seguida, ela serviu de inspiração para a Collezione Bianca (1967). O estilo minimalista, com golas altas, cortes precisos e ausência de ornamentos exagerados, tornou-se o uniforme da ex-primeira-dama. Foi essa associação que consolidou o logotipo “V” da Valentino como um símbolo de status e sofisticação intelectual, afastando a marca dos excessos da época.

MET Gala 2023 Florence Pugh veste Valentino Haute Couture @ Getty Images

A Harper’s Bazaar descreveu o momento como o nascimento do minimalismo de luxo, provando que a ausência de cor poderia ser tão impactante quanto a sua presença mais intensa. A coleção rendeu o Prêmio Neiman Marcus em 1967.
Porém, o momento mais emblemático da relação foi o casamento de Jackie com o magnata grego Aristóteles Onassis. Para a cerimônia na ilha de Skorpios, ela escolheu um vestido Valentino de renda marfim, com gola alta e saia plissada. A imagem de Jackie naquele vestido correu o mundo e gerou uma onda de pedidos por réplicas, estabelecendo Valentino como o estilista preferido da elite mundial para eventos de grande visibilidade.

Vestido Valentino para Jackie O @ Getty

Diferente de muitas relações entre estilista e cliente, Valentino e Jackie tornaram-se amigos íntimos. Eles frequentemente passavam férias juntos no iate de Onassis ou em Capri. Essa proximidade permitia que Valentino entendesse as necessidades de privacidade e conforto de Jackie, criando roupas que serviam como uma “armadura de elegância” para uma mulher constantemente perseguida pelos paparazzi.
A influência de Jackie foi tamanha que, até hoje, a Maison Valentino utiliza arquivos da era Kennedy como referência. O estilo “Jackie” — que combinava óculos escuros gigantes com vestidos trapézio ou conjuntos de calça e túnica — definiu o que hoje chamamos de jet-set chic.
Valentino declarava que Jackie tinha o “olho mais refinado do mundo”, e que desenhar para ela o obrigava a buscar a perfeição absoluta no corte.

Tapete Vermelho

Oscar 2001 Julia Roberts (Erin Brockovich) veste Valentino @ Getty

Diferente da maioria das atrizes, que usam peças feitas sob medida para a cerimônia, Julia Roberts escolheu um vestido da coleção de outono-inverno Alta-Costura de 1992 para usar no Oscar 2001, quando ganhou o prêmio de Melhor Atriz.
É um modelo “coluna” em veludo preto, adornado com uma faixa branca em cetim de seda que sobe pela frente em um formato de “Y” e desce pelas costas, dividindo-se em várias tiras que se fundem com uma cauda de tule preto. O design foi inspirado no glamour da era de ouro de Hollywood, evocando a sofisticação das estrelas dos anos 40 e 50.
Anos depois, a sobrinha da atriz, Emma Roberts, revelou que foi ela quem a ajudou a escolher o modelo. Na época com apenas 9 anos, Emma incentivou Julia a usar o que ela chamava carinhosamente de “vestido gambá” (the skunk dress), devido ao contraste gráfico entre o preto e o branco das listras nas costas.
Valentino Garavani declarou repetidas vezes que aquele foi o momento de maior orgulho em seus mais de 45 anos de carreira. Ele ficou tão emocionado ao ver “a namoradinha da América” ganhar o prêmio de Melhor Atriz por Erin Brockovich usando sua criação que afirmou:

“Eu vesti muitas pessoas, mas a pessoa que me fez sentir tão, tão feliz, foi Julia Roberts.”

Julia Roberts usa Valentino no Oscar 2002 @ Getty Images

Após o sucesso a vitória de Julia, o mercado de revenda de luxo explodiu. O vestido foi tão copiado que se tornou o modelo de formatura e festa mais vendido nos Estados Unidos em 2001 e 2002.
Diferente da maioria dos vestidos de tapete vermelho que são devolvidos às marcas, Julia Roberts manteve o vestido. Ela o guarda até hoje em uma caixa de conservação especial sob sua cama, apelidada de “Coleção de Herança”, para que sua filha, Hazel, possa usá-lo um dia.
Atualmente, o vestido ocupa a terceira posição em diversas listas internacionais de “vestidos mais icônicos de todos os tempos”, consolidando-se como uma obra-prima que une a simplicidade gráfica ao luxo técnico de Valentino.

Bordados

Bordado Valentino @ divulgação

Localizado na Piazza Mignanelli, o ateliê da Valentino funciona como um laboratório de restauração e criação simultânea. A proximidade com as obras de mestres como Caravaggio, Bernini e as ruínas do Império Romano permite que os artesãos da casa, conhecidos como “as mãos de ouro”, bebam diretamente da fonte da estética clássica.
A complexidade desses bordados vai além da decoração. Trata-se de uma tradução técnica de afrescos e esculturas para o suporte flexível da seda e do tule.

MET Gala 2022 Glenn Close veste Valentino @ Cindy Ord.MG22

Uma das assinaturas mais sofisticadas da marca, frequentemente documentada pela W Magazine, é o uso de microcontas de vidro e canutilhos para mimetizar os mosaicos bizantinos de Ravena. Em vez de padrões florais simples, os bordadores criam gradientes de cor que replicam o desgaste natural das pedras e a oxidação do ouro antigo.
Além disso, a técnica do “Punto Pittura” (ponto pintura) é aplicada para reproduzir a profundidade dos afrescos renascentistas. Usando fios de seda em dezenas de variações de um mesmo tom, os artesãos conseguem criar o efeito de chiaroscuro (claro-escuro), garantindo que o bordado tenha volume e sombra, tal qual uma pintura a óleo de Rafael ou Botticelli.

Lady D usa vestido Valentino em 1992 @ Getty

A arquitetura barroca de Roma, com suas curvas dramáticas e ornamentação excessiva, serve de planta baixa para os padrões de renda e bordados pesados. A ELLE destaca que a Maison utiliza a técnica da “incrustação”, onde diferentes tipos de tecidos e rendas são recortados e remontados para criar um relevo que lembra os frisos de mármore das basílicas romanas.
Diferente do bordado plano, essa abordagem cria uma textura tátil. Em muitas coleções, elementos de jardins clássicos italianos, como as fontes e as estátuas da Villa Borghese, são estilizados em bordados de linha que seguem as proporções da “proporção áurea”, garantindo um equilíbrio visual que o olho humano percebe como harmonia absoluta.

Seu final

Embora tenha se aposentado oficialmente das passarelas em 2008, o impacto de Valentino Garavani continuou onipresente. Sua despedida foi celebrada com um evento que aconteceu em três dias ocupando o entorno do Ara Pacis e do Coliseu, em Roma.
O documentário Valentino: The Last Emperor, lançado na mesma época, ofereceu ao público uma visão íntima de seu rigor criativo e de sua vida pessoal cercada de opulência e cães pugs.

Florence Pugh Valentino @ divulgação

Desde sua aposentadoria, a direção criativa da marca passou por nomes como Maria Grazia Chiuri e Pierpaolo Piccioli, que mantiveram o DNA de luxo da casa enquanto a adaptavam para a modernidade.
O estilista morreu nesta segunda (19) aos 93 anos, em Roma. A morte foi anunciada em um comunicado da Fundação Valentino Garavani e Giancarlo Giametti.

Valentino por Alessandro Michele – Resort 2025 @ Runway Magazine

A marca passou recentemente por uma mudança histórica. Após a saída de Pierpaolo Piccioli, Alessandro Michele (ex-Gucci) assumiu a direção criativa em 2024. Sua primeira coleção (Resort 2025) foi recebida com enorme entusiasmo pelo mercado, o que geralmente impulsiona as vendas e o valor das ações do grupo controlador.

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