Um ano antes de sua morte e poucos meses antes de ser consumida pelo Mal de Alzheimer, numa certa manhã, olhando para a parede branca de seu quarto, minha mãe comentou: “Está faltando beleza aqui em casa!”.
Absorto nas questões emergenciais do dia-a-dia, não dei atenção.
Pelo contrário: só fui me lembrar desta frase alguns anos depois, quando entrevistei a arquiteta Andrea Ottoni, que falou sobre a beleza dos pequenos gestos do dia-a-dia, como usar um bonito jogo de xícaras para tomar um chá ou como se sentia acolhida quando era recebida com flores, quando se hospedava na casa de algum amigo.
Automaticamente, me lembrei da frase emitida por minha mãe naquela manhã. Desde então, procuro, dentro das minhas possibilidades, me cercar de beleza.

Todas as manhãs, assim que acordo, arrumo minha cama, distribuo harmonicamente os travesseiros. Gosto da minha casa limpa, arrumada e perfumada.
Quando o tédio é despertado, mudo objetos do lugar (livros, revistas, luminárias, almofadas, quadro, esculturas, etc).
Presto atenção nas minhas roupas, procurando mante-las sempre limpas e passadas. E, de tempos em tempos, faço uma limpeza no guarda-roupa, separando peças para doação.

Em uma época definida pela funcionalidade extrema e pelo ritmo digital acelerado, a busca pelo encantamento emerge como uma necessidade vital de sobrevivência emocional.
Publicações, como Vogue e Harper’s Bazaar, têm reiterado que a estética não é um elemento dispensável, mas uma linguagem fundamental que comunica nossa humanidade ao mundo.
O ato de se encantar pela beleza, seja na curva de um edifício icônico ou na delicadeza de uma flor sobre uma mesa, atua como um lembrete constante de que a existência transcende a mera produtividade.
A arquitetura e o design de interiores desempenham papéis cruciais nessa percepção de valor.

Em sua obra clássica, A Arquitetura da Felicidade, o filósofo Alain de Botton argumenta que os espaços onde habitamos falam conosco e podem reforçar ou sufocar nossas melhores qualidades.
Referências ao trabalho do designer belga Axel Vervoordt, celebrado por publicações como a Architectural Digest, mostram que o luxo real reside no conceito de Wabi-sabi, que é a valorização da imperfeição e da passagem do tempo em objetos afetivos.

Uma cerâmica feita à mão ou uma herança de família tornam-se âncoras de pertencimento que humanizam o cotidiano.
No universo da moda e da beleza, revistas como a ELLE defendem que o estilo pessoal é um rito de dignidade. A escolha de uma cor ou o caimento de um tecido não são futilidades, mas sim a construção de uma armadura estética que permite ao indivíduo enfrentar o mundo com maior vigor.

Essa mesma atenção aos detalhes é transposta para o autocuidado, onde o perfume de um hidratante ou o toque de um tecido macio na pele funcionam como pequenas celebrações da vida, reafirmando que o prazer sensorial é um direito e uma ferramenta de resiliência.
A revista Vida Simples destaca que o encantamento reside, majoritariamente, nas frestas da rotina. O cultivo de plantas em ambientes internos, a biofilia, não apenas purifica o ar, mas estabelece uma conexão ancestral com o ciclo do crescimento.

A convivência com animais de estimação e a pausa consciente para ouvir o canto dos pássaros ao amanhecer são experiências que, segundo especialistas em bem-estar, reduzem o cortisol e ampliam a percepção de felicidade.
Esses momentos de contemplação interrompem o fluxo do cinismo e convidam à presença plena.
A conclusão de pensadores como Roger Scruton, em suas teses sobre a beleza, é que o belo oferece uma consolação necessária em tempos de desordem.

Quando escolhemos arrumar a casa para nós mesmos, investir em uma coleção de livros que alimentam o espírito ou simplesmente admirar a luz do sol filtrada por uma cortina de linho, estamos emitindo um voto de confiança no futuro.
O encantamento pela beleza é, portanto, a prova definitiva de que a vida vale a pena ser vivida em sua plenitude estética e emocional.
