O Stunt Casting é uma prática da indústria do entretenimento que consiste em escalar uma pessoa para um papel não por sua adequação técnica ou talento dramático, mas sim pelo impacto midiático, choque ou curiosidade que sua presença gera no público.
Embora o termo possa ser usado para participações especiais de atores veteranos em papéis inusitados, no contexto crítico atual ele se refere quase exclusivamente à contratação de celebridades ao universo da atuação — como influenciadores digitais, estrelas de reality shows ou figuras virais — com o objetivo único de inflar a audiência e garantir engajamento nas redes sociais.

A aliança entre Ryan Murphy e o Kim Kardashian simboliza a rendição total do prestígio artístico ao engajamento viral. Murphy, que outrora revitalizou as carreiras de Jessica Lange, Kathy Bates, Sarah Paulson e Angela Basset, parece ter transicionado de um curador de talentos para um arquiteto de espetáculos de impacto. Ao integrar Kardashian em “American Horror Story: Delicate” e, posteriormente para o mega criticado “Tudo é Justo/All’s Fair”, Murphy valida a tese de que o talento é um detalhe negociável diante do potencial de cliques.
Porém, a ascensão de Kim Kardashian como protagonista-produtora não é um evento isolado, mas o ápice de uma tendência sistêmica de apropriação do ofício do ator por figuras cuja única credencial é a onipresença midiática.

O Stunt Casting, que outrora era uma ferramenta esporádica de marketing, transformou-se em uma estratégia de ocupação territorial. Diversas celebridades, oriundas dos campos da música, das redes sociais e do reality show, têm utilizado sua fan base e seu poder financeiro para contornar as instâncias tradicionais de legitimação artística, comprando ou forçando sua entrada em produções de alto escalão, muitas vezes em detrimento de profissionais que dedicam a vida ao estudo da técnica.
No campo da música, o fenômeno da “popstar-atriz” atingiu um novo nível de agressividade comercial. Enquanto figuras como Lady Gaga trilharam um caminho de validação técnica (provando que conseguem atuar), outras celebridades como The Weeknd (Abel Tesfaye) utilizaram seu poder de mercado para conceber projetos sob medida, como a péssima série “The Idol”.

Assim como Kardashian, ele não apenas protagonizou, mas co-criou e produziu a obra, garantindo que sua visão — frequentemente criticada por ser uma fantasia narcísica — não sofresse intervenções de diretores ou roteiristas que priorizassem a integridade dramática sobre a imagem do astro.
Recentemente, vimos o crescimento de figuras como Harry Styles e Bad Bunny em papéis de destaque no cinema. Embora transitem com mais naturalidade, a escalação dessas figuras em produções de grande orçamento, como Eternos ou Trem-Bala, responde a uma lógica de “seguro contra fracasso”.

Outro exemplo foi a trajetória de Paris Hilton, que, embora precursora de Kardashian, tentou repetidamente comprar sua relevância no cinema através de participações que serviam apenas como extensões de sua marca pessoal de herdeira.
O capital que essas celebridades trazem não é apenas financeiro, mas social — uma blindagem que impede que o projeto passe despercebido, mesmo que a performance seja mecânica ou desprovida de nuances.
Essa elite de celebridades proprietárias cria um ecossistema de exclusão. Quando Gwyneth Paltrow ou Jessica Alba utilizam sua fama para consolidar impérios de bem-estar e, a partir daí, escolhem a dedo em quais produções de prestígio aparecerão (muitas vezes financiadas por seus próprios conglomerados), elas estão praticando um Stunt Casting de luxo. Elas buscam a curadoria da própria imagem.

Enquanto isso, a base da pirâmide artística — atores veteranos com currículos impecáveis, mas sem marcas de cosméticos associadas aos seus nomes — é empurrada para o anonimato econômico.
A apropriação do espaço cênico por essas figuras é, em última análise, um ato de elitismo que transforma a arte da interpretação em um acessório de moda para quem já possui os meios de ditar o que o mundo deve consumir.
O outro lado da “Kardashianização” de Hollywood
Enquanto Kim compra papéis em filmes (ela estará na comédia romântica da Netflix, “A Quinta Roda”, com direção de Eva Longoria), o talento técnico é empurrado para o ostracismo ou para o circuito de convenções de fãs para conseguir pagar as contas.
Existe uma legião de atores de “ofício” — profissionais que entregaram performances icônicas — que hoje são considerados “difíceis de escalar” porque não possuem o ROI (Retorno sobre Investimento) digital que os algoritmos exigem.
Mo’Nique (Vencedora do Oscar) – É uma lição sobre como a indústria pune quem não aceita as regras do “marketing gratuito”. Após vencer o Oscar por Precious (2009), ela foi colocada em uma “lista negra” por se recusar a fazer a campanha promocional gratuita durante a temporada de prêmios. Ela passou quase uma década sem papéis de relevância, enquanto celebridades sem formação ocupavam espaços em comédias e dramas. Recentemente, ela teve um retorno tímido com a ajuda de 50 Cent num filme chamado “The Reading”, que não foi lançado o Brasil.

CCH Pounder – Ela enfrenta o que muitos atores negros de sua geração sentem: ela é “respeitada, mas subutilizada”. Embora nunca falte trabalho para ela, Hollywood raramente lhe entrega o papel de “protagonista absoluta” que seu talento merece, preferindo mantê-la como a coadjuvante que “salva” a cena. Sua última participação nas telas foi como a matriarca Mo’at, na franquia “Avatar: Fogo e Cinzas”, com um trabalho de captura de movimento e voz.

Hugo Weaving – Um ator que deu rosto a vilões e heróis icônicos (Matrix, O Senhor dos Anéis), mas que se retirou para produções independentes na Austrália. Weaving revelou sobre sua desilusão com os blockbusters modernos, que priorizam o espetáculo visual e a escalação de modelos em vez do trabalho de voz e corpo. Ele é o exemplo do ator que “desistiu” de Hollywood porque o mercado de grandes produções parou de falar a língua da interpretação e passou a falar apenas a língua do marketing de influência.

Mira Sorvino – Outra vencedora do Oscar (Poderosa Afrodite) que viu sua carreira ser desmantelada. Por anos, o público se perguntou por que ela não estava em todos os filmes. Hoje sabemos, através das investigações do movimento #MeToo, que ela foi ativamente boicotada por produtores poderosos (como Harvey Weinstein). Mesmo após a verdade vir à tona, a indústria não lhe devolveu o tempo perdido. Ela continua trabalhando em produções menores, mas o espaço que deveria ser seu por direito técnico hoje é ocupado por nepo-babies e influenciadores.

Alfre Woodard – É uma lenda viva com quatro vitórias no Emmy. Em um mercado justo, ela estaria liderando épicos históricos ou dramas contemporâneos todos os anos. Em vez disso, ela é subutilizada em participações especiais ou papéis de “matriarca sábia” que não desafiam sua técnica.

Toni Collette – Possivelmente, uma das atrizes mais versáteis atuais, transitando do horror visceral (“Hereditário”, com uma sensacional atuação) à comédia ácida com uma precisão cirúrgica. No entanto, ela é frequentemente escalada para o papel da “mãe preocupada” ou da “detetive exaurida” em minisséries de streaming que desaparecem do catálogo em duas semanas.

Giancarlo Esposito – Antes de criar o icônico Gus Fring (Breaking Bad), ele revelou que pensou em tirar sua vida diante dos enormes problemas financeiros. Infelizmente, em 2025, ele foi mal aproveitado em franquias de super-heróis ou blockbusters genéricos, nos quais, apesar de manter a qualidade da atuação, eram péssimos personagens.

Thomas Jane – Astro de The Punisher e da série Hung, Jane é o exemplo do “Leading Man” clássico que a indústria descartou. Com o fim dos filmes de orçamento médio (o chamado Mid-Budget Movie), atores como ele, que sustentam um filme pelo carisma e técnica, mas não têm 50 milhões de seguidores, foram jogados para o mercado de filmes de ação de baixo custo (VOD).

Carrie-Anne Moss – Apesar do retorno pontual em Matrix Resurrections, a atriz que definiu uma era de ação técnica e profundidade dramática comentou publicamente sobre como as ofertas secaram drasticamente após ela completar 40 anos. É o contraste absoluto: enquanto a indústria “fabrica” espaços para Kardashian e outras celebridades em seus 40 e 50 anos (porque elas trazem financiamento), atrizes que construíram carreiras sólidas são descartadas pela obsolescência programada do sexismo de Hollywood.

