Por que o Grammy ignora canções geniais há 70 anos?

Prestes a completar 70 anos, a categoria de Canção do Ano no Grammy permanece como o mais fascinante estudo sobre a miopia institucional da indústria fonográfica.
Nenhuma canção de Janis Joplin, The Doors, Prince, Queen, David Bowie, Aretha Franklin e Whitney Houston venceu na categoria. Madonna, Rolling Stones, Bob Dylan, Elton John, Stevie Wonder, ABBA, Taylor Swift e Lady Gaga, seguem pacientemente na fila de espera por este reconhecimento de composição.
Michael Jackson, o Rei do Pop, possui uma única vitória solitária, e ainda assim, diluída no projeto humanitário de caridade “We Are The World”.

Grammy – Esnobados na categoria Melhor Canção @ Gemini

Desde sua estreia em 1959, o Grammy estabeleceu uma barreira estética contra as revoluções que pulsavam nas calçadas. Enquanto o Rock and Roll e o R&B de vanguarda redesenhavam o comportamento da juventude, a Academia refugiava-se em baladas tradicionais e temas cinematográficos de compositores como Henry Mancini. Não se tratava apenas de uma escolha estilística, mas de uma tentativa deliberada de silenciar o barulho das mudanças sociais sob o verniz de uma civilidade sonora.

O ano de 1967 ensaiou uma ruptura quando a composição “Michelle”, de John Lennon e Paul McCartney, finalmente rompeu o cerco. Foi a primeira vez que o rock contemporâneo venceu o prêmio, derrotando o conservadorismo das baladas de salão. Contudo, o suspiro de modernidade foi curto. Apenas dois anos depois, a tola canção “Little Green Apples” triunfava sobre os monumentos culturais “Hey Jude” e “Mrs. Robinson”.

1970

Grammy Melhor Canção Anos 1970 @ Gemini

A década de 1970 consolidou-se como o refúgio em torre de marfim da Academia. Enquanto o mundo era incinerado pela urgência do Punk londrino, pelo Glam Rock andrógino de David Bowie e pela sofisticação arquitetônica do Queen com “Bohemian Rhapsody”, o Grammy preferia o isolamento acústico de estúdios luxuosos.
Foi o apogeu do Soft Pop inofensivo. A instituição premiou o escapismo de “Games People Play” e “The First Time Ever I Saw Your Face”, enquanto ignorava solenemente o clamor social de Marvin Gaye em “What’s Going On”.
A barreira contra o real era tão espessa que, entre 1974 e 1978, a categoria premiou uma sucessão de baladas sacarinas como “Killing Me Softly with His Song”, “The Way We Were”, “Send in the Clowns” e o hino do narcisismo pop “I Write the Songs”.
O ápice do anacronismo deu-se com as vitórias de “Evergreen” e “You Light Up My Life”, enquanto o Funk de James Brown e o Reggae de Bob Marley inventavam o som do futuro nas periferias globais, totalmente invisíveis para a elite de Los Angeles.

1980

Ao analisar os anos de 1980, a miopia transformou-se em cegueira tecnológica. Foi a década em que o sintetizador redesenhou a música e o videoclipe transformou a moda em um espetáculo ininterrupto.
No entanto, para o Grammy de Canção do Ano, a revolução do New Wave de nomes como Eurythmics, Depeche Mode, New Order e The Cure nunca aconteceu.

A Academia parecia horrorizada com a “artificialidade” das máquinas, preferindo premiar o iatismo sonoro de Christopher Cross com “Sailing” ou o saudosismo country de “Always on My Mind”, que em 1983 derrotou o impacto sísmico de “Billie Jean”. Sim, o mundo mudava de eixo com Michael Jackson, mas os votantes preferiam o conforto do violão de Willie Nelson.
A década seguiu ignorando os pilares da estética oitentista. Prince, o gênio que fundiu o funk com o rock e a psicodelia em “When Doves Cry” e “Purple Rain”, foi solenemente preterido por baladas de trilhas sonoras ou projetos de conscientização social.
Enquanto o Hip Hop nascia com a urgência de “The Message” de Grandmaster Flash e a rebeldia do Run-D.M.C. — movimentos que definiram a cultura urbana e o streetwear de luxo que hoje domina as passarelas — o Grammy entregava o prêmio de composição para a benevolência de “We Are the World” ou o sentimentalismo de “That’s What Friends Are For”.

No fechamento da década, quando Madonna desafiava a religião e o conservadorismo com “Like a Prayer” e o Guns N’ Roses devolvia o perigo ao rock com “Sweet Child O’ Mine”, a Academia refugiou-se na inocência de “Somewhere Out There” e no otimismo passageiro de “Don’t Worry, Be Happy”.

1990

A década de 1990 testemunhou um dos maiores hiatos de relevância da história, marcada por uma sucessão de melodramas industriais. O momento em que Eric Clapton venceu com uma versão acústica de “Tears in Heaven” enquanto o mundo era sacudido pelo movimento Grunge é frequentemente citado como a declaração de guerra da Academia à modernidade. A origem da canção é dilacerante, fruto de uma tragédia pessoal de Clapton com seu filho Conor, em 1991. A Academia, que demonstra um apetite insaciável por narrativas de redenção, utilizou a dor do artista como um escudo. Criticar a qualidade da música parecia uma ofensa à própria dor do pai. Musicalmente, no entanto, a obra é uma balada de estrutura básica, desprovida das progressões harmônicas desafiadoras que Clapton explorou em sua fase áurea.

Em 1993, enquanto o Grammy se emocionava com o acústico de Clapton, o mundo era revirado por Nirvana, Pearl Jam e Soundgarden. O cenário era dominado por “The Chronic”, de Dr. Dre, e pelo álbum “Automatic for the People”, do R.E.M., com uma melancolia muito mais densa e complexa.

69 anos do Grammy de Melhor Canção @ Gemini

Entretanto, a lista de vencedores daquela década preferiu o conforto de “Unforgettable”, uma composição de 1951, ou a segurança de trilhas como “A Whole New World”, “Streets of Philadelphia” e “My Heart Will Go On”. Entre vitórias de “Change the World” e “Sunny Came Home”, o prêmio de composição tornou-se um subproduto de marketing com pouca vida própria após o ciclo das luzes da cerimônia.

2000

Os anos 2000 marcaram o despertar de uma nova autoria, onde o Neossoul de Alicia Keys em “Fallin” e a imperfeição autêntica de Amy Winehouse com “Rehab” forçaram as portas da instituição. Foi um período de transição em que o minimalismo elegante de Norah Jones e o manifesto político das The Chicks em “Not Ready to Make Nice” tentaram equilibrar a balança contra o conservadorismo.

Contudo, o porto seguro do Rock de arena com o U2 e o Soft Rock inofensivo de John Mayer provaram que a Academia ainda hesitava em mergulhar totalmente no século XXI. Enquanto o Hip Hop de Eminem e a inventividade do Outkast redefiniam o consumo global, o Grammy de composição permanecia, em grande parte, um santuário para o que os votantes consideravam o novo adulto.

2010 – 2020

Por décadas, a majoritariamente, a Academia era chamada de “clube de cavalheiros” — majoritariamente branco, cis, masculino e com idade avançada — que tendia a votar por nostalgia ou por nomes que reconheciam nos encartes de LPs.

Em 2017, o mundo assistiu em choque quando o álbum “25” da Adele venceu o aclamado “Lemonade” da Beyoncé na categoria de Álbum do Ano. A própria Adele, em seu discurso, disse que não podia aceitar o prêmio porque Beyoncé era a artista da vida dela. Foi ali que a hashtag #GrammysSoWhite explodiu nas redes sociais, unindo a frustração racial à de gênero. No ano seguinte, após uma cerimônia onde pouquíssimas mulheres venceram, o então presidente da Academia, Neil Portnow, disse que as mulheres precisavam “dar um passo à frente” para serem reconhecidas.

#GrammySoWhite @ Gemini

Diante da quantidade de reclamações, ele foi forçado a deixar o cargo, e a Academia criou a Task Force on Diversity and Inclusion. Em seguida, convidou milhares de novos membros, focando em mulheres, negros, latinos e, crucialmente, jovens profissionais que estão na linha de frente da produção atual. Isso diluiu o poder da “velha guarda”.
Por décadas, a majoritariamente, a Academia era chamada de “clube de cavalheiros” — majoritariamente branco, cis, masculino e com idade avançada — que tendia a votar por nostalgia ou por nomes que reconheciam nos encartes de LPs.

Até 2021, o Grammy utilizava os chamados Comitês de Revisão de Nomeações. Eram grupos anônimos de 15 a 30 especialistas que davam a palavra final sobre quem seriam os indicados, muitas vezes ignorando o voto da massa de membros para colocar nomes que eles consideravam “mais prestigiosos” ou “comercialmente seguros”.
Após denúncias de falta de transparência e conflitos de interesse, esses comitês foram abolidos nas categorias principais. Hoje, quem decide os indicados é o voto direto dos milhares de membros. Isso permitiu que o “gosto real” dos profissionais da música chegasse à lista final, sem o filtro conservador de uma elite interna.
Outra regra que mudou foi o número de indicados. Passamos de 5 para 8 e, recentemente, para 10 indicados nas categorias principais (como Canção do Ano).

Com mais vagas, o Grammy parou de precisar escolher entre o “hit seguro” e a “inovação crítica”.
Ele passou a colocar ambos na mesa. Isso explica por que, mesmo que uma canção tradicional vença, a lista de indicados agora reflete muito melhor o que realmente aconteceu no ano.
Contudo, o DNA conservador da Academia ainda manifesta espasmos de nostalgia em vitórias seguras como as de John Mayer ou Bonnie Raitt, provando que, embora o paladar tenha se refinado, a zona de conforto continua sendo o prato favorito da casa.

A década 2010 terminou ignorando totalmente canções inovadoras, como de Beyoncé, Lady Gaga, Lana Del Rey, Weeknd, Kendrick Lamar, entre outras.

 

Nesta década, as vitórias de Childish Gambino e Kendrick Lamar surgem como pedidos de desculpas tardios por décadas de negligência com a cultura urbana.
A terceira vitória de Eilish na categoria – com “Wildflower’ – é sustentada por uma qualidade técnica irretocável, uma balada de construção clássica que utiliza o crescendo emocional com uma sofisticação rara no pop de algoritmo.
Embora o Grammy ensaie se modernizar, o panorama sugere que a relevância futura de um vencedor continua sendo uma incógnita.
No final das contas, a história do Grammy de Canção do Ano continua sendo a crônica de uma instituição que, na tentativa ansiosa de ser eterna, frequentemente se esqueceu de ser atual.

Lista completa dos vencedores do Grammy de Canção do Ano

Década de 1950

1959: Nel blu dipinto di blu (Volare) | Domenico Modugno | Pop Tradicional

Década de 1960

1960: The Battle of New Orleans | Johnny Horton | Country
1961: Theme of Exodus | Instrumental | Trilha Sonora
1962: Moon River | Henry Mancini | Pop Tradicional
1963: What Kind of Fool Am I? | Sammy Davis Jr. | Show Tune
1964: Days of Wine and Roses | Henry Mancini | Pop Tradicional
1965: Hello, Dolly! | Louis Armstrong | Jazz
1966: The Shadow of Your Smile | Tony Bennett | Bossa Nova
1967: Michelle | The Beatles | Rock
1968: Up, Up and Away | The 5th Dimension | Sunshine Pop
1969: Little Green Apples | O.C. Smith | Country Pop

Década de 1970

1970: Games People Play | Joe South | Country Rock
1971: Bridge over Troubled Water | Simon & Garfunkel | Folk Rock
1972: You’ve Got a Friend | Carole King | Soft Rock
1973: The First Time Ever I Saw Your Face | Roberta Flack | Soul
1974: Killing Me Softly with His Song | Roberta Flack | Soul
1975: The Way We Were | Barbra Streisand | Pop
1976: Send in the Clowns | Judy Collins | Show Tune
1977: I Write the Songs | Barry Manilow | Pop
1978 (Empate): Evergreen | Barbra Streisand | Pop e You Light Up My Life | Debby Boone | Pop
1979: Just the Way You Are | Billy Joel | Soft Rock

Década de 1980

1980: What a Fool Believes | The Doobie Brothers | R&B
1981: Sailing | Christopher Cross | Soft Rock
1982: Bette Davis Eyes | Kim Carnes | New Wave
1983: Always on My Mind | Willie Nelson | Country
1984: Every Breath You Take | The Police | New Wave
1985: What’s Love Got to Do with It | Tina Turner | Pop
1986: We Are the World | USA for Africa | Pop
1987: That’s What Friends Are For | Dionne Warwick | Pop
1988: Somewhere Out There | Linda Ronstadt e James Ingram | Pop
1989: Don’t Worry, Be Happy | Bobby McFerrin | Reggae

Década de 1990

1990: Wind Beneath My Wings | Bette Midler | Pop
1991: From a Distance | Bette Midler | Pop
1992: Unforgettable | Natalie Cole e Nat King Cole | Pop Tradicional
1993: Tears in Heaven | Eric Clapton | Soft Rock
1994: A Whole New World | Peabo Bryson e Regina Belle | Pop
1995: Streets of Philadelphia | Bruce Springsteen | Heartland Rock
1996: Kiss from a Rose | Seal | Soul
1997: Change the World | Eric Clapton | Pop Rock
1998: Sunny Came Home | Shawn Colvin | Folk Rock
1999: My Heart Will Go On | Celine Dion | Pop

Década de 2000

2000: Smooth | Santana e Rob Thomas | Latin Rock
2001: Beautiful Day | U2 | Rock
2002: Fallin’ | Alicia Keys | R&B
2003: Don’t Know Why | Norah Jones | Jazz
2004: Dance with My Father | Luther Vandross | Soul
2005: Daughters | John Mayer | Soft Rock
2006: Sometimes You Can’t Make It on Your Own | U2 | Rock
2007: Not Ready to Make Nice | The Chicks | Country Rock
2008: Rehab | Amy Winehouse | Soul
2009: Viva la Vida | Coldplay | Rock Alternativo

Década de 2010

2010: Single Ladies (Put a Ring on It) | Beyoncé | R&B
2011: Need You Now | Lady A | Country Pop
2012: Rolling in the Deep | Adele | Soul
2013: We Are Young | fun. | Indie Pop
2014: Royals | Lorde | Art Pop
2015: Stay with Me | Sam Smith | Soul
2016: Thinking Out Loud | Ed Sheeran | Pop
2017: Hello | Adele | Soul
2018: That’s What I Like | Bruno Mars | Funk R&B
2019: This Is America | Childish Gambino | Hip Hop

Década de 2020

2020: Bad Guy | Billie Eilish | Electropop
2021: I Can’t Breathe | H.E.R. | Soul R&B
2022: Leave the Door Open | Silk Sonic | Soul
2023: Just Like That | Bonnie Raitt | Folk
2024: What Was I Made For? | Billie Eilish | Pop
2025: Not Like Us | Kendrick Lamar | Hip Hop
2025: Wildflower | Billie Eislish | Pop

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