Uma análise dos álbuns esnobados da história do Grammy

A histórica vitória de Bad Bunny no 68º Grammy Awards com Debí Tirar Más Fotos não apenas quebra a barreira da língua, mas serve como um raro momento de correção de curso para a Academia de Gravação.
Historicamente, a instituição tem sido alvo de severas críticas acadêmicas e jornalísticas por privilegiar vendas, conservadorismo sonoro e forte resistência à inovação cultural e artística.

Bad Bunny Grammy 2026 @ Getty

MONDO MODA preparou uma análise por década dos momentos em que a Academia optou pela segurança, ignorando obras-primas que definiram a cultura pop.

DÉCADA DE 1960: O medo do novo

Grammy – Álbuns injustiçados 1960 @ Gemini

A cerimônia inaugural de 1959 já estabeleceu o DNA conservador da premiação. Enquanto Henry Mancini vencia com a trilha sonora de uma série de TV The Music from Peter Gunn, a Academia ignorava Ella Fitzgerald Sings the Irving Berlin Songbook. Premiar uma música de fundo competente em detrimento da “a” referência do jazz vocal, na qual Ella elevou o cancioneiro popular à alta arte, foi o primeiro sinal de que a utilidade comercial valia mais que a excelência.
O erro se agravou em 1963, quando The First Family, um álbum de comédia datado de Vaughn Meader, derrotou a revolução estética de Ray Charles em Modern Sounds in Country and Western Music. Enquanto Charles fundia a música branca rural com o soul negro em pleno auge dos Direitos Civis, globalizando o country, a Academia preferiu um disco de piadas, provando sua miopia cultural.

The Beatles (1967) @ divulgação

A resistência ao rock ficou evidente em 1966 e 1967, quando Frank Sinatra venceu dois anos consecutivos (com September of My Years e A Man and His Music) derrotando as evoluções criadas pelos Beatles em Help! E Revolver.

Ao preferir regravações de sucessos antigos à obra que inventou o estúdio como instrumento (loops e psicodelia), o Grammy recusou-se a aceitar que o rock havia se tornado arte erudita.
A década fechou em 1969 com o pop-country seguro de Glen Campbell superando a angústia existencial de Bookends (Simon & Garfunkel) e a inovação de Magical Mystery Tour (The Beatles).
Vale citar o elefante na sala: Pet Sounds (1966), dos Beach Boys, sequer foi indicado.

DÉCADA DE 1970: A rejeição da contracultura

 

Grammy – Álbuns injustiçados 1970 @ Gemini

Nos anos 70, a Academia tentou conter a explosão de subgêneros que não compreendia.
Em 1970, o jazz-rock datado do Blood, Sweat & Tears venceu a revolução tecnológica de Abbey Road, dos Beatles. O famoso medley do Lado B antecipou a música eletrônica, mas a Academia preferiu uma banda de covers de luxo. Em 1971, a beleza gospel de Bridge Over Troubled Water (Simon & Garfunkel) venceu a tensão política de Déjà Vu (Crosby, Stills, Nash & Young). Enquanto a América sangrava com o Vietnã, o Grammy escolheu a harmonia apaziguadora em vez do jornalismo musical de Neil Young.

Lançado em março de 1973, “The Dark Side of the Moon” (Pink Floyd) é um dos maiores “injustiçados” da história do Grammy, talvez o caso mais técnico e gritante de todos.
O disco que redefiniu o conceito de “álbum”, criou uma experiência sonora contínua e vendeu 50 milhões de cópias, ficando 996 semanas nas paradas da Billboard… Recebeu uma única indicação de Melhor Engenharia de Som (Não-Clássica) para Alan Parsons e PERDEU!

The Dark Side of the Moon – Pink Floyd @ reprodução

Os concorrentes do ano foram “Innervisions” (Stevie Wonder – vencedor), “Behind Closed Doors” (Charlie Rich), “The Divine Miss M” (Bette Midler), “Killing Me Softly” (Roberta Flack) e “There Goes Rhymin’s Simon” (Paul Simon).

Ninguém critica a vitória do trabalho de Stevie Wonder, considerado uma obra-prima do soul-funk, porém, deixar de fora Pink Floyd em detrimento aos inferiores “Behind Closed Doors” e “The Divine Miss M” (com todo o respeito a Bette, que é adorável), é surreal!

Em 1975, Stevie Wonder venceu no “piloto automático” com Fulfillingness’ First Finale, barrando a obra-prima Court and Spark, de Joni Mitchell. A derrota de Mitchell, que fundiu folk e jazz com complexidade inédita, estabeleceu o precedente de não premiar mulheres que assumem total controle criativo.

Omissões gritantes marcaram o período: Led Zeppelin IV, Ziggy Stardust (Bowie), What’s Going On (Marvin Gaye) e A Night At The Opera (Queen) foram completamente ignorados nas indicações principais.

DÉCADA DE 1980: A era do plástico

Grammy – Álbuns injustiçados 1980 @ Gemini

Na década do pop comercial, a surdez cultural se consolidou. O ponto mais baixo ocorreu em 1981, quando o soft rock inofensivo de Christopher Cross varreu a premiação, derrotando The Wall, do Pink Floyd. A Academia escolheu a anestesia da era Reagan em vez de confrontar a ópera-rock sobre fascismo e isolamento.

Em 1985, Lionel Richie (Can’t Slow Down) venceu a batalha de titãs entre Prince (Purple Rain) e Bruce Springsteen (Born in the U.S.A.). Foi um “sim” às vendas e um “não” à provocação sexual e política.

Em 1986, o pop sintético de Phil Collins superou Brothers in Arms, do Dire Straits, o primeiro marco da era digital e do rock adulto. Já em 1988, embora The Joshua Tree do U2 seja um clássico, sua vitória sobre Sign o’ the Times de Prince revelou o viés racial da instituição: o rock messiânico branco foi validado, enquanto a genialidade polimática negra de Prince foi preterida.
O hip-hop, representado pela obra-prima do Public Enemy em 1989, sequer foi cogitado.

Elefantes na sala: ausências das listas de indicados à Álbum do Ano: “Sweet Dreams (Are Made of This)” (Eurythmics, 1983, com as canções “Love Is a Stranger”, “This City Never Sleeps”, além da canção título), “Power, Corruption & Lies” (New Order, 1983, com a canção “Blue Monday”), “The Queen Is Dead” (The Smiths, 1986, com as canções “The Boy with the Thorn in His Side” e “There is a Light That Never Goes Out”), “Once Upon a Time” (Simple Minds, 1985, com as canções “Alive And Kicking” e “Don’t You (Forget About Me)”).

DÉCADA DE 1990: A fuga para o passado

Grammy – Álbuns injustiçados 1990 @ Gemini

Mesmo diante dos principais movimentos musicais da década, Grunge e do Hip-Hop, o Grammy refugiou-se na nostalgia.

Um dos maiores impactos culturais da década, o álbum “Nevermind”, do Nirvana, perdeu as três únicas indicações que obteve. Pior: nem concorreu à Melhor Álbum do Ano.

Em 1992, o tributo póstumo e saudosista de Natalie Cole venceu a vitalidade do R.E.M. em Out of Time.

Em 1993, o acústico conservador de Eric Clapton derrotou a reinvenção industrial do U2 em Achtung Baby.
Em 1994, a força comercial da trilha de O Guarda-Costas atropelou a profundidade melancólica de Automatic for the People (R.E.M.), ignorando uma obra de arte atemporal em favor de um produto de época.
A recusa ao moderno atingiu o ápice em 1997, quando o pop meloso de Celine Dion venceu as colagens sônicas de Beck (Odelay) e a reinvenção do hip-hop pelos Fugees (The Score).

A década encerrou em 1998 com a vitória de “legado” de Bob Dylan sobre OK Computer, do Radiohead. Em vez de coroar a banda que desenhava o futuro ansioso do século XXI, os votantes honraram o ícone que definiu os anos 60.

Elefante da Sala: “Violator” (Depeche Mode, 1990), com os clássicos “Personal Jesus” e “Enjoy the Silence” foi ignorado na categoria.

DÉCADA DE 2000: Ainda apegos ao passado

Grammy – Álbuns injustiçados 2000 @ Gemini

A primeira década do milênio foi a “Década do Legado”. O maior erro ocorreu em 2001: o jazz-rock morno do Steely Dan venceu duas revoluções, Kid A (Radiohead) e The Marshall Mathers LP (Eminem). Foi uma rejeição clara ao perigo do Rap e à vanguarda eletrônica.

Em 2005, a homenagem póstuma a Ray Charles derrotou The College Dropout, de Kanye West, o álbum que redefiniu a sonoridade e a temática do hip-hop global.
Kanye foi vítima novamente em 2006, perdendo com seu rap sinfônico (Late Registration) para o rock genérico do U2 (How to Dismantle an Atomic Bomb).
Em 2008, o elitismo prevaleceu quando um tributo de jazz de Herbie Hancock venceu Back to Black, de Amy Winehouse, negando a legitimação de uma narrativa feminina crua.

Em 2009, o folk de bom gosto de Robert Plant e Alison Krauss venceu In Rainbows (Radiohead), punindo a banda que desafiou a estrutura econômica das gravadoras.

DÉCADA DE 2010: A barreira invisível

Grammy – Álbuns injustiçados 2010 @ Gemini

Os anos 2010 foram marcados por uma guerra fria contra a relevância da música negra. Em 2013, o fake folk do Mumford & Sons venceu a desconstrução do R&B de Frank Ocean em Channel Orange.

Em 2014, o escapismo disco do Daft Punk superou o cinema verité de Kendrick Lamar em Good Kid, M.A.A.D City.
Em 2015, Beck venceu o álbum visual autointitulado de Beyoncé, ignorando uma artista que reescreveu as regras de marketing e formato da indústria.
A polarização atingiu o limite em 2016, quando o pop adolescente de Taylor Swift (1989) venceu o manifesto político To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar.
A década se encerrou em 2017 com a vitória de Adele (25) sobre Lemonade, de Beyoncé. A própria Adele, ao vencer, usou seu discurso para dizer que não merecia o prêmio, chamando Lemonade de “monumental”.

Críticos da NPR e The New Yorker apontaram que, se Beyoncé não conseguiu vencer com sua obra mais aclamada, vulnerável e politicamente potente, então é estatisticamente impossível para uma mulher negra vencer na categoria principal fazendo arte negra sem concessões ao pop branco.

DÉCADA DE 2020: Pequenas mudanças acontecem. Será?

Antes da correção com Bad Bunny em 2026 e Beyoncé em 2025 (com Cowboy Carter), a década começou com velhos hábitos. Em 2023, Renaissance de Beyoncé, celebrado universalmente por reviver a cultura house e ballroom queer, perdeu para Harry’s House de Harry Styles, um álbum pop bem executado, mas considerado inofensivo.

Em 2024, a vitória de Midnights de Taylor Swift sobre SOS de SZA gerou nova controvérsia. Enquanto o álbum de SZA era aclamado pela crítica por sua vulnerabilidade e fusão de gêneros (R&B, pop, rock), a vitória de Swift foi interpretada por analistas como uma recusa da Academia em sair de sua zona de conforto, premiando a onipresença comercial em vez da profundidade emocional crua que SOS oferecia.

A lista completa dos vencedores – em ordem cronológica

DÉCADA DE 1950
1959: The Music from Peter Gunn — Henry Mancini (Trilha Sonora / Jazz)

DÉCADA DE 1960
1960: Come Dance with Me! — Frank Sinatra (Pop Tradicional / Vocal Jazz)
1961: The Button-Down Mind of Bob Newhart — Bob Newhart (Comédia)
1962: Judy at Carnegie Hall — Judy Garland (Pop Tradicional / Ao Vivo)
1963: The First Family — Vaughn Meader (Comédia)
1964: The Barbra Streisand Album — Barbra Streisand (Pop Tradicional)
1965: Getz/Gilberto — Stan Getz & João Gilberto (Bossa Nova / Jazz)
1966: September of My Years — Frank Sinatra (Pop Tradicional)
1967: A Man and His Music — Frank Sinatra (Pop Tradicional)
1968: Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band — The Beatles (Rock / Psicodelia)
1969: By the Time I Get to Phoenix — Glen Campbell (Country Pop)

DÉCADA DE 1970
1970: Blood, Sweat & Tears — Blood, Sweat & Tears (Jazz-Rock)
1971: Bridge over Troubled Water — Simon & Garfunkel (Folk Rock)
1972: Tapestry — Carole King (Pop / Singer-Songwriter)
1973: The Concert for Bangladesh — George Harrison & Friends (Rock / Ao Vivo)
1974: Innervisions — Stevie Wonder (Soul / R&B)
1975: Fulfillingness’ First Finale — Stevie Wonder (Soul / R&B)
1976: Still Crazy After All These Years — Paul Simon (Pop Rock)
1977: Songs in the Key of Life — Stevie Wonder (Soul / R&B)
1978: Rumours — Fleetwood Mac (Pop Rock)
1979: Saturday Night Fever — Bee Gees & Vários Artistas (Disco / Trilha Sonora)

DÉCADA DE 1980
1980: 52nd Street — Billy Joel (Pop Rock / Jazz Fusion)
1981: Christopher Cross — Christopher Cross (Soft Rock)
1982: Double Fantasy — John Lennon & Yoko Ono (Pop Rock)
1983: Toto IV — Toto (Pop Rock / Soft Rock)
1984: Thriller — Michael Jackson (Pop / R&B)
1985: Can’t Slow Down — Lionel Richie (Pop / R&B)
1986: No Jacket Required — Phil Collins (Pop Rock)
1987: Graceland — Paul Simon (Worldbeat / Pop)
1988: The Joshua Tree — U2 (Rock)
1989: Faith — George Michael (Pop / R&B)

DÉCADA DE 1990
1990: Nick of Time — Bonnie Raitt (Blues Rock)
1991: Back on the Block — Quincy Jones (R&B / Jazz Fusion)
1992: Unforgettable… with Love — Natalie Cole (Pop Tradicional / Jazz)
1993: Unplugged — Eric Clapton (Blues Rock / Acústico)
1994: The Bodyguard — Whitney Houston / Vários Artistas (R&B / Pop / Trilha Sonora)
1995: MTV Unplugged — Tony Bennett (Pop Tradicional / Ao Vivo)
1996: Jagged Little Pill — Alanis Morissette (Rock Alternativo)
1997: Falling into You — Celine Dion (Pop)
1998: Time Out of Mind — Bob Dylan (Folk Rock / Blues)
1999: The Miseducation of Lauryn Hill — Lauryn Hill (Neo-Soul / Hip-Hop)

DÉCADA DE 2000
2000: Supernatural — Santana (Rock Latino)
2001: Two Against Nature — Steely Dan (Jazz Rock)
2002: O Brother, Where Art Thou? — Vários Artistas (Folk / Bluegrass / Trilha Sonora)
2003: Come Away with Me — Norah Jones (Jazz Pop)
2004: Speakerboxxx/The Love Below — OutKast (Hip-Hop)
2005: Genius Loves Company — Ray Charles & Vários Artistas (R&B / Soul / Pop)
2006: How to Dismantle an Atomic Bomb — U2 (Rock)
2007: Taking the Long Way — Dixie Chicks (Country)
2008: River: The Joni Letters — Herbie Hancock (Jazz)
2009: Raising Sand — Robert Plant & Alison Krauss (Americana / Folk)

DÉCADA DE 2010
2010: Fearless — Taylor Swift (Country Pop)
2011: The Suburbs — Arcade Fire (Indie Rock)
2012: 21 — Adele (Pop / Soul)
2013: Babel — Mumford & Sons (Folk Rock)
2014: Random Access Memories — Daft Punk (Eletrônica / Disco)
2015: Morning Phase — Beck (Folk Rock)
2016: 1989 — Taylor Swift (Synth-Pop)
2017: 25 — Adele (Pop / Soul)
2018: 24K Magic — Bruno Mars (R&B / Funk)
2019: Golden Hour — Kacey Musgraves (Country Pop)

DÉCADA DE 2020
2020: When We All Fall Asleep, Where Do We Go? — Billie Eilish (Art Pop / Eletropop)
2021: folklore — Taylor Swift (Indie Folk)
2022: We Are — Jon Batiste (R&B / Jazz / Soul)
2023: Harry’s House — Harry Styles (Pop / Synth-Pop)
2024: Midnights — Taylor Swift (Synth-Pop)
2025: Cowboy Carter — Beyoncé (Country / Americana)
2026: Debí Tirar Más Fotos — Bad Bunny (Latin Trap / Reggaeton)

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