A cerimônia do BAFTA Film Awards 2026 acontecerá no domingo, 22 de fevereiro, às 16h (horário de Brasília), no Royal Festival Hall, em Londres, com apresentação do ator escocês Alan Cumming.
A 79ª edição da premiação da British Academy of Film and Television Arts chega enfrentando o maior desafio de sua existência de quase oito décadas: justificar sua relevância global enquanto sustenta uma estrutura que, estatisticamente e historicamente, opera como uma ferramenta de manutenção da supremacia branca na cultura.

Fundada em 1947, a instituição nasceu com o propósito de elevar o cinema britânico. Contudo, ao longo dos anos, transformou-se em um guardião dos portões da elite cultural, onde a excelência é quase invariavelmente sinônimo de branquitude.
Uma análise quantitativa sobre os vencedores das categorias de atuação desde a unificação dos prêmios revela um cenário perturbador. Estima-se que mais de 94% dos vencedores nas quatro categorias de interpretação sejam pessoas brancas. A presença negra no pódio é uma exceção estatística, evidenciando um viés cognitivo dos votantes que sistematicamente ignoram performances que não se encaixem em estereótipos.
O dado mais vergonhoso reside na categoria de Melhor Atriz em Papel Principal: até o momento, nenhuma mulher negra venceu este prêmio. Trata-se de um bloqueio absoluto que dura quase 80 anos.
Concorrentes sem nenhuma vitória

Em 1955, Dorothy Dandridge (“Carmen Jones”) concorreu na categoria Melhor Atriz Estrangeira. Perdeu para Betsy Blair. Duas décadas depois, Cicely Tyson (“Lágrimas de Esperança”) e Diana Ross (“O Ocaso de uma Estrela”) foram indicadas no mesmo ano (1974) e perderam para a francesa Stéphane Audran.
No século 21, o ciclo continuou: Gabourey Sidibe (“Preciosa”) perdeu para Carey Mulligan; Viola Davis (“Histórias Cruzadas”) perdeu para Meryl Streep; Quvenzhané Wallis (“Indomável Sonhadora”) perdeu para Emmanuelle Riva e Ruth Negga (“Loving”) foi derrotada por Emma Stone.

Porém, o momento mais constrangedor aconteceu em 2021. Quatro atrizes negras — Bukky Bakray (“Rocks”), Alfre Woodard (“Clemency”), Wunmi Mosaku (“O Que Ficou Para Trás”) e Radha Blank (“The 40-Year-Old Version”) — disputaram a estatueta. A única concorrente branca, além da vencedora, era Vanessa Kirby.
Mesmo com 66% da categoria composta por mulheres negras, a Academia premiou Frances McDormand (“Nomadland”), que sequer compareceu à cerimônia virtual, gerando um silêncio desconfortável no anúncio.
O padrão seguiu nos anos seguintes: Tessa Thompson, Viola Davis, Danielle Deadwyler, Fantasia Barrino e Vivian Oparah foram todas derrotadas por concorrentes brancas.
Agora, em 2026, a história ameaça se repetir na categoria principal. A estreante Chase Infiniti (“Uma Batalha Após a Outra”) e a veterana Marianne Jean-Baptiste (“Hard Truths”) concorrem, mas veem o favoritismo da crítica recair sobre Mikey Madison (“Anora”).
A Categoria Coadjuvante como Teto de Vidro

Se a porta para as protagonistas continua trancada, a academia britânica permitiu a entrada de mulheres negras apenas pela porta de serviço das categorias de apoio. As raras premiadas (como Octavia Spencer, Mo’Nique, Viola Davis e Da’Vine Joy Randolph) geralmente venceram interpretando papéis de subalternidade ou sofrimento.
Neste ano de 2026, a categoria de Melhor Atriz Coadjuvante ilustra perfeitamente essa dinâmica. Das seis indicadas, duas são mulheres negras em performances aclamadas: Wunmi Mosaku (“Pecadores”) e Teyana Taylor (“Uma Batalha Após a Outra”).
Elas disputam a máscara dourada contra Odessa A’zion (“Marty Supreme”), Inga Ibsdotter Lilleaas (“Valor Sentimental”), Carey Mulligan (“The Ballad of Wallis Island”) e a veterana Emily Watson (“Hamnet”).
O Caso Denzel Washington: O Boicote Silencioso

Nas categorias masculinas, o desprezo é igualmente notável. Denzel Washington, um dos maiores atores da história, com dois Oscars e dez indicações à academia americana, nunca recebeu uma única indicação competitiva ao BAFTA. Performances monumentais em “Malcolm X”, “Dia de Treinamento” e “Um Limite Entre Nós” foram solenemente ignoradas pelos britânicos.
O Escândalo de 2020 e a Falsa Reforma
Após o escândalo #BAFTAsSoWhite de 2020, quando nenhum ator negro foi indicado, a Academia implementou 120 mudanças nas regras. A principal delas foi a intervenção de júris na seleção dos indicados, tirando o poder absoluto do voto popular nas etapas iniciais para garantir diversidade nas listas. Também foi instituída a obrigatoriedade de assistir aos filmes para votar, combatendo a preguiça dos membros que votavam apenas em nomes famosos.
Em 2026, apesar da presença de Michael B. Jordan, Chase Infiniti, Wunmi Mosaku e Teyana Taylor nas listas finais, a questão que paira sobre o Royal Festival Hall não é sobre a qualidade de seus trabalhos, mas se o BAFTA terá a coragem de quebrar seu próprio histórico de exclusão no momento decisivo.
O que diz a imprensa internacional

A cobertura da mídia global sobre o BAFTA 2026 revela um abismo de percepções. Para as chamadas “bíblias da indústria” estadunidense, como Variety e The Hollywood Reporter, a narrativa deste ano é de celebração institucional.
Ambos os veículos destacam a presença de nomes como Michael B. Jordan e Wunmi Mosaku nas listas finais como uma “prova de vida” de que as 120 mudanças nas regras surtiram efeito. Para eles, o fato de o BAFTA ter evitado um novo #WhiteOut já valida a premiação como um termômetro vital e modernizado para o Oscar.
No entanto, a leitura muda drasticamente quando cruzamos para a crítica europeia independente. O jornal britânico The Guardian aponta que o BAFTA vive em um estado de “reforma perpétua” que nunca entrega o que promete. Seus analistas criticam que, embora as listas preliminares (longlists) e os indicados via júri sejam diversos, a escolha final dos vencedores continua presa a velhos hábitos: “Incluir nomes negros na lista longa para evitar o cancelamento é a parte fácil; o teste real de caráter é quem sobe ao palco para discursar”.
Já a francesa Cahiers du Cinéma adota uma postura ainda mais distanciada, enxergando a premiação como um evento de diplomacia cultural que tenta resolver problemas profundos com “remendos burocráticos”.
Para a revista, ao tentar agradar a todos com cotas e júris complexos, o BAFTA prioriza o “marketing da consciência” em detrimento de uma curadoria que valorize obras autorais e politicamente desafiadoras, mantendo o cinema como um clube de cavalheiros sob nova direção.
