Muito além de Bette Davis Eyes: O legado de Kim Carnes

A trajetória da cantora e compositora estadunidense Kim Carnes representa um dos casos mais singulares e instrutivos da indústria fonográfica mundial. Com uma voz que a revista Rolling Stone descreveu como um instrumento de soul ríspido, desgastado e absolutamente desafiador, Carnes atravessou décadas oscilando entre o estrelato absoluto da era MTV e a maestria técnica na composição para grandes nomes da música contemporânea.
O início de sua jornada solo em 1971, com o álbum Rest on Me, foi marcado por um silêncio comercial que contrasta com a potência de seu talento. Naquele momento, o mundo ainda processava o luto pela morte de Janis Joplin ocorrida um ano antes e o folk e country-pop mais contido de Kim não chamou a atenção.

Somado a isso, o ano marcou a explosão do chamado Bubblegum Pop e das Teen Idols de família, que dominavam as paradas com uma estética solar e produções açucaradas, como o The Partridge Family (com David Cassidy), The Osmonds e o frescor juvenil do Jackson 5.
Na concorrência direta das cantoras solo, a hegemonia pertencia à doçura confessional de Carole King, que naquele ano lançou o histórico álbum Tapestry, e à elegância melancólica de Carly Simon. Naquele cenário de vozes cristalinas e ídolos juvenis, o timbre ríspido e a proposta de Carnes não encontravam o contexto tecnológico e estético necessário para ressoar nas rádios.

Kim Carnes 1970 @ Getty Images

Foi sua habilidade como compositora que a manteve viva na indústria. Ela escreveu para David Cassidy e para a lenda do blues Big Mama Thornton, além de integrar a trilha sonora do filme cult Vanishing Point.
Em uma tentativa curiosa de se adaptar, chegou a gravar em 1979 sob o pseudônimo Connie con Carne, uma pérola pop que hoje diverte os colecionadores.
O reconhecimento da crítica especializada veio em meados da década, quando suas composições venceram prêmios importantes como o American Song Festival e o Tokyo Song Festival, chamando a atenção de intérpretes do calibre de Barbra Streisand, que gravou suas músicas.

Finalmente, o sucesso

Demorou nove anos para acontecer a virada estratégica, quando em 1980, Kenny Rogers encomendou a Kim Carnes e seu marido, Dave Ellingson, a criação do álbum conceitual Gideon. Eles arquitetaram e ainda compuseram as 12 faixas.

Kenny Rogers e Kim Carnes @ Getty Images

Ela também fez backing vocal e brilhou no dueto de “Don’t Fall in Love with a Dreamer”, que alcançou o Top 5 das paradas pop e country. Finalmente o sucesso batia na sua porta.

Com o terreno preparado, a explosão global ocorreu em 1981 com o lançamento do álbum Mistaken Identity. A canção “Bette Davis Eyes”, originalmente uma faixa de folk-rock de Jackie DeShannon, foi completamente reconstruída por Carnes e pelo tecladista Bill Cuomo com o uso de sintetizadores gélidos e uma batida minimalista, definindo a sonoridade da década.

O resultado foi um fenômeno: nove semanas consecutivas no topo da Billboard Hot 100 e dois prêmios Grammy em 1982, nas categorias de Gravação do Ano e Canção do Ano.

Mistaken Identity apresentava outros hits, como a faixa título “Mistaken Identity”, “Hit And Run”, “Draw of The Cards” e “Miss You Tonite”. O álbum alcançou o primeiro lugar na Billboard 200 e recebeu a certificação de platina, ultrapassando a marca de 1,6 milhão de cópias certificadas, com veículos como o Stereogum definindo o hit como uma ode à espionagem sexual.
Quando Kim estourou mundialmente com “Bette Davis Eyes” pela gravadora EMI America, sua antiga gravadora (A&M) relançou o álbum de “Sailin’”, de 1976. Com isso, a balada “It’s Not The Spotlight” virou hit no Brasil. É minha canção preferida de Kim.

Visualmente, foi também o momento em que seu corte de cabelo “shaggy” loiro se tornou icônico.
Além de seu maior sucesso, a discografia de Carnes desse período inclui o hit “More Love”, uma releitura de Smokey Robinson, e a balada “I’ll Be Here Where The Heart Is”, de Flashdance (1983).
Além de interpretar a canção, Kim assinou a composição da faixa, o que lhe garantiu seu segundo Grammy em 1984 (Melhor Álbum de Trilha Sonora Original). Nesta categoria, ela foi premiada ao lado de nomes como Giorgio Moroder, sendo reconhecida pela Academia como uma das mentes criativas por trás da trilha mais icônica daquela década.

Kim Carnes 1980 @ Getty Images

A metade da década de 80 consolidou seu nome como força criativa: em 1984, ela brilhou no trio “What About Me?” (com Kenny Rogers e James Ingram). Pouco depois, teve um momento de inspiração relâmpago ao compor o dueto “Make No Mistake, He’s Mine”. Ela escreveu a música em duas horas e, audaciosamente, enviou a demo para Barbra Streisand, que aceitou gravar o dueto imediatamente. Entrou para o álbum “Emotion”, de diva Streisand.
Sua presença no Brasil foi solidificada pelas trilhas sonoras da TV Globo. O público foi seduzido por “More Love” em Coração Alado (1980) e “Mistaken Identity” em Jogo da Vida (1981). A tensão de “Voyeur” marcou Sol de Verão (1982), mas foi em Corpo a Corpo (1984) que ela fez história ao emplacar dois hits simultâneos na mesma novela: “What About Me?” e o dueto “Make No Mistake, He’s Mine”.

Era o auge do seu sucesso. Em seguida, foi convidada para ser uma das solistas na canção “We Are the World”, do álbum USA for Africa em 1985, que foi um mega sucesso mundial e ainda recebeu quatro Grammys, incluindo Gravação do Ano e Melhor Performance Pop por Dupla ou Grupo.
Porém, as coisas tomariam outro rumo.

Durou cinco anos

O período entre 1985 e 1993 marcou uma fase de resistência artística e reposicionamento estratégico. Após o álbum Barking at Airplanes e o hit “Crazy in the Night”, Carnes começou a enfrentar o “purgatório” do etarismo pop.

Enquanto a indústria apostava em ídolos mais jovens, como Madonna, Cyndi Lauper e Whitney Houston, Kim respondeu com profundidade, lançando álbuns como Lighthouse (1986) e View from the House (1988).
Nestes trabalhos, Kim abandonou progressivamente os sintetizadores para retornar às suas raízes de folk e country, uma manobra elogiada pela crítica, mas ignorada pelas rádios pop da época.
O lançamento do álbum Checkin’ Out the Ghosts (1991) exclusivamente no Japão sinalizou o fechamento das portas do mercado mainstream estadunidense para sua faceta de intérprete.
A validação final para sua nova fase veio em 1993, quando a canção “The Heart Won’t Lie”, coescrita por ela, tornou-se um hit número 1 na voz de Reba McEntire. Esse sucesso foi o catalisador para sua mudança definitiva para Nashville em 1994.
Como intérprete, Kim Carnes fez sucesso de 1980 a 1985, período em que acumulou êxitos e prestígio. Depois, mesmo sem espaço na indústria pop, se manteve como uma das compositoras mais respeitadas dos Estados Unidos, garantindo que seu legado permaneça vivo e influente para novas gerações.

Kim Carnes 2000 @ Getty Image

Hoje, aos 80 anos (completados em julho de 2025), Kim Carnes vive uma fase que poderíamos chamar de “aposentadoria criativa e ativa”. Ela não está reclusa, mas seleciona a dedo seus projetos, longe da pressão das paradas de sucesso. Continua em Nashville e casada com Dave Ellingson, seu marido e parceiro de composição há mais de 50 anos (o mesmo com quem escreveu o álbum de Kenny Rogers).
Eles são vistos como um dos casais mais sólidos da indústria. Em apresentações beneficentes recentes (como em 2021/2022), Dave ainda aparecia tocando e fazendo backing vocals para ela, mostrando que a parceria de palco e vida segue firme.

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