Comecemos pelo óbvio, algo que a cegueira cotidiana e a repetição exaustiva dos padrões estrangeiros muitas vezes nos impedem de ver: não existe no planeta Terra uma manifestação cultural com a magnitude, a complexidade logística, a vibração humana e a potência estética do Carnaval brasileiro.
O que acontece na Marquês de Sapucaí, no Sambódromo do Anhembi ou nas ladeiras febris de Olinda não é apenas “festa”; é a maior ópera a céu aberto do mundo. É uma catarse coletiva que mistura design de alta complexidade, engenharia de som, narrativa histórica e resistência social de uma forma que a Broadway, com todos os seus dólares, seus aparatos tecnológicos e sua precisão suíça, jamais sonhou em replicar. Lá, tudo é plástico, ensaiado, previsível e feito para o turista ver; aqui, é visceral, é suor, é sangue, é improviso genial e é arte em estado puro.
Relembrar a vida e obra de Rita Lee, Ney Matogrosso, Léa Garcia e Carolina Maria de Jesus nos enche de um verdadeiro orgulho, em saber quanta gente talentosa nasceu por aqui.

Se a nossa imagem visual é imbatível, a nossa identidade sonora é a definição absoluta de sofisticação. Enquanto os Estados Unidos vendiam o rock and roll como a última palavra em rebeldia jovem, o Brasil ensinava harmonia complexa ao mundo. O jazz estadunidense, em seu momento de estagnação criativa, precisou beber desesperadamente na fonte da Bossa Nova para se reinventar. Frank Sinatra não gravou com Tom Jobim por caridade ou “boa vizinhança”; gravou por reverência e necessidade artística. A voz de Astrud Gilberto não pediu licença para entrar nas paradas americanas; ela arrombou a porta com uma suavidade que eles desconheciam e jamais conseguiram imitar.

Tivemos a Tropicália de Caetano, Gil, Bethânia e Gal, que “antropofagizou” a guitarra elétrica e devolveu ao mundo algo original, político e esteticamente revolucionário; tivemos a voz telúrica de Elis Regina e a harmonia universal, quase religiosa, de Milton Nascimento.
No cinema, a história se repete, e é aqui que precisamos ajustar nossa lente com urgência e parar de pedir validação. Sim, foi emocionante ver Ainda Estou Aqui finalmente ganhar um Oscar para o Brasil, corrigindo uma injustiça histórica que já durava décadas. E sim, estamos todos na torcida fervorosa para que O Agente Secreto repita o feito nesta temporada, consagrando o talento absurdo de Wagner Moura e a visão cirúrgica de Kleber Mendonça Filho.
Mas não nos iludamos: o nosso cinema não precisa dessa estátua dourada do homem pelado e careca para ser gigante. O Oscar é um prêmio da indústria local deles, feito para eles, que ocasionalmente olha para o quintal do vizinho. E bota ocasionalmente!

Muito antes desses prêmios, Cidade de Deus já era dissecado em faculdades de cinema de Nova York, Paris e Los Angeles como um exemplo de montagem, ritmo e fotografia insuperáveis. O cinema brasileiro é, reconhecidamente, um dos melhores do mundo. Nossos atores e atrizes — de Fernanda Montenegro a Selton Mello — entregam com o olhar, com o silêncio e com a vivência o que muitas estrelas de Hollywood não conseguem com milhões de dólares em efeitos visuais e coachings de atuação.
Fazemos um trabalho de excelência técnica e narrativa com menos de um décimo do orçamento que um blockbuster estadunidense utiliza apenas para o marketing. A estatueta é um adorno bem-vindo, claro, mas a nossa competência independe dela. Tolo é quem precisa do carimbo de um gringo para saber que o que fazemos aqui é extraordinário. A nossa excelência existe, com ou sem o aval da Academia.
E por que continuamente nos sentimos menores?
Aqui entra a profecia cirúrgica de Nelson Rodrigues. O dramaturgo cravou a expressão “complexo de vira-lata” não para falar de futebol, como muitos pensam, mas para diagnosticar uma patologia nacional: a “voluntária inferioridade” diante do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Temos o ouro, a criatividade e o borogodó, mas imploramos pelo latão polido que vem de fora, achando que ele brilha mais.

Fomos domesticados por um projeto de Soft Power implacável, desenhado desde a Política da Boa Vizinhança e consolidado no Pós-Guerra com o Plano Marshall e a expansão do American Way of Life.
Pensa bem: qual é a lógica de alguém com 40 anos citar que sua “série de conforto” é Friends, uma sitcom que apresenta uma Nova York de laboratório, asséptica, onde seis pessoas brancas vivem problemas de pessoas brancas, numa bolha de privilégio que ignora qualquer traço de diversidade étnica ou complexidade social — uma realidade que jamais foi ou será, a nossa.

O resultado dessa lavagem cerebral é a esquizofrenia tropical em que vivemos. Chega a ser humilhante ver vitrines de shoppings em Campinas ou no Recife decoradas com neve falsa de algodão e Papais Noéis agasalhados com veludo vermelho pesado, enquanto os termômetros marcam 35°C à sombra.

Importamos o Halloween com uma voracidade comercial patética, decorando casas ou vestindo crianças de bruxas de Salem e abóboras laranjas (que nem sequer plantamos aqui), enquanto o nosso folclore — rico, assustador, denso e profundamente nosso — é relegado a “coisa de escola” ou “cultura menor”. O Saci, a Iara e o Curupira não vendem fantasias no shopping; o horror gótico estadunidense, sim. E a classe média brasileira acha o máximo da diversão!
Totem Sagrado
E se esse complexo de vira-lata tivesse um objeto físico, um totem sagrado que a classe média brasileira carrega no bolso como um amuleto contra a própria realidade, esse objeto seria o iPhone. É aqui que a falta de personalidade própria da nossa burguesia aspiracional atinge o seu ápice.
Vivemos um momento fascinante na tecnologia onde os concorrentes sul-coreanos (Samsung) e chineses (Huawei, Xiaomi, Oppo, Vivo, Honor) já superaram a Apple em hardware, inovação de câmeras e velocidade de carregamento há anos. Os fatos técnicos são indiscutíveis. A linha Pura (antiga P series) e Mate da Huawei lidera o ranking do DXOMARK (a “bíblia” da qualidade de imagem) com folga. Enquanto o iPhone luta para melhorar seu zoom óptico, a Huawei já domina lentes periscópicas e fotografia noturna (focando em captar luz em escuridão total) há anos. Ela é tão superior tecnologicamente (especialmente em 5G e câmeras), que os EUA precisaram criar sanções comerciais para tentar pará-las, pois não conseguiam vencê-la no mercado livre.
Enquanto um usuário de iPhone 15/16 precisa deixar o celular mais de uma hora na tomada para carregar 100% (com carregadores vendidos à parte), topos de linha da Xiaomi (como a linha 13/14/15 Ultra) suportam carregamento de 90W ou 120W. Isso significa ir de 0 a 100% em menos de 25 minutos. Outro ponto: as telas da Xiaomi costumam ter brilho (nits) e taxa de resposta ao toque melhores.
A linha Find X da Oppo traz designs e materiais (como couro vegano e cerâmica) que fazem o vidro do iPhone parecer frágil e datado. As câmeras da Vivo (linha X100, por exemplo) têm sensores de 1 polegada (gigantescos) que entregam um desfoque natural que o “Modo Retrato” de software da Apple tenta imitar artificialmente.

No entanto, a classe média brasileira ignora a razão e abraça o fetiche. Para esse grupo, o iPhone não é um telefone; é um passaporte de pertencimento. É a prova, comprada em 24 prestações, de que eles estão “do lado certo” do mundo.
Há uma rejeição arcaica a tudo que é “Made in China”, um resquício de uma mentalidade colonial que associa o Oriente à cópia barata e o Ocidente (leia-se: EUA) à grife e à inovação, mesmo quando a realidade industrial já inverteu essa lógica.
Essa postura revela uma indigência intelectual profunda.
A classe média brasileira age como gado manso, seguindo a cartilha ideológica de uma direita que demoniza o “comunismo” chinês enquanto financia alegremente o grande capital estadunidense, pagando o triplo por uma tecnologia inferior apenas para ostentar um logotipo. É a vitória do marketing sobre a funcionalidade, do status sobre a inteligência.
Preferem o desconforto caro que remete ao Tio Sam à eficiência que vem de outros polos, provando que, para o brasileiro médio, parecer rico é mais importante do que ser esperto.
É o comportamento típico do capataz da Casa Grande: ele não é o dono, mas adora usar as roupas velhas do patrão para se sentir superior aos demais.

Essa manipulação é tão profunda que Hollywood criou até uma gramática visual para mantê-la: por contrato, a Apple proíbe que vilões usem iPhones em cena. O “mocinho” segura a maçã; o “mau” usa qualquer outra marca. A confirmação disso foi feita pelo diretor Rian Johnson (indicado ao Oscar por Entre Facas e Segredos e diretor de Star Wars: Os Últimos Jedi). Em uma entrevista por vídeo para a revista estadunidense Vanity Fair, publicada em fevereiro de 2020, Johnson explicou que a marca é extremamente zelosa com sua imagem e impõe cláusulas contratuais de product placement que impedem personagens antagonistas de segurarem seus dispositivos, para não associar a tecnologia ao “mal”.

A indústria do entretenimento dos EUA opera num sistema de narcisismo blindado. Eles produzem para eles mesmos, falam sobre eles mesmos e premiam a eles mesmos. Quando um filme de Hollywood faz sucesso no Brasil, para eles, isso é apenas um número numa planilha. Eles não têm curiosidade genuína sobre nós. Nós sabemos quem é o presidente deles, conhecemos o mapa de Manhattan melhor do que o de Brasília, e sabemos as regras do beisebol sem nunca ter jogado. Eles, em contrapartida, têm certeza que falamos espanhol.
É quase impossível lutar contra esse imperialismo. Ele é fortíssimo! Porém, além do carnaval, nossa resistência está nas novelas que param o país e ditam moda e comportamento, na MPB, no funk, no samba, nas festas de São João! O consumo da cultura deles é inevitável num mundo globalizado e conectado, mas a reverência subserviente é opcional.
Que assistamos aos filmes e séries deles, sim, mas com a espinha ereta e o olhar crítico de quem sabe que aquela realidade é uma fantasia, e não um ideal a ser alcançado. Do lado de cá da tela, existe um país que cria, que inventa e que emociona com uma profundidade que dólar nenhum pode comprar. O vira-lata só existe porque insistimos em olhar para o dono com o rabo entre as pernas, esquecendo que, na verdade, somos nós que temos os dentes afiados.
