Em janeiro de 1976, estreava “A Mulher Biônica”, uma série de ficção científica que quebrou paradigmas ao colocar uma heroína com superpoderes como protagonista absoluta no horário nobre.
Protagonizada por Lindsay Wagner, a produção não apenas conquistou uma legião de fãs em frente à tela, mas também pavimentou o caminho para as futuras gerações de mulheres na ação e na ficção.
Originalmente, Jaime Sommers apareceu em dois arcos fundamentais da série “O Homem de Seis Milhões de Dólares”, em 1975, divididos entre a segunda e a terceira temporadas. Foram esses episódios que serviram de “piloto” e justificativa para a criação da série própria.

Nos episódios 19 e 20, “A Mulher Biônica: Primeira e Segunda Parte”, Jaime é apresentada como uma tenista famosa e antigo amor de Steve Austin. Ao retornar para sua cidade natal, Ojai (California), pouco depois de reatarem um romance, ela sofre um acidente de paraquedas.
Steve convence Oscar Goldmanm, seu chefe na agência secreta do governo OSI, a dar a ela os implantes biônicos, que ele também recebeu anos antes. Porém, ao contrário dele, o corpo de Jaime rejeita os componentes. Assim, ela morre numa dramática cena que devastou o público da rede ABC.
Após a pressão popular, os dois primeiros episódios da terceira temporada da série de Steve Austin prepara o terreno para o spin-off. Em “O Retorno da Mulher Biônica: Primeira e Segunda Parte”, ele descobre que Jaime foi mantida em animação suspensa pelo Dr. Rudy Wells.
Ela é “ressuscitada”, mas a cirurgia cerebral para salvar sua vida resultou em uma amnésia total sobre o relacionamento dos dois. Este arco serviu para dar a Jaime a independência necessária para sua série solo, que estrearia meses depois.

Criada por Kenneth Johnson, “A Mulher Biônica” estreia com os episódios “Bem-Vinda ao Lar, Jaime”, apresenta a personagem voltando a Ojai, indo morar numa edícula no mesmo terreno da casa dos pais de Steve, sua estreia como professora do ensino fundamental e sua (inesperada) primeira missão como agente secreto.
Com nova roupagem, Jaime se tornou um ícone feminista da década de 1970. Se ela tivesse continuado como a “noiva salva por Steve Austin”, estaria sempre em um papel secundário. Com a morte, a ressurreição e a perda de memória, os roteiristas deram a ela um “tabula rasa” (folha em branco) para construir uma identidade própria como agente secreta, professora e mulher independente.
Foi um movimento de mercado tão bem-sucedido que a estreia da série solo, em 1976, superou a audiência da série original de Steve Austin logo nos primeiros meses.
A produção estadunidense fez história ao usar a criatividade para superar as limitações técnicas e financeiras dos anos 1970. O uso de câmera lenta acompanhada de efeitos sonoros eletrônicos inesquecíveis tornou as cenas de força e velocidade ícones eternos da televisão.
Uma curiosidade que sempre diverte os fãs mais atentos envolve os limites da personagem. Embora os roteiros estabelecessem a velocidade de Jaime em cerca de 96 quilômetros por hora, o clássico episódio “Vencer é Tudo” mostrou a heroína ultrapassando um carro de corrida a 160 quilômetros por hora, um detalhe inequívoco gravado no velocímetro do painel.
O talento de Lindsay Wagner trouxe tanta humanidade, humor e carisma à ciborgue que recebeu um Emmy de Melhor Atriz em Série Dramática em 1977. O sucesso da atração gerou uma curiosa movimentação entre as emissoras.
Após duas temporadas de alta audiência na ABC, a série foi cancelada por decisões internas, sendo imediatamente resgatada pela NBC para a sua terceira e última leva de episódios.
Oscar Goldman era o diretor do OSI (Office of Scientific Intelligence), uma agência governamental fictícia. O que o tornava único na época era o fato de ele ser o elo de ligação oficial entre as séries O Homem de Seis Milhões de Dólares e A Mulher Biônica. Richard Anderson foi um dos primeiros atores na história da TV a interpretar o mesmo personagem em duas séries diferentes que passavam em redes concorrentes (ABC e NBC).
O Fenômeno no Brasil
No Brasil, A Mulher Biônica se tornou uma verdadeira febre. Exibida inicialmente pela Rede Bandeirantes, a série formou uma dobradinha imbatível com “O Homem de Seis Milhões de Dólares”, gerando uma avalanche de produtos licenciados que dominaram as lojas e o imaginário nacional.
O estrondoso sucesso no país também se deve ao trabalho do estúdio Herbert Richers, com a voz da dubladora Marlene Costa eternizando a heroína em língua portuguesa. A obra também teve passagens pela Rede Globo e pela Rede Brasil.
Meio século após o seu lançamento, o legado da agente Jaime Sommers continua inabalável. A Mulher Biônica provou para a indústria do entretenimento que as mulheres podiam liderar franquias complexas e extremamente rentáveis, inspirando produções e fãs até os dias de hoje.
Guerra das Super-Mulheres

O ano de 1976 ficou conhecido na indústria do entretenimento estadunidense como o Ano da Mulher na rede ABC, mas isso gerou uma disputa interna sem precedentes que logo se transformaria em uma guerra aberta entre as grandes redes de TV.
“A Mulher Biônica” estreou quase simultaneamente com “As Panteras” e a versão definitiva de “A Mulher-Maravilha”, criando um triângulo de poder feminino inédito na programação.
Enquanto as detetives de Charlie apostavam no glamour e no que a crítica da época chamava pejorativamente de Jiggle TV, Jaime Sommers oferecia uma abordagem mais profunda e dramática, ao passo que a Diana Prince de Lynda Carter trazia o peso do ícone mitológico para a modernidade para o público mais jovem.

A disputa era analisada detalhadamente pela imprensa estadunidense, que colocava Lindsay Wagner, Farrah Fawcett e Lynda Carter em lados opostos de novos arquétipos femininos em construção. Enquanto As Panteras dominavam pelo apelo visual e pelo dinâmico trabalho em equipe, A Mulher Biônica trazia o dilema ético e solitário da fusão entre humano e máquina.
O ápice dessa concorrência ocorreu em 1977, quando o mercado assistiu a uma manobra corporativa raríssima que dispersou as heroínas: as três passaram a competir em emissoras diferentes.
Com a ABC mantendo a exclusividade de As Panteras, a NBC resgatando Jaime Sommers após um cancelamento precoce e a CBS assumindo a produção de A Mulher-Maravilha (que deixava o cenário da Segunda Guerra Mundial para a era atual), as três grandes redes dos EUA passaram a lutar simultaneamente pela supremacia da audiência no horário nobre.
Nas respectivas temporadas de estreia, as produções figuraram no topo dos rankings de popularidade, provando que o protagonismo feminino era a força motriz comercial e cultural daquela década.
Bastidores e Curiosidades Técnicas de A Mulher Biônica
O Truque dos Saltos Biônicos: Ao contrário do que muitos pensavam, os saltos de Jaime não usavam cabos complexos. O segredo era a simplicidade: a dublê Rita Egleston saltava de costas de plataformas elevadas para colchões. Na edição, a cena era invertida e exibida em câmera lenta, criando a ilusão perfeita do salto para frente.
O Som do “Tic Tic Tic“: O icônico efeito sonoro que acompanhava as proezas biônicas era gerado por um oscilador de sintetizador.
Acidente na Vida Real: Em 1977, Lindsay Wagner sofreu um grave acidente de carro que resultou em uma cicatriz no lábio superior. A produção foi paralisada por semanas, e a equipe teve que usar iluminação suave e ângulos estratégicos para disfarçar a marca. Wagner usou essa dor real para dar mais profundidade emocional à vulnerabilidade de Jaime.
O Terror das Fembots: As famosas robôs femininas (Fembots) causaram um efeito inesperado: as máscaras de borracha que revelavam esqueletos metálicos aterrorizaram as crianças da época. Pais enviaram inúmeras reclamações à emissora, relatando que seus filhos estavam traumatizados e com medo de suas próprias bonecas.

A “Morte” e o Protesto: O vídeo reforça que a morte de Jaime no arco original de O Homem de Seis Milhões de Dólares gerou uma onda de cartas de protesto tão grande, inclusive de hospitais infantis, que a ABC e a Universal não tiveram escolha a não ser ressuscitá-la.
Conflito Criativo: O criador Kenneth Johnson abandonou a série na segunda temporada por discordar da direção da ABC. Ele queria um foco filosófico e humano (“o que acontece com a alma na máquina?”), enquanto a emissora exigia mais explosões, ação e sensualidade para competir com As Panteras.
Objeto de Estudo: Nos anos 80, a personagem passou a ser estudada em universidades como UCLA e Stanford por representar um novo tipo de heroína: alguém que podia ser letal e gentil, subvertendo os padrões dos heróis masculinos da época.
Romance nos Bastidores: Havia rumores intensos de um romance real entre Lindsay Wagner e Lee Majors durante as filmagens iniciais. A química era tão genuína que a cena da “morte” original de Jaime é considerada uma das mais emocionantes da TV por causa dessa conexão real entre os atores. Porém, isso era boato. Lee era casado com a mega estrela Farrah Fawcett e Lindsay com o ator Michael Brandon.
Separação por Contrato: Quando a série mudou para a NBC, Lee Majors (contratado da ABC) ficou proibido de aparecer, o que forçou o fim abrupto do romance icônico e a tentativa fracassada de introduzir um novo namorado, Chris Williams.
