No Olimpo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas existe uma anomalia estatística que desafia a lógica do espectador comum e alimenta debates acalorados na imprensa especializada: a desconexão entre o Oscar de Melhor Filme e o de Melhor Diretor.
A antiga pergunta ecoa pelos corredores do Dolby Theatre: se o diretor é o capitão do navio, como pode a embarcação chegar ao porto da glória (vencer o prêmio máximo) sem que seu comandante seja sequer reconhecido como o melhor navegador? Pior ainda: como explicar, para a perplexidade geral, os casos em que o “capitão” nem ao menos foi convidado para a festa da própria indicação?
A Estatística da Cisão (The Split)

Historicamente, Melhor Filme e Melhor Diretor ocorre em cerca de 70% dos casos, contudo, em 29 ocasiões ao longo de quase um século de tapetes vermelhos, houve uma ruptura sintomática: o filme ganhou, mas o diretor voltou para casa de mãos vazias.
Este fenômeno, elegantemente batizado pela indústria estadunidense como split (cisão), tornou-se frequente no século XXI, sinalizando uma mudança curiosa na mentalidade dos votantes.
Nos últimos 50 anos, os casos mais emblemáticos desta divergência de opiniões foram:
2022: No Ritmo do Coração (CODA) venceu Melhor Filme. A diretora Sian Heder, contudo, não foi sequer indicada à categoria, e a estatueta de direção foi para Jane Campion (O Ataque dos Cães).
2019: Green Book: O Guia venceu Melhor Filme. Ironicamente, o diretor Peter Farrelly também amargou a ausência entre os indicados à direção, prêmio que foi entregue a Alfonso Cuarón por Roma.
2017: Moonlight: Sob a Luz do Luar venceu Melhor Filme. Barry Jenkins, porém, perdeu a estatueta de direção para Damien Chazelle (La La Land).
2016: Spotlight: Segredos Revelados venceu Melhor Filme. Tom McCarthy perdeu para Alejandro G. Iñárritu (O Regresso).
2014: 12 Anos de Escravidão venceu Melhor Filme. Steve McQueen perdeu para o virtuosismo de Alfonso Cuarón (Gravidade).
2006: Crash: No Limite venceu Melhor Filme. Paul Haggis perdeu para Ang Lee (O Segredo de Brokeback Mountain).
2003: Chicago venceu Melhor Filme. Rob Marshall perdeu para Roman Polanski (O Pianista).
1999: Shakespeare Apaixonado venceu Melhor Filme. John Madden perdeu para Steven Spielberg (O Resgate do Soldado Ryan).
1973: O Poderoso Chefão venceu Melhor Filme. O lendário Francis Ford Coppola perdeu para Bob Fosse (Cabaret).
Os “Diretores Fantasmas” (The Snub)

Se perder a cobiçada estatueta já é um golpe ao ego, existe um cenário estatístico ainda mais desconcertante: quando a obra vence o prêmio principal da noite, mas o nome do seu diretor sequer constou na lista dos cinco indicados. Este esnobismo supremo ocorreu apenas seis vezes na história.
Nestes casos, a Academia operou em frequências analíticas totalmente opostas:
CODA (No Ritmo do Coração) (Cerimônia de 2022): Um inegável fenômeno de feel good movie (ou filme para Sessão da Tarde). A diretora Sian Heder não foi indicada. A vitória na direção foi garantida por Jane Campion (O Ataque dos Cães).
Green Book: O Guia (Cerimônia de 2019): Levou o prêmio máximo, mas Peter Farrelly observou a cerimônia sem a indicação à direção. A estatueta coroou Alfonso Cuarón (Roma).
Argo (Cerimônia de 2013): Ben Affleck levou os prêmios da crítica e do DGA (Sindicato dos Diretores), mas foi sumariamente esnobado pela Academia. O prêmio de direção foi para Ang Lee (As Aventuras de Pi).
Driving Miss Daisy (Conduzindo Miss Daisy) (Cerimônia de 1990): Quebrou um confortável hiato de 57 anos sem essa gafe. O diretor Bruce Beresford não foi indicado. A estatueta foi parar nas mãos de Oliver Stone (Nascido em 4 de Julho).
Grand Hotel (Grande Hotel) (Cerimônia de 1932): Único caso na história em que uma obra venceu Melhor Filme sem receber absolutamente nenhuma outra indicação. O diretor Edmund Goulding foi magicamente esquecido. O prêmio de direção foi para Frank Borzage (Bad Girl).
Wings (Asas) (Cerimônia de 1929): O primeiro vencedor da história já instituiu a anomalia. O diretor William A. Wellman (um ex piloto de combate do mundo real) foi ignorado. O prêmio de direção em Drama foi para Frank Borzage (Sétimo Céu).
O Clube Fechado das Indicações (Branch Voting)

Para definir quem concorre a Melhor Diretor, apenas os diretores têm direito ao voto. O ramo de diretores da Academia é uma confraria historicamente elitista, que avalia e hipervaloriza a inovação estética, o virtuosismo técnico e a tão aclamada “assinatura de autor”.
Sob esta lupa acadêmica, eles frequentemente rejeitam diretores de filmes considerados excessivamente “comerciais” ou “funcionais” (a exemplo de Argo ou Green Book), preferindo endossar visionários técnicos (como Cuarón ou Iñárritu), mesmo que o roteiro ou o filme final destes últimos sejam alvo de polêmicas.
O Voto da Paixão (Melhor Diretor)
Depois de indicados, para escolher o vencedor da estatueta de Melhor Diretor, o sistema de votação final retorna ao Voto Simples (Plurality). Quem tiver o maior número absoluto de votos, leva.
Esta matemática favorece a Paixão Singular. Um diretor com uma visão ousada e divisiva concentra os votos dos admiradores da técnica pura, sem a necessidade política de ser “agradável” para a maioria do colégio eleitoral, como ocorre compulsoriamente na categoria de Melhor Filme.
A Democracia do Vencedor (Melhor Filme)
A regra muda de figura para escolher o vencedor de Melhor Filme. Aqui, todos os membros ativos votam (um imenso colégio eleitoral de quase 10 mil pessoas, misturando atores, figurinistas e executivos).
O sistema utilizado é o Voto Preferencial (Preferential Ballot). Os votantes ranqueiam os filmes de sua preferência. Se nenhuma obra obtiver 50% mais um dos votos na primeira contagem, o lanterna é eliminado e seus votos são redistribuídos para a segunda opção marcada na cédula.
De forma irônica, este sistema favorece o Consenso. O vencedor de Melhor Filme quase nunca é aquele que desperta a maior paixão avassaladora (o número 1 de um grupo restrito), mas sim aquele que é “menos rejeitado”, aparecendo de forma segura e consistente em 2º ou 3º lugar na lista da grande maioria.
É, em suma, o filme diplomata, aquele capaz de agradar a gregos e troianos (casos clássicos de Green Book, CODA e Argo).
Afinal, O Filme se “Autodirigiu”?

Definitivamente não. A cisão estatística reflete, na verdade, uma distinção industrial muito clara entre a Gestão e a Arte:
Melhor Filme é um prêmio de Produtores: Quando Argo vence sem Ben Affleck como diretor indicado, a Academia está batendo palmas para a eficiência da produção. Eles reconhecem que o filme funciona de forma impecável, emociona e entretém o público como um pacote logístico completo (elenco alinhado, roteiro amarrado, montagem precisa), independentemente de ostentar uma assinatura visual dita “genial”.
Melhor Diretor é um prêmio de Virtuosismo: Quando Cuarón vence por Roma ou Gravidade sem que suas obras levem o prêmio principal da noite, a Academia está declarando em alto e bom som: “Este é o feito artístico do ano, a visão mais impressionante da temporada, mesmo que o filme em si não seja o queridinho sentimental da maioria”.
O tão criticado split é, de fato, a prova incontestável de que Hollywood opera em duas velocidades paralelas. O coração da indústria (a massa plural de votantes) busca desesperadamente a emoção e o conforto da narrativa (Filme); a mente da indústria (a elite de diretores e técnicos) busca a inovação e o desafio estético (Direção).
A cisão entre Filme e Direção é, digamos assim, pode ser até saudável para o ecossistema cinematográfico. Ela permite que a Academia democratize seu próprio reconhecimento, premiando obras socialmente relevantes ou narrativamente clássicas na categoria principal, enquanto guarda a estatueta de direção para os visionários que persistem em romper as fronteiras da linguagem cinematográfica.
E isso pode acontecer no Oscar 2026?

Em 15 de março, o palco do Dolby Theatre poderá escrever mais um capítulo dessa anomalia. De um lado, “Pecadores”, o rolo compressor de Ryan Coogler que arrebatou um recorde histórico e avassalador de 16 indicações, desponta como o favorito absoluto para Melhor Filme (o abraço quente e irrecusável do consenso).
Do outro, o virtuosismo estético de Paul Thomas Anderson em “Uma Batalha Após a Outra” seduz a elite purista dos cineastas, tornando a estatueta de Melhor Direção o cenário perfeito para a Academia quitar uma antiga dívida histórica com o autor.
Se Coogler encerrar a noite levantando o prêmio principal da indústria estadunidense enquanto aplaude Anderson recebendo a glória isolada da direção, teremos a prova definitiva e televisionada de que o coração e a mente de Hollywood continuam batendo em ritmos distintos.
E que o navio, por mais majestoso e imbatível que seja nas bilheterias e nas categorias técnicas, pode muito bem atracar no porto da glória celebrando um capitão diferente.
