Embora as vitórias recentes de “Parasita” e “Tudo em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo” sinalizem uma abertura ao cinema global, a história da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas é pavimentada por escolhas conservadoras. Prestes a completar seu centenário em 2028, o Oscar ainda segue uma anatomia previsível: a preferência pelo Consenso Confortável em vez da Ruptura Desafiadora.
Quatro pilares fundamentais para ganhar o Oscar

Embora o cinema seja uma forma de expressão artística livre, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas opera sob um conjunto de padrões que se consolidaram ao longo de quase um século.
Vencer a categoria de Melhor Filme não é apenas uma questão de qualidade estética, mas o resultado de preencher requisitos que ressoam com a psicologia dos votantes.
Confira os oito passos para ganhar a estatueta dourada

1. O Humanismo Edificante
A Academia possui uma predileção histórica por narrativas que oferecem esperança. O votante médio tende a priorizar filmes que tratam de temas difíceis, desde que terminem com uma lição moral clara ou uma nota de superação.
Existe uma preferência pelo cinema que busca curar ou ensinar em vez do cinema que apenas fere ou expõe a crueza da alma humana sem oferecer redenção.
Obras como “Green Book” e “O Discurso do Rei” são exemplos perfeitos dessa busca pelo consolo moral.
2. O Suor do Espetáculo
Muitas vezes, os membros da Academia confundem a dificuldade logística de uma produção com sua qualidade artística. Filmes que exibem um esforço visível de produção, como épicos históricos com milhares de figurantes, locações internacionais desafiadoras e orçamentos monumentais, ganham uma vantagem imediata.
O prêmio acaba celebrando o suor da equipe e a complexidade da execução, como visto em “Dança com Lobos” e “Gandhi”, muitas vezes eclipsando obras mais íntimas e tecnicamente sutis.
3. O Espelho do Autoelogio
Nada seduz mais a indústria do que um filme que celebra o próprio ato de fazer cinema ou que exalta os valores da arte. Quando Hollywood olha para o espelho e gosta do que vê, a estatueta costuma aparecer.
Filmes que retratam a importância do artista na sociedade ou que homenageiam o passado clássico da indústria possuem um caminho facilitado.
Exemplos como “Argo” e “O Artista” mostram como o prestígio cresce quando o tema é a própria magia do entretenimento.
4. O Virtuosismo da Atuação de Prestígio
Um forte candidato a Melhor Filme quase sempre é ancorado por uma atuação de transformação. A Academia valoriza o virtuosismo físico, como o uso de próteses, ganhos ou perdas de peso dramáticas e a imitação precisa de figuras históricas. Quando a obra é construída em torno de uma performance que parece difícil de executar, como em “Oppenheimer” ou “Patton”, o filme ganha uma aura de importância que o projeta para o topo das cédulas de votação.
5. A Relevância do Zeitgeist
Vencer o Oscar também é uma questão de oportunidade. Filmes que conseguem capturar o espírito do tempo, dialogando diretamente com movimentos sociais, crises políticas ou debates contemporâneos, tornam-se escolhas urgentes.
O filme deixa de ser apenas uma obra de arte para se tornar uma declaração de princípios da Academia perante o mundo.
Vitórias como as de “Spotlight: Segredos Revelados” e “Nomadland” demonstram essa conexão com os temas que dominavam as conversas no momento da premiação.
6. O Selo de Aprovação dos Sindicatos
O caminho para o Oscar é pavimentado pelos prêmios técnicos que o antecedem. Como o sistema de votação para Melhor Filme é o voto preferencial, o mesmo utilizado pelo Sindicato dos Produtores (PGA), este prêmio tornou-se o termômetro mais fiel da temporada.
Um filme que conquista o respeito dos produtores e diretores nos sindicatos chega à cerimônia com uma matemática favorável, consolidando o consenso entre os profissionais que efetivamente formam o corpo votante da Academia.
7. O Voto de Reparação Histórica
Em certas ocasiões, a vitória de um filme funciona como um acerto de contas com o passado. A Academia utiliza a categoria máxima para quitar dívidas históricas com diretores ou estúdios que foram ignorados em obras anteriores mais geniais.
Nestes casos, premia-se o conjunto da carreira através de uma obra específica, mesmo que ela não seja a mais revolucionária daquele ano.
A consagração de “Os Infiltrados”, de Martin Scorsese, é frequentemente citada como um desses momentos de reparação. Mesmo sendo um bom filme, está a anos luz “Taxi Driver”, “Touro Indomável” ou “Os Bons Companheiros”.
8. A Aura do Euro-Prestígio
Existe um viés cultural persistente que associa o sotaque britânico e os cenários europeus ao conceito de alta cultura. Filmes de época, especialmente os que tratam da realeza ou de grandes conflitos europeus, possuem um selo de nobreza intrínseco que atrai os votantes mais tradicionais.
Para muitos, votar em um drama suntuoso como “O Paciente Inglês” ou “Shakespeare Apaixonado” transmite uma sensação de bom gosto e sofisticação que dramas urbanos contemporâneos raramente conseguem igualar.
As coisas parecem que estão mudando… Será?

A entrada de cerca de três mil novos membros desde 2016 (mais jovens, mais internacionais e mais diversos) quebrou o monopólio do “gosto do vovô de Beverly Hills”.
“Parasita” venceu porque o novo corpo votante valoriza a originalidade absoluta acima da tradição, assim como “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” venceu porque a Academia começou a aceitar o caos criativo como uma forma legítima de prestígio.
No entanto, como vimos em 2024 e 2025, a Academia ainda retorna para o seu “lugar seguro” sempre que possível. A fórmula não morreu, ela apenas ganhou concorrentes mais barulhentos.
25 Casos Emblemáticos

No Ritmo do Coração (CODA, 2021), de Sian Heder: Venceu pelo apelo emocional pós-pandemia. Erro histórico: Ignorou a profundidade de Ataque dos Cães, de Jane Campion.
Green Book: O Guia (Green Book, 2018), de Peter Farrelly: Venceu por uma visão simplista das relações raciais. Erro histórico: Derrotou a revolução visual de Roma, de Alfonso Cuarón.
Argo (Argo, 2012), de Ben Affleck: Venceu pelo lobby de carta de amor a Hollywood. Erro histórico: Superou a sofisticação de Amor, de Michael Haneke.
O Artista (The Artist, 2011), de Michel Hazanavicius: Venceu pela nostalgia do cinema mudo. Erro histórico: Premiou um exercício de estilo sobre a obra espiritual A Árvore da Vida, de Terrence Malick.
O Discurso do Rei (The King’s Speech, 2010), de Tom Hooper: Venceu como drama histórico tradicional. Erro histórico: Venceu A Rede Social, de David Fincher, o filme que definiu uma geração.
Crash: No Limite (Crash, 2004), de Paul Haggis: Venceu pelo didatismo social. Erro histórico: Um dos maiores equívocos ao derrotar O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee.
Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind, 2001), de Ron Howard: Venceu pela narrativa de superação. Erro histórico: Ignorou a escala épica de O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel.
Shakespeare Apaixonado (Shakespeare in Love, 1998), de John Madden: Venceu pelo marketing agressivo da Miramax. Erro histórico: Superou o impacto técnico de O Resgate do Soldado Ryan, de Spielberg.
O Paciente Inglês (The English Patient, 1996), de Anthony Minghella: Venceu pela suntuosidade épica. Erro histórico: O tempo provou a superioridade narrativa de Fargo, dos irmãos Coen.
Coração Valente (Braveheart, 1995), de Mel Gibson: Venceu pelo espetáculo das batalhas. Erro histórico: Ignorou a estética inovadora de Seven: Os Sete Crimes Capitais, de David Fincher.
Forrest Gump: O Contador de Histórias (Forrest Gump, 1994), de Robert Zemeckis: Venceu pelo apelo conservador e tecnologia. Erro histórico: Derrotou Pulp Fiction, de Tarantino, que mudou a gramática do cinema.
Dança com Lobos (Dances with Wolves, 1990), de Kevin Costner: Venceu pelo humanismo no faroeste. Erro histórico: Eclipsou Os Bons Companheiros, a obra-prima definitiva de Martin Scorsese.
Conduzindo Miss Daisy (Driving Miss Daisy, 1989), de Bruce Beresford: Venceu por ser um drama seguro. Erro histórico: Omitiu a relevância de Faça a Coisa Certa, de Spike Lee, quem nem foi indicado na categoria.
Entre Dois Amores (Out of Africa, 1985), de Sydney Pollack: Venceu pelo prestígio clássico. Erro histórico: Perdeu para a grandiosidade artística de Ran, do mestre Akira Kurosawa.
Laços de Ternura (Terms of Endearment, 1983), de James L. Brooks: Venceu pelo drama familiar equilibrado. Erro histórico: Ignorou a importância técnica de Os Eleitos.
Gandhi (Gandhi, 1982), de Richard Attenborough: Venceu pela escala de produção biográfica. Erro histórico: Carece da imaginação de E.T.: O Extraterrestre, de Spielberg.
Carruagens de Fogo (Chariots of Fire, 1981), de Hugh Hudson: Venceu pelo patriotismo britânico. Erro histórico: Derrotou a perfeição técnica de Os Caçadores da Arca Perdida.
Gente Como A Gente (Ordinary People, 1980), de Robert Redford: Venceu pela direção de atores. Erro histórico: Superou Touro Indomável, de Scorsese, considerado o melhor filme daquela década.
Kramer vs. Kramer (Kramer vs. Kramer, 1979), de Robert Benton: Venceu pelo realismo doméstico. Erro histórico: Ignorou a visão operística de Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola.
Rocky: Um Lutador (Rocky, 1976), de John G. Avildsen: Venceu pela jornada do herói popular. Erro histórico: Deixou de lado a crueza de Taxi Driver e a profecia de Rede de Intrigas, de Sidney Lumet.
Oliver! (Oliver!, 1968), de Carol Reed: Venceu como musical tradicional. Erro histórico: Absurdo absoluto diante de 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick.
Gigi (Gigi, 1958), de Vincente Minnelli: Venceu pelas cores e luxo da MGM. Erro histórico: Total incompreensão de Um Corpo que Cai (Vertigo), de Alfred Hitchcock.
A Volta ao Mundo em 80 Dias (Around the World in 80 Days, 1956), de Michael Anderson: Venceu pelo marketing de locações. Erro histórico: Ignorou Rastros de Ódio, pilar do cinema de John Ford.
O Maior Espetáculo da Terra (The Greatest Show on Earth, 1952), de Cecil B. DeMille: Venceu pelo poder do produtor. Erro histórico: Derrotou clássicos eternos como Cantando na Chuva e Matar ou Morrer.
Como Era Verde o Meu Vale (How Green Was My Valley, 1941), de John Ford: Venceu pelo sentimentalismo tradicional. Erro histórico: O erro inaugural ao derrotar Cidadão Kane, de Orson Welles.
