The B-52’s: o mais animado grupo da música pop mundial

Diversas canções marcaram e continuam marcando minha vida. Adoro, em especial, as dançantes de variados estilos. Quando questionado quais são as minhas preferidas, prontamente relacionaria várias em menos de cinco minutos. Porém, confesso: se tivesse que escolher apenas uma do The B-52’s, ficaria em dúvida.

The B-52’s – 1978 @ George DuBose

A história da música Pop reserva lugares especiais para grupos que conseguem criar um universo próprio, mas poucos são tão autênticos e vibrantes quanto o The B-52’s. Conhecido como a “Maior Banda de Festa do Mundo”, o grupo não apenas definiu a estética new wave com suas perucas colmeia e estilo de brechó, como também construiu um legado de inclusão e alegria que atravessa cinco décadas.
Tudo começou em uma noite de outubro de 1976, na pequena cidade universitária de Athens, na Geórgia. Após compartilharem um coquetel “flaming volcano” em um restaurante chinês chamado Hunan’s, Fred Schneider, Kate Pierson, Keith Strickland e os irmãos Cindy e Ricky Wilson decidiram improvisar em uma sessão musical na casa de um amigo. Sem formação técnica rigorosa, mas com uma criatividade transbordante, o quinteto moldou um som que fundia o rock dos anos 1960, o pós-punk e ritmos dançantes.

The B-52’s @ Gemini

O nome da banda surgiu de um sonho de Keith Strickland, que viu um grupo tocando em um hotel e ouviu o nome “B-52’s” ser sussurrado em seu ouvido. O termo era uma gíria sulista estadunidense para os penteados volumosos usados pelas cantoras, que lembravam o bico do bombardeiro Boeing B-52. O primeiro show oficial aconteceu no Dia dos Namorados de 1977, em uma festa privada, dando início a uma jornada que logo ganharia os palcos de Nova York, incluindo o lendário clube CBGB.

Em 1978, o lançamento do single independente Rock Lobster colocou a banda no radar da crítica. Com guitarras de afinações não convencionais e vocais que alternavam entre o falado cômico de Fred e as harmonias poderosas de Kate e Cindy, o The B-52’s trouxe frescor à cena musical.
O sucesso foi tão grande que, em 1980, John Lennon declarou publicamente que o grupo era sua banda favorita e que Rock Lobster o havia inspirado a retomar sua carreira musical para o álbum Double Fantasy.
A fase inicial rendeu álbuns icônicos como o autointitulado de 1979 e Wild Planet (1980), consolidando clássicos como Private Idaho e Give Me Back My Man. A estética marcada por cores vibrantes e uma nostalgia futurista tornou-se tão influente quanto a sonoridade do grupo.

Logo após o debut, a banda não perdeu tempo e lançou “Wild Planet” (1980). Para muitos fãs e críticos, este é o trabalho definitivo da banda, onde o som “trash-surf” de Athens atingiu sua perfeição técnica com faixas como “Private Idaho” e “Give Me Back My Man”.

Em 1982, o grupo buscou novos ares com o EP “Mesopotamia”, produzido por David Byrne (Talking Heads). A parceria foi tensa devido a divergências criativas e as sessões foram abortadas, resultando em um EP em vez de um álbum completo, mas que ainda assim trouxe uma sonoridade mais densa e carregada de sintetizadores.
Com o álbum “Whammy!” (1983), a banda abraçou de vez as baterias eletrônicas e os sequenciadores, gerando o hit “Legal Tender”. Foi com esse repertório que eles desembarcaram no Brasil para o Rock in Rio de 1985.

O ano de 1985 foi um divisor de águas dramático. Em janeiro, a banda fez apresentações históricas no primeiro Rock in Rio, no Brasil, tocando para uma multidão que nunca havia visto nada parecido.
Infelizmente, esses foram os últimos shows do guitarrista Ricky Wilson, que faleceu em outubro daquele ano, aos 32 anos, devido a complicações relacionadas ao HIV/AIDS. A perda do mentor criativo devastou o grupo, que lançou o álbum Bouncing off the Satellites em 1986 sem realizar turnês, entrando em um hiato de dois anos.

The B-52’s @ George DuBose

A superação aconteceu em 1989 com Cosmic Thing. Produzido por Nile Rodgers e Don Was, o disco transformou o The B-52’s em um fenômeno global de vendas. Hinos como “Love Shack” e “Roam” dominaram as paradas e as telas de TV em todo o mundo, apresentando a banda para uma nova geração.

O videoclipe de Deadbeat Club contou com a participação de Michael Stipe, do R.E.M., outro ícone nascido na cena de Athens.
Ao longo dos anos 1990 e 2000, os membros exploraram carreiras solo e projetos paralelos, como a participação de Kate Pierson nos hits “Shiny Happy People”, do R.E.M., e “Candy”, ao lado de Iggy Pop, mas sempre retornaram ao porto seguro da banda. Em 2008, lançaram Funplex, o primeiro álbum de material inédito em 16 anos, provando que o espírito festivo permanecia intacto. Para além da música, o The B-52’s consolidou-se como um símbolo de visibilidade LGBTQIAP+ e ativismo, apoiando causas ambientais e de pesquisa para o HIV desde os anos 1980. A banda sempre celebrou o camp, o exagero e o deboche, tornando-se um refúgio para quem se sentia fora dos padrões.

Camp and Queen

A estética do The B-52’s é uma das mais reconhecíveis e influentes da história do rock, frequentemente descrita como um encontro entre a cultura pop dos anos 60, a ficção científica de baixo orçamento e o punk DIY (Faça Você Mesmo). Para um grupo que nasceu no cenário alternativo de Athens, a imagem era tão fundamental quanto o som “trash-surf” que eles criaram.
Antes de se tornarem estrelas globais, os integrantes frequentavam brechós e lojas de caridade em busca de roupas descartadas de décadas passadas. Eles misturavam o Mod dos anos 60, com vestidos trapézio, botas go-go e ternos coloridos, ao Kitsch de subúrbio, composto por estampas de leopardo, óculos de gatinho e tecidos sintéticos. Essa abordagem não era apenas uma escolha de moda; eles celebravam o que a sociedade considerava “cafona” ou “ultrapassado”, elevando o lixo cultural ao status de arte.
Outra referência é o penteado “Beehive” adotado por Kate Pierson e Cindy Wilson. O nome “Colmeia” dos cabelos volumosos e esculturais surgiu pois lembrava o bico do bombardeiro estadunidense B-52. As perucas colmeia eram frequentemente adornadas com acessórios bizarros, reforçando a imagem de “garotas de um planeta distante”.

Cindy Wilson e seu famoso Beehive Hair @ Getty

O The B-52’s criou um conceito visual que parecia um episódio da animação dos anos 1960 The Jetsons dirigido por cineastas do movimento Cinema de Invenção.
Os videoclipes eram carregados de cores neon, elementos espaciais, como em “Planet Claire”, e referências a monstros marinhos, como em “Rock Lobster”. Eles utilizavam o absurdo e o surrealismo para criar uma atmosfera de “festa eterna”, onde o estranho era o novo normal.
A estética da banda é profundamente enraizada na cultura Camp. Trata-se do amor pelo não natural, pelo artifício e pelo exagero. A performance de Fred Schneider, com seu estilo de canto declamado e gestos teatrais, rompia com o machismo tradicional do rock ‘n’ roll.

Kate Pierson e seu famoso Beehiver Hair @ Getty

O grupo sempre exalou uma energia de liberdade sexual e de gênero que foi revolucionária para a época, tornando-se um ícone natural para a comunidade LGBTQIAP+. Eles não precisavam explicar sua “estranheza”, eles a transformavam em celebração.

Essa estética “retrô-futurista de brechó” influenciou gerações de artistas e designers de moda. De nomes como Jeremy Scott, da Moschino, a cantoras como Cyndi Lauper, Lady Gaga e Katy Perry, o DNA visual do The B-52’s, com sua mistura de humor, cor e subversão, continua vivo na cultura pop contemporânea.

Hoje

The B52’s Cindy Wilson, Fred Schneider e Kate Pierson @ Divulgação

As vendagens do The B-52’s refletem a trajetória de uma banda que começou no circuito cult e atingiu o ápice do estrelato pop global. No total, o grupo já vendeu mais de 20 milhões de álbuns mundialmente.

Em 2022, o grupo anunciou sua turnê de despedida, celebrando mais de 45 anos de estrada. Atualmente, os integrantes mantêm uma residência de sucesso em Las Vegas, onde continuam a provar que, embora o tempo passe, o convite para entrar no Love Shack e celebrar a vida permanece aberto para todos. É uma história que começou com um drink em um restaurante chinês e terminou por mudar o curso da cultura pop estadunidense e mundial.

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