Como a Estética se Tornou o Muro da Segregação Social

“Isso é cafona.” “Aquilo é vulgar.” “Esta sim é uma mulher chiquérrima!”

No tribunal cotidiano das redes sociais e nos encontros para o chá da tarde nos mais badalados cafés, proferimos sentenças estéticas como se estivéssemos avaliando a essência da alma de alguém.
Ao mergulharmos na sociologia de Pierre Bourdieu, descobriremos, contudo, que o “bom gosto” não é um dom divino, nem uma sensibilidade nata: é um mecanismo de exclusão.
É a “distinção” usada para marcar quem pertence ao topo e quem deve ser mantido na base da pirâmide.

A Ditadura do Gosto – O Julgamento na Moda @ IA

Bourdieu nos ensinou que o nosso gosto é o reflexo do Habitus — um conjunto de disposições que herdamos de nossa classe social. Quando a elite define o que é “elegante”, ela não está apenas escolhendo uma cor ou um corte de tecido; ela está estabelecendo um código que só quem tem Capital Cultural (educação de elite, viagens, acesso a museus) consegue decifrar.

Esse processo, porém, não opera apenas de cima para baixo: o gosto também é internalizado e reproduzido por todas as classes sociais, que acabam incorporando e perpetuando esses códigos como se fossem naturais.
O julgamento funciona frequentemente como um braço simbólico de exclusão social. Chamar o funk, a Anitta ou a ostentação do “novo rico” (ao apelidar as colunas dos imóveis de Goiânia de estética greco-goiana) de vulgar é uma forma de dizer: “Você pode até ter dinheiro agora, mas você não tem a nossa essência”.
É a manutenção de um clube fechado onde a senha muda toda vez que a classe trabalhadora consegue decifrá-la.

A Ditadura do Gosto – O Julgamento na Arquitetura @ IA

É preciso, porém, olhar para o que sustenta essa barreira. A arrogância do “bom gosto” é frequentemente confundida com autoridade, mas, sob a lente da psicologia social, ela se revela como uma armadura psíquica para uma fragilidade latente. Muitas vezes, a arrogância funciona como o grito de um ego que se sente ameaçado.
Quem detém o privilégio teme, acima de tudo, a “contaminação” social — a ideia de ser confundido com o “comum”. Assim, o julgamento ácido não nasce de uma segurança absoluta, mas de uma insegurança sistêmica: o medo de que, se o muro da distinção cair, não sobrará nada que sustente a ilusão de sua superioridade.
O arrogante precisa que o outro seja “menos” para que ele consiga continuar se sentindo “alguém”. É a incapacidade emocional de lidar com a alteridade, transformando o medo do desconhecido em um pedestal de prepotência.

A Ditadura do Gosto – O Julgamento na Moda @ Gemini

Se a moda é uma barreira móvel, a arquitetura e a decoração são barreiras de concreto.
Recentemente, vimos as polêmicas envolvendo Goiânia ou Balneário Camboriú, cujas construções e interiores se tornaram objeto de escárnio nas redes sociais por arquitetos e decoradores que se auto intitulam como “donos da razão”.
Aqui, a segregação social é espacial. O deboche contra as colunas neoclássicas gigantescas ou o uso excessivo de mármore e dourado é, na verdade, um ataque ao “novo rico”.
Para a elite conservadora, o luxo deve ser silencioso (quiet luxury), reconhecido apenas pelos seus pares. Quando o novo rico torna seu sucesso visível e “gritante”, ele quebra o monopólio do refinamento.
O ódio ao novo rico é o medo da elite de ver seu capital cultural desvalorizado pela força bruta do consumo. O arquiteto que ridiculariza o gosto alheio atua como um censor do habitus, tentando impor um muro de vergonha onde o muro do condomínio não foi suficiente.

Elite Conservadora vs. Novo Rico @ IA

A fria análise aqui se faz necessária ao observarmos como o sistema opera essa fragilidade. Movimentos como o Punk e o Grunge nasceram como rejeição estética da ordem dominante — e posteriormente foram absorvidos pela indústria da moda. O que o capitalismo fez? Fetichizou a pobreza.

Marcas de luxo vendem milhares de dólares da estética que, na pele de um jovem periférico, é motivo de abordagem policial. Um moletom preto com capuz é observado de formas diferentes do garoto negro nas vielas de uma favela ao branco e de olhos claros nos corredores de um shopping.
O sistema abraça o Streetwear não por uma iluminação ética, mas por sobrevivência mercadológica.

Jovens usando moletom preto com capuz @ IA

A Alta Costura, isolada em seus ateliês nas badaladas avenidas de Nova York, Milão ou Paris, precisou do “sangue das ruas” para continuar vendendo a ilusão de prestígio para sobreviver.
É a antropofagia do capital: ele come a rebeldia, digere o significado político e defeca o produto “cool” para consumo da elite, que o usa para parecer “descolada” sem nunca abrir mão de seu lugar de poder.

Precisamos encarar o julgamento como uma escolha de poder.
No rico, o julgamento é arrogância: uma recusa consciente em reconhecer o outro como igual para não ter que dividir o privilégio. É uma tentativa de transformar um privilégio acidental em uma virtude moral.
No pobre, o julgamento é muitas vezes um reflexo de sobrevivência ou a reprodução de um discurso opressor que ele foi ensinado a admirar na esperança de um pertencimento que nunca chega.

A Ditadura do Gosto – O Julgamento é universal @ IA

Se o acesso à informação — que a elite detém — não serve para destruir o preconceito, é porque o preconceito é útil. O saber que não gera empatia é apenas ferramenta de opressão intelectualizada.

Como um veículo de comunicação sensível às questões sociais, o papel do MONDO MODA é desmascarar a “elegância” que esconde esse classismo. É preciso reivindicar a moda, a decoração e a arte como territórios de alteridade, e não de distinção.
Não existe gosto “puro”. Todo gosto é político. Enquanto o “elegante” for usado para silenciar o “vulgar”, continuaremos vivendo em uma sociedade onde as casas que habitamos e as roupas que vestimos servem apenas como uniformes de guerra social.

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